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A boceta de Pandora

por Emiliano José — publicado 08/04/2009 18h22, última modificação 31/08/2010 18h28
Creio que os leitores não se chateiam com rememorações de andanças de minha juventude, temperadas com devaneios proustianos.

Creio que os leitores não se chateiam com rememorações de andanças de minha juventude, temperadas com devaneios proustianos. Eu, chegado já à casa dos 60, mergulhando em busca do tempo perdido. E perdido não porque não valera à pena, mas porque se não me esforço não o recupero para mim mesmo.

Fui assaltado por lembranças quando dei de frente com meu professor de português do ginásio. Paulo Palumbo é desses homens que nasceram vocacionados para a sala de aula. Ele me apresentou a Machado de Assis. Parafraseando Caetano, a gente sabe a quem chama de Mestre.

Eu o encontrei na sexta-feira, 27 de março deste 2009, no salão de festas de um modesto e organizado condomínio onde mora minha mãe, no Jaçanã, na capital paulista. Moro em Jaçanã, se eu perder esse trem que sai agora às 11 horas, só amanhã de manhã... Vivi minha juventude no Jaçanã. Aportei na Bahia no início de 70, fugindo da repressão da ditadura.

Minha irmã, Maria Aparecida, espécie de memória da família, organizou um lançamento sentimental de meu último livro – conta a história de Victor Meyer, revolucionário baiano, que morreu em 2001 – pretendendo juntar amigos de ginásio, e professores, se conseguisse. Vim da Bahia para viver esse momento.

Vieram alguns colegas de sala, homens e mulheres. O grande encontro, no entanto, foi com Paulo.

Entre tantas aulas memoráveis, lembrei-me da aula inesquecível.

Inesquecível não só porque o assunto, recorrente nele, era Machado de Assis, paixão imorredoura, dividida apenas com Dostoievski, mas também porque ele incendiou a sala ao falar cândida e belamente na boceta de Pandora. Expressão literal que, creio, ele retira de Memórias Póstumas de Brás Cubas, a conferir.

Os alunos machos dispararam a gargalhar, a imaginação à solta, o pensamento sobre cavalos alados.

As meninas, se sorriam, o faziam com alguma dissimulação, como cabe a moças de fino trato. Algumas recolhiam-se sérias, recatadas, intimidadas pela expressão pouco convencional. Certo que elas já tinham ouvido a expressão, que tão inocentes assim não eram. Mas, em sala de aula, tenha dó. Nem se lembravam de Pandora, cujo nome, aí sim, nunca tinham ouvido. Do resto, até que sim.

Paulo Palumbo, a meio caminho dos 30 anos, pleno de juventude, esperou pacientemente que cessasse o alvoroço provocado pela expressão, e então explicou.

Na mitologia grega, Pandora foi a primeira mulher a existir na Terra. E Paulo estudou grego bastante quando se preparava para ser padre, objetivo que se frustrou para sorte nossa. A Igreja, quem sabe, perdeu um missionário. Nós ganhamos um extraordinário professor – com vocação missionária.

Zeus tinha ficado muito puto porque Prometeu havia roubado o fogo dos deuses para dá-lo aos homens e ordenou a Hefesto que criasse um ser maldoso a quem todos os homens desejariam. Hefesto cumpriu a ordem e a mulher foi criada a partir da terra e da água. Todos os deuses lhe trouxeram presentes.

À mulher criada por Hefesto deu-se o nome de Pandora, que quer dizer cheia de dons. As meninas da sala gostaram dessa parte. Atena deu a Pandora o conhecimento das artes. Afrodite deu-lhe a beleza. Hermes, perigosamente, deu-lhe sagacidade e, ainda por cima, o dom de agradar. E as Graças, estas a vestiram. Uma belíssima e perigosa mulher.

Pandora foi, então, apresentada a Epimeteu, que a aceitou, indiferente aos alertas de seu irmão Prometeu, que sabia onde residia o perigo.

Pandora trazia consigo uma explosiva boceta – novo alvoroço, então agita a sala.

Paulo espera. Até ouvir o silêncio.

E então explica, dicionarizando o discurso: boceta é usada por Machado no sentido culto. Que não se agitassem por tão pouco. Quer dizer caixa, vaso, um recipiente.

A boceta que Pandora levava não podia ser aberta – esta era a recomendação dos deuses. Ali, naquela boceta residia o perigo.

