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Sobre solo contaminado, USP Leste segue paralisada

por Paloma Rodrigues — publicado 20/09/2013 16h35
Concentração de gás metano e porção de terra misteriosa levaram professores a cruzarem os braços. Reitoria afasta diretor, mas aulas seguem suspensas
Facebook / DCE Livre da USP
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Alunos, professores e funcionários protestam em frente à reitoria da USP, nesta quinta-feira 19, enquanto o comando de greve se reunia com direção da universidade

No subsolo do campus da USP na zona leste de São Paulo há uma grande concentração de gás metano. Perto das salas de aula, ninguém sabe ninguém viu quem são os responsáveis pelo depósito de 7.200 m³ de terra, equivalente 480 caminhões, possivelmente contaminada e levada ao local há mais de dois anos. O material libera um líquido de forte odor, o que atrapalha a rotina de alunos, funcionários e professores desde o ano de 2011.

A situação na unidade da maior universidade do País teve seu estopim no último dia 6 de setembro, quando a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (CETESB) instalou uma placa no local para indicar que parte do terreno do campus da USP Leste contém “contaminantes com riscos à saúde”. A preocupação levou a comunidade acadêmica a se reunir em uma congregação, na qual foi votada a paralisação geral na unidade, que está em greve desde o dia 11 de setembro.

O professor do Departamento de Geofísica do Instituto de Astronomia e Geofísica (IAG) da USP, Carlos Mendonça, que orientou um trabalho de mestrado no solo da unidade, explica que a questão da terra e do gás não tem ligação e que os são problemas distintos.

Segundo ele, o acúmulo de gás não está circunscrito ao terreno da universidade. “Ele acontece em vários pontos ao longo da várzea do Rio Tietê”, diz. “O que se faz são medidas preventivas, porque quando esse gás começa a se concentrar as pessoas não percebem a diferença na atmosfera. O risco é que, em um dado momento, você já estaria respirando uma mistura que é combustível e não perceberia”, completa.

Em nota, a CETESB informou que “a USP Leste possui a Licença de Operação nº 2118, emitida em 29 de novembro de 2012 pela CETESB, onde o órgão estabeleceu uma série de exigências para que os problemas no solo da unidade fossem resolvidos”. Segundo o professor do IAG, a universidade teria de passar a realizar diariamente testes em cerca de 380 pontos diferentes para monitorar a situação do gás no subsolo do terreno. Os dados deveriam ser encaminhados à Companhia, para que em caso de anormalidades ela entrasse em ação.

Em 2 de agosto de 2013, a Companhia emitiu um Auto de Advertência À USP, pelo não cumprimento das exigências da Licença. A direção da unidade recebeu, então, o prazo de 60 dias para cumprimento dessas exigências.

Terra contaminada. Os alunos afirmam que a porção de terra foi depositada no terreno enquanto eles estavam em recesso, durante o feriado do dia 7 de setembro. “Existe o prédio I1 e, ao lado, existia um terreno onde se construiria um prédio espelho, o I2. Mas nesse terreno nunca foi construído nada. Quando voltamos às aulas encontramos uma terra roxa muito estranha ali”, diz o estudante de Gestão de Políticas Públicas Marcelo Fernandes. “Os professores de Gestão Ambiental acharam estranho e comunicaram a CETESB, que até autuou a universidade. O que a USP fez foi cobrir essa terra com uma outra terra, para esconder o problema.”

A diretora do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Joyce Martins, que não estuda na unidade da USP Leste, mas está acompanhando o caso desde o início, afirma que a procedência da terra nunca foi informada pela diretoria da universidade, mas que alguns professores tiveram a informação de que ela seria proveniente de postos de gasolina e seria de responsabilidade de construtoras. Marcelo Fernandes confirma a ausência de explicações e diz que rumores sobre a procedência da terra passaram a surgir entre os alunos. “No começo, todo mundo se assustou com os rumores de que a terra poderia ser contaminada, mas como não tínhamos provas, as aulas seguiram normalmente”, conta.

Em outubro de 2011, o promotor José Eduardo Ismael Lutti abriu inquérito para apurar a procedência do material. Na investigação, além do diretor da USP Leste, é citada também a construtora Cyrela. Uma denúncia anônima aponta que a empresa teria despejado no campus terra e entulho de suas obras.

Tanto a CETESB quanto os técnicos do IAG afirmam que o risco de explosão é muito baixo, já que não há acúmulo do gás em lugares fechados. Com relação à terra, o temor é quanto aos materiais tóxicos que podem fazer parte da composição do material. "Tivemos acesso a apontamentos que mostram que na terra tem chumbo, iodo e uma série de outros componentes que não puderam ser identificados ainda e que podem causar uma série de danos à saúde, inclusive câncer", diz o estudante.

Na quinta-feira 19, o comando de greve se reuniu com a reitoria da universidade, que confirmou o afastamento do diretor José Jorge Boueri Filho, alegando licença médica. O pedido de afastamento de Boueri partiu de alunos, funcionários e professores em uma congregação realizada no dia 11 de setembro. Eles alegam perseguição por parte do diretor a alunos e funcionários que questionam as atividades realizadas dentro do campus, além dos problemas estruturais enfrentados pela unidade e, segundo eles, negligenciados pelo diretor. Foi empossado, então, o vice-diretor Edson Leite, mas o comando de greve expôs sua insatisfação com o novo nome. Eles dizem que Leite também persegue estudantes dentro da universidade. A reitoria afirmou que investigará o caso e trará um posicionamento na próxima quinta-feira.

Nenhuma ação prática de infraestrutura foi anunciada pela reitoria atéo