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A babá no meme, o meme nas redes e a velha a fiar...

por Joanna Burigo publicado 16/03/2016 16h04
A facilidade com que os memes carregam significados múltiplos, se não entendida, pode corroborar com pouco além de uma cacofonia de opiniões fragmentadas
Reprodução/Facebook
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Imagem foi utilizada por uns como alegoria de um Brasil imerso em seu passado escravocrata

Reluto para começar a escrever este texto, e quase padeço ao escrevê-lo, pois prefiro discorrer sobre os encontros entre teoria de gênero e cultura pop, ou como o feminismo des/organiza a episteme. Mas, numa semana como esta, escolhi abordar a forma como um meme foi emblemático do debate político da vez.

“Estamos num universo em que existe cada vez mais informação e cada vez menos sentido.” Esta frase apocalíptica é do livro Simulacros e Simulação, em que Jean Baudrillad discute o papel dos signos na contemporaneidade, sugerindo que nossa sociedade substituiu o real por símbolos dele mesmo.

A experiência humana, de acordo com a obra, hoje depende de simulações da realidade, e a profusão de simulacros indica que o real é menos relevante do que o simbólico para a nossa compreensão das coisas.

Em tempo, o livro trata de linguagem (especialmente nas mídias), e os simulacros seriam representações do que nunca existiu na realidade (ou não possui equivalente nela), e simulações seriam imitações do que existe no mundo real.

O argumento central do livro, que é complexo para além da possibilidade de resumo em três parágrafos, é que a produção e circulação massiva de símbolos, e os múltiplos sentidos que damos a eles, acabam por esvazia-los de qualquer significado inerente. A falta de significado inerente produz um sem fim de simulacros que, por sua vez, estimulam simulação – imitações de operações reais, como... atribuir significado. E se símbolos mudam de significado a nosso bel-prazer – e os memes provam que eles mudam, e rapidamente – é possível compreender que qualquer significação é mutável.

Desde os protestos de domingo 13/03, e como já é praxe na internet em dias de manifestações políticas, uma série de memes abrasivos vem circulando furiosamente nas redes sociais, tanto para enaltecer a validade da comoção pública quanto para detratar quem exteriorizou suas insatisfações com o governo nas ruas.

Um desses memes ilustra uma discussão bagunçada (mas útil) sobre classe, cor, gênero, direitos e história do Brasil, e talvez ajude a compreender a ideia de simulacros e simulação proposta por Baudrillard.

Refiro-me à imagem da família branca de classe média alta caminhando em direção ao protesto, trajada em verde e amarelo e acompanhada de uma funcionária doméstica negra e uniformizada, que empurrava um carrinho com os bebês do casal alguns passos atrás deles.

A babá é uma pessoa real, a família é composta por pessoas reais, com vidas, histórias, relacionamentos, ideias e contas para pagar. Seres humanos que existem no real. Estas pessoas têm posturas políticas específicas, como é direito delas.

Mas dentro do argumento que estou tecendo, não importa quais sejam seus alinhamentos ideológicos, ou se eles estão em par com o meu e o seu, ou menos ainda se estas posições foram bem ou mal informadas em função de muito ou pouco acesso a educação ou informação. A vida real destas pessoas é importante, evidentemente, e é preciso ressaltar que foi à custa delas que todo o processo a ser discutido aqui se deu.

Visando elucidar a direção do argumento, vamos avaliar alguns dos muitos significados que uma representação da presença destas pessoas neste protesto gerou. O meme surge da imagem destas pessoas.

Representações não carregam, necessariamente, a verdade de quem está sendo representado. São imagens. Mas representações carregam, inevitavelmente, uma série de potenciais interpretações de várias verdades do real que estão embutidas nelas enquanto símbolos.

Da perspectiva que tenho a partir das minhas conexões nas redes sociais, a imagem foi utilizada por uns como alegoria de um Brasil imerso em seu passado escravocrata, no qual ainda podemos ver o poder organizado por gênero, cor da pele, e indumentária.

O meme, como emblema desta metáfora, é sem dúvida contundente, e negar esta relação é tão cego quanto acreditar que é somente isso que tanto o meme quanto sua reprodução desenfreada representam.

Tão logo vieram outras críticas igualmente contundentes.

Foi dito que quem reproduziu o meme pecou por paternalismo ao assumir que a babá não teve escolha quanto a ir ou não no protesto. Logo o patrão registrou seu posicionamento, dizendo que a babá é funcionária bem paga, respeitada, e que escolheu estar ali.

Na sequência apareceram comentários acerca do quão fundamental é ter diretos trabalhistas, e que tratar funcionários de forma digna não é diferencial, muito menos justificativa para uniformizá-los, assim demarcando, indubitavelmente, quem serve a quem.

Adicionou-se ao debate a ideia de que é somente com o auxílio de outras mulheres que algumas mulheres conciliam carreira e filhos, de onde veio a lembrança sobre as relações de poder entre mulheres que informam a discussão acerca de trabalho doméstico e acesso a dinheiro. Discutiu-se também hipocrisia de quem é crítico do uso leviano de imagens por ter usado esta imagem de forma tão leviana.

