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A arte do tempo

por Thomaz Wood Jr. publicado 04/11/2012 11h14, última modificação 06/06/2015 19h24
Pesquisador da Universidade de Minnesota procura entender fenômenos empresariais a partir da linguagem da música
musica

Tim Geers/Flickr

Conta-se que, ao final de uma conferência do Partido Comunista, durante a era soviética, foi realizada uma homenagem a Josef Stalin. Então todos se levantaram e aplaudiram com entusiasmo, por três minutos... quatro minutos... cinco minutos... O tempo foi passando e aplaudir foi se tornando cada vez mais doloroso, mas nenhum dos presentes se arriscava a ser o primeiro a parar. A polícia secreta estava atenta. Os aplausos passaram dos dez minutos, e ninguém manifestava a intenção de parar. Entre os presentes estava o diretor de uma fábrica. Aos 11 minutos, ele parou de aplaudir, sentou-se e foi seguido pelos demais. Na mesma noite, foi preso sob um pretexto: seu interrogador lhe disse para nunca ser o primeiro a parar de aplaudir.

A historinha faz parte do livro When: The Art and Science of Perfect Timing, de Stuart Albert, programado para lançamento em 2013. Albert é professor da Carlson School of Management da Universidade de Minnesota. O livro é fruto de duas décadas de pesquisa e reflexão do autor.

O pitoresco fato ilustra um dilema comum: qual é o momento certo para agir? Uma empresa criativa e empreendedora, ao lançar um novo produto, pode estar se adiantando ao seu tempo e não encontrar o mercado pronto para absorver a inovação proposta. Caso decida aguardar, porém, poderá testemunhar com desgosto um concorrente capturar a vantagem de ser o primeiro a chegar aos clientes.

Executivos veem-se diariamente diante de decisões relacionadas ao tempo. Qual o momento certo para expandir nossos negócios? Quando devemos iniciar o processo de internacionalização da empresa? Devemos contratar mão de obra agora ou aguardar o aumento da demanda? Se agirmos agora, estaremos nos precipitando? Se não agirmos, nossos concorrentes passarão à nossa frente?

O frenesi competitivo dos últimos anos levou as empresas a buscar rapidez em suas ações. Quem sai na frente tem a vantagem do pioneirismo: fortalece sua imagem, chega antes aos clientes, ocupa o mercado, consegue trabalhar com maiores margens de lucro e inibe a ação de concorrentes. Entretanto, a rapidez cobra seu preço. Os pioneiros podem errar nas escolhas tecnológicas, enfrentar mercados imaturos e instáveis, sofrer para convencer os potenciais clientes a adotar a novidade e penar para operar novos canais de distribuição. As revistas e livros de negócios estão cheios de narrativas laudatórias de empresas criativas, porém, para cada história de sucesso há várias histórias de fracasso, de organizações que erraram o passo da inovação.

Por que temos tanta dificuldade para lidar com questões relacionadas ao tempo? Os suspeitos usuais são a complexidade e a incerteza ambiental. Albert acredita, contudo, que o problema principal é a forma como nós descrevemos o mundo ao redor, sem incluir as sequências, intervalos, sobreposições e outras características temporais de tudo o que acontece: de cada plano e de cada ação. Ao raciocinar de forma estática, empobrecemos nossa percepção sobre a realidade e, assim, corremos o risco de tomar decisões inconsistentes.

O que fazer? Para conduzir melhores análises e poder tomar melhores decisões, sugere o pesquisador, é necessário incorporar a variável tempo: encontrar padrões temporais e analisá-los. Albert advoga que devemos olhar para os fenômenos a ser analisados, sejam eles decisões corporativas ou crises políticas, como se olha para a partitura musical de uma sinfonia. Uma partitura musical contém duas dimensões: a dimensão vertical apresenta os diversos instrumentos e a dimensão horizontal apresenta o que cada instrumento tocará.

Os eventos se desdobram de forma similar nas empresas. Muitas ações ocorrem simultaneamente (a dimensão vertical), e cada indivíduo ou grupo segue uma sequência própria (a dimensão horizontal), com seu ritmo e suas pausas. O conjunto poderá produzir um resultado harmônico e prazeroso, ou apenas gerar dissonância e ruído. Algumas empresas são verdadeiras orquestras sinfônicas, com seus naipes perfeitamente sincronizados, produzindo música de alta qualidade. Outras se assemelham a bandas de jazz, permitem aos seus músicos criar e improvisar a partir de padrões predefinidos. Algumas, entretanto, perdem o ritmo, atravessam constantemente a melodia e alienam sua audiência.

Dominar a arte do ritmo e do tempo não é tarefa simples. Leonard Bernstein, Herbert von Karajan, Duke Ellington e Benny Goodman não se formaram em pouco tempo. Observando, porém, a ação desses mestres, e adotando as lentes propostas por Albert, talvez possamos desenvolver nossa sensibilidade, somar arte e ciência, e compreender melhor a inexorável experiência do tempo nas empresas e fora delas.

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