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A alma do negócio

por Redação Carta Capital — publicado 26/01/2012 11h19, última modificação 26/01/2012 11h19
A alma do negócio não é mais ser curto e grosso. É preciso entrar em detalhes: 'fomos atrás dessa Mimosa para colocar dentro dessa caixinha'. Por Alberto Villas
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'Os franceses fazem questão de dizer que o queijo de cabra é de la ferme, como se houvesse o queijo de uma cabra que não fosse da fazenda e sim da metrópole'. Foto: Reprodução/Ernst Ludwig Kirchner

Por Alberto Villas

 

Era tudo simples, bem simples. Para fazer beber Grapette, bastava dizer “quem bebe Grapette repete”. Se era Coca-Cola, “isso é que é!”. E pronto. Para convencer a dona de casa que o Bombril tinha mais de mil utilidades no lar, era só dizer isso: “Bombril tem mil e uma utilidades” e nada mais. Nescau tinha gosto de festa e todo mundo sabia que se era Bayer era bom.

C&A? Use e abuse! Houve uma época em que as pessoas pegavam um chinelo Rider e davam férias a seus pés. Muitas vezes comprava uma geladeira mesmo sabendo que não era lá uma Brastemp. Com um sorriso Colgate, as mulheres sabiam que o importante era ter Charm. Ninguém tinha dúvida: “Se a marca é Cica bons produtos indica!” Maggi era o caldo nobre da galinha azul e as Havaianas eram as legítimas. Ninguém esquentava a cabeça. Tomava um Doril, a dor sumia. A única dúvida era se Tostines vendia mais porque era fresquinho, ou era fresquinho porque vendia mais.

Nessa época, meio de molho em casa, tenho tido tempo para toda manhã passar um bom tempo na mesa do café aproveitando para ler as embalagens. Vivemos um tempo em que a alma do negócio não é mais ser curto e grosso. É preciso entrar em detalhes, convencer.

Na caixinha de leite, os donos explicam: “Sabe aquela vaca Mimosa que seu avô gostava tanto, o xodó da fazenda, aquela que dava baldes e baldes de leite todos os dias? Pois é, fomos atrás dessa Mimosa para colocar dentro dessa caixinha o leite mais saudável e fresquinho do pedaço”. Tudo bem.

E na embalagem do suco de laranja? “Suco natural de laranja feito por jovens cansados da mesmice!” Os ingredientes? Suco de laranja, funk carioca e uma pitada de bom humor. Isso mesmo. Laranjada com pitadas de bom humor.

Na caixinha de chá uma outra história. Os fabricantes passaram meses e meses tentando descobrir qual era o segredo do sabor daquele chá maravilhoso que é vendido nas praias de Ipanema em dias de sol. Aqui está o chá, igualzinho aquele em que o vendedor gritava: “Olha o maaaate!”

Não é de hoje que a França cultiva a literatura em suas embalagens. Outro dia percebi que tem uma marca de geléia em que a geléia não é simplesmente uma geléia, é uma “rapsódia de frutas”! Andando por Paris você tromba em  placas que mostram que aquele sorvete é fabricado comme autrefois, quer dizer, como antigamente. Tudo parece ser feito artesanalmente como a vovó fazia, numa clara alusão aos bons tempos que voltaram.

Os franceses fazem questão de dizer que o queijo de cabra é de la ferme, como se houvesse o queijo de uma cabra que não fosse da fazenda e sim da metrópole. Tudo isso sem contar os produtos orgânicos, os tais bios, que invadiram as prateleiras dos supermercados.

Em Londres, diz a embalagem, os ovos de patos, patos criados ao ar livre comendo minhocas, “são colhidos em ninhos de capim por criadores selecionados e apaixonados pelo que fazem”. O grapefruit do suco de caixinha, dizem eles, “são colhidos por mãos carinhosas e colocados cuidadosamente em cestos de vime para que não peguem o amargor”. O tomate do big hambúrguer de uma rede multinacional de lanchonetes - diz a propaganda de duas páginas nas revistas – são fresquinhos, “colhidos diariamente e entregues diretamente às lojas, sem intermediários”. E sem agrotóxico, presumo eu.

Enfim, parece que estamos mesmo voltando aos bons e velhos tempos, aos tempos das nossas avós. Só que no tempo da minha avó a vaquinha Mimosa existia mesmo e o leite que ela produzia era quentinho, cremoso, espumoso, cheio de nata ao ferver. Mas se deixássemos um dia inteiro fora da geladeira azedava, virava coalhada. O da Mimosa de hoje, esse dura mais. Segundo a informação da caixinha vale por dois anos, quer dizer, está valendo até a copa de 2014.

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