E apareceram as inevitáveis entrevistas; a da babá (que tem babá) reavivou a realidade da pessoa que compôs o simbolismo do meme. E então fomos alertados para o lugar de poder e interesses do veículo que noticiou a entrevista. E de outros que noticiaram o tema. E assim por diante.

Neste balé de significações, o meme serviu de simulacro para que simulássemos seus mais diversos significados. E isso não seria de todo ruim, se cada uma dessas significações fosse adicionada às outras, e a outras, para progredir o entendimento das coisas.

Mas apontaram-se dedos na direção de quem apontou dedos para quem usou o meme para apontar dedos. O paternalista no trabalhista, o trabalhista no racista, o racista na feminista, a feminista no meme, o meme na mídia, a mídia no Facebook, o Facebook na gritaria... e a velha a fiar.

Foi na seara do simbólico que uma representação específica de pessoas reais, cujas realidades são desconhecidas para quem não pertence aos círculos sociais imediatos destas pessoas, tomou proporções épicas-de-24h-na-internet, e acabou por ajudar a demonstrar nosso recente hábito de discutir a partir de informações fragmentadas.

Um meme é tudo aquilo que é copiado, imitado e reproduzido com rapidez. Esta velocidade, típica dos conteúdos ditos “virais” na internet, não é, em si, um problema. No entanto, a brevidade com que compartilhamos símbolos online pode atropelar um elemento crucial: a reflexão acerca do conteúdo propagado. Na falta de reflexão a respeito dos símbolos do real, corremos o risco de simular a dialética a partir de uma roleta de significados atribuídos a um simulacro de informação.

Não critico aqui a existência dos memes, nem do simulacro, pois compreendo que eles cumprem um papel interessante na propagação de ideias. Apenas pontuo que a facilidade com que os memes carregam significados múltiplos, se não for entendida como tal, pode corroborar com pouco além de uma cacofonia de opiniões que surgem, e permanecem, fragmentadas.

E é aqui que a análise catastrófica de Baudrillard ressoa. Nos últimos parágrafos do livro ele sugere que já não pode haver a ilusão de que fatos venham a adquirir qualquer força de realidade, pois dada a possibilidade de atribuir quaisquer significados a quaisquer símbolos, arriscamos perder qualquer senso de solidariedade mental ou política.

O maior risco de levar o debate adiante usando apenas fragmentos de informação é esta falta de solidariedade, que leva à desumanização de quem participa deste processo.

A dialética parte do pressuposto que um interlocutor está apreendendo o discurso do outro, para refletir e então oferecer contrapontos. A forma como muitas vezes nos atacamos a partir de informações meméticas não é dialética.

Não se pode presumir que quem compartilhou o meme desconsiderou todas as possibilidades interpretativas carregadas por ele, tampouco que quem criticou o compartilhamento tenha pensado em todas. Na presunção de qualquer uma destas duas hipóteses, ou seus reversos, outro é transformado em objeto abjeto – um ser que posta, mas não pensa.

Esperamos articulação perfeita e completa, mas esquecemos que nem sempre fazemos isso. Aparentamos ter pouca paciência para digerir os termos do debate, e um desejo inexplicável de linchar quem não expressa, imediatamente, significados que batem com os nossos.

Queremos ser ouvidos, e precisamos ser. Queremos estar certos, mas nem sempre estamos. E queremos tudo na hora. Esperamos que o fragmento de informação que conseguimos expressar seja compreendido como a parte comunicativa de um processo cognitivo mais complexo. Mas tomamos o fragmento exposto pelo outro como a inteireza do seu pensamento. 

Empatia. A compreensão de que, para o outro, o meme também é simulacro.  Ouvir, ou ler o outro, refletir. Compreender que mais de um “certo” e mais de um “errado” são possíveis, pois são símbolos, e símbolos são relativos a seus significados, que são mutáveis. E que o tempo é um amigo, ele permite a reflexão. 

Imagens de passeatas fornecem recursos preciosos para uma série de análises sociais, políticas, semióticas, e mais. Memes tem o poder de virar fast flags temporárias para clamores ideológicos oriundos de uma série de identificações, o que é sensacional – mas são sempre invasivos e geralmente desrespeitosos quando envolvem pessoas reais.

Não é a existência do meme, nem do simulacro, o que explica por que certos deles acabam servindo de gatilho para silenciamento antes mesmo que se inicie um diálogo. Somos nós.

O meme da babá demonstrou algumas coisas. Ele foi um simulacro onde simulamos uma série de significados, que apesar de potentemente emblemáticos, não necessariamente correspondiam com a realidade de quem a ele serviu como símbolo.

A segunda, que temos mesmo aptidão para interpretar as coisas como bem entendemos. A terceira, que estamos tão acostumados a batalhar por símbolos que nos desumanizamos através deles: usamos as insígnias que nos convêm, e apontamos dedos para quem as usa como lhes convêm... e a velha continua a fiar.  

Baudrillard estava certo; vivemos uma era de acontecimentos cujo simbolismo é mais efervescente do que suas realidades. Mas ele também disse que somente o terror pode nos devolver algum senso de materialidade, e embora eu ache seus argumentos proféticos, concedo que nem ele estava certo na inteireza de sua análise: no fim das contas até mesmo o terror caiu nas armadilhas do espetáculo memético para tornar-se tão simbólico quanto permanece sendo horrivelmente real. A #jesuischarlie que o diga. 

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