Mas, mesmo entre os deuses, a curiosidade mata. Mentira que a curiosidade seja exclusividade das mulheres.

E Epimeteu não resistiu e levantou a tampa da boceta de Pandora. E dela saíram todos os males do mundo, seus pecados, doenças e vícios. Uma tempestade de maldades.

Pandora, cuidadosa, tentando reparar a maldita curiosidade masculina, fechou imediatamente a boceta e com isso conseguiu reter dentro dela a última virtude: solitária, restava apenas a Esperança, o último consolo do homem. Não é brincadeira uma boceta onde resida a Esperança, caixa alta, maiúscula. Onde reside uma virtude do tamanho da Esperança.

A sala ficou um pouco mais calma.

Pudesse, no entanto, o professor invadir a alma de seus alunos e alunas veria que a calma era apenas aparente.

As meninas recolhiam-se ao silêncio, pensando na força daquela mulher.

Ardiam em fogo, no entanto.

Num sacrilégio, preferiam-na a Eva. Pandora era mais fascinante.

Imaginavam-se impregnadas de dons, cheias de beleza, sedutoras, cheias de graças, e com todos os homens desejando-as, e elas escolhendo, a seu talante, o príncipe que mais lhes agradassem.

E Pandora, maior que Eva, retinha um tesouro, onde guardava a Esperança, redenção dos homens, da espécie humana.

Os meninos preferiam, aos sussurros, viajar na norma inculta, e olhavam Pandora com outros olhos, talvez, possamos dizer, lascivos. Pandora nunca imaginara pudesse aquela singela boceta causar tanto rebuliço. E Pandora cumpria os desígnios de Prometeu – cortejada por todos os homens, invejada e copiada por outras mulheres.

Não fora ela que deixara escapar todos aqueles males. Fora um homem com sua maldita curiosidade, insista-se. Ela conseguira salvar a Esperança. Bela, adorável Pandora.

Paulo, com aquela aula, sem querer, ou talvez conscientemente, aguçou instintos selvagens, resvalou os territórios cinzentos ou coloridos do inconsciente, apresentou aos seus alunos uma mulher poderosa e, com essa manobra de flanco, nos fez mergulhar no intrincado universo machadiano, nosso mais genial escritor.

Nunca mais esquecemos Machado. Por causa de Pandora. É muita coisa para uma aula só, não é?

Devo esclarecer que a aula foi dada no Colégio Estadual Professor Eurico de Figueiredo – CEPEF. Fica próximo à igreja do Jaçanã, em frente ao então Seminário dos padres camilianos, onde me iniciei como cristão para depois embarcar nas asas da revolução, história que continuarei a contar aqui, talvez em outro momento. Ali, nesse colégio, próximo também à fábrica Darling, fiz o ginásio, de tantas e tão ricas lembranças.

Soube por ele, na sexta, que a mesma boceta de Pandora lhe causara outro contratempo.

Sinal, pensei cá comigo enquanto o ouvia nessa sexta, 27 de março de 2009, que ele voltava a Machado pela mesma picada, consciente do turbilhão que causava. Respeitosamente, gostava de provocar.

Ocorre que ele também dava aula num colégio de freiras. A informação sobre a aula em que dissertara sobre a boceta de Pandora chegou ao conhecimento da vetusta madre que dirigia o respeitável estabelecimento. Paulo foi chamado pela madre diretora.

-Professor, isso aqui é um colégio de respeito. O senhor deu uma aula e usou desnecessariamente, desrespeitosamente e abusivamente o termo alusivo ao órgão sexual feminino. Isso é inadmissível. As nossas meninas ficaram horrorizadas. Aonde vamos parar com isso?

Paulo, que de Igreja Católica entendia quase tudo e que é, para ser justo, um ser temente a Deus, explicou à madre, pacientemente, o significado culto de boceta, mostrou-lhe o termo no dicionário e ancorou-se em Machado para justificar-se. E falou mais um pouco sobre Pandora.

De verdade, de verdade, não sentira horror nas meninas. Apenas um certo e natural alvoroço, um certo, como dizer?, um certo frisson.

Durante suas peregrinações de Mestre, Paulo nunca deixou de lado a boceta de Pandora, sempre fascinado pela sua beleza. A beleza da Esperança retida dentro dela, salva pela própria Pandora, inesquecível Pandora.