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Rio de Janeiro

A banda podre da polícia carioca

por Wálter Maierovitch publicado 28/02/2011 11h24, última modificação 02/03/2011 16h44
Sem prejuízo ao avanço das UPPs, urge limpar a corporação. Por Wálter Maierovitch
A banda podre da polícia carioca

Sem prejuízo ao avanço das UPPs, urge limpar a corporação. Por Wálter Maierovitch. Foto: Agência Brasil

"Eu tenho a polícia na mão.” Esta frase girou o mundo. Não foi cunhada por Rogério de Andrade, herdeiro à bala, e não por testamento, do espólio criminal e contravencional deixado pelo seu finado tio Castor de Andrade.

Rogério, chefão do bicho e capo da “máfia fluminense dos caça-níqueis”, era protegido, segundo decisão da Justiça Federal, pela quadrilha formada, ao tempo do governo da família Garotinho, pelo ex-chefe da Polícia Civil Álvaro Lins. Na prisão, Rogério montou até um escritório virtual para a gestão de seus sujos proventos.

A impactante frase também não saiu da boca de nenhum governador estadual em coletiva à imprensa e não consta do livro sobre segurança pública do especialista Anthony Garotinho. Nem ela restou solta em palestra sobre como contrastar o crime organizado que o delegado estadual Carlos Antonio Luiz Oliveira proferiu na agência anticrime e antidrogas das Nações Unidas. Essa agência da ONU está localizada em Viena e, em 2000, foi submetida à investigação a mando do então secretário-geral Kofi Annan por suspeita de abrigar nos seus quadros um agente infiltrado da máfia russa.

O delegado Oliveira tinha tudo para pleitear a paternidade da frase, não fosse o testemunho de Eliot Ness nos filmes enlatados. Oliveira foi membro da cúpula da Polícia Civil do governo Sérgio Cabral e, antes de ser preso pela Operação Guilhotina de 11 de fevereiro, dirigia, por ato formal e ainda não explicado do prefeito carioca, Eduardo Paes, as ações da municipal Secretaria Especial de Ordem Pública. No momento pesa contra Oliveira a imputação de vender armas e munições apreendidas pela polícia para o crime organizado de Ramos, sediado na Favela Roquete Pinto. Mais, seu rico patrimônio imobiliário é objeto de averiguação de compatibilidade com as suas fontes de ganhos.

Seguramente, a frase não é do defenestrado chefe da Polícia Civil do Rio, delegado Allan Turnowsky. Sobre ele recai a suspeita de vazamento de informação de operação sigilosa ao inspetor Christiano Gaspar Fernandes, que não era seu subordinado direto. Antes de ser preso, o inspetor estava lotado na delegacia da Penha (circunscrição policial a compreender o Complexo do Alemão e a Favela Santa Cruz). E Christiano é pai extremoso do chefe da milícia paramilitar que controla a Favela Roquete Pinto, em Ramos.

Segundo se propala, Christiano faria parte da quadrilha que, depois da reconquista pelo Estado dos controles territorial e social da Favela Santa Cruz e do Complexo do Alemão, participou da criminosa rapinagem apelidada de “Serra Pelada”, ou seja, de pilhagem de drogas, armas, munições e dinheiro deixados durante a fuga por marginais do Comando Vermelho.

Turnowsky é suspeito de proteger a “máfia da pirataria” com pontos até no camelódromo da Rua Uruguaiana, no centro da cidade. O ex-chefe policial acabou apanhado em duas mentiras, pois não reprimiu no camelódromo a contrafação por iniciativa própria, mas por ordem judicial. E, ao contrário do sustentado, não telefonou a Christiano com a ciência do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame.

Voltando. Al Capone foi o autor da famosa frase. E a usou para explicar os 60 milhões de dólares ganhos ilicitamente nos 13 anos de Lei Seca nos EUA. A frase é sempre recordada quando a corrupção policial avança e é flagrada.

No Rio, parte da banda podre da polícia, a operar por meio de quatro quadrilhas, acaba de ser apanhada na Operação Guilhotina, conduzida pela Polícia Federal e apoiada pelo Ministério Público Estadual. Fora isso, e na queda de braço entre o então chefe Turnowsky e o delegado Cláudio Ferraz (coautor do livro Elite da Tropa 2), vieram à luz graves irregularidades. Dois exemplos são significativos: como medida preliminar à instalação de três unidades de polícia pacificadora (UPPs) houve, no domingo 6 de fevereiro, a ocupação policial do Complexo São Carlos e de Santa Teresa.

Poucos dias antes, por informação de policial mantida na gaveta pelo crime organizado, foram retirados das favelas de São Carlos 15 fuzis, pistolas automáticas e munições. Outro vazamento significativo impediu a prisão do traficante apelidado de Roupinol, do porte de um Beira-Mar e morto em 2010. Roupinol estava escondido na Favela da Rocinha e o secretário Beltrame, para não colocar policiais infiltrados em risco, teve a prudência de suspender a operação.
A banda podre policial do Rio está empenhada em neutralizar, apesar do empenho e da correção do secretário Beltrame, o desfalque patrimonial que se tenta impor à criminalidade organizada. Em outras palavras, promove-se um “enxuga gelo”, com apreensão e posterior venda de armas, drogas e munições para a mesma ou outra organização.

Esse quadro de corrupção funcional exige imediata limpeza, sem prejuízo de se avançar na política pacificadora. O serviço de inteligência policial deve se preocupar também com os bandidos existentes dentro da corporação e diagnosticar os sinais de patologia, pois, como diz a sabedoria popular lusitana, quem cabritos possui e cabras não as tem, de algum lugar elas provêm.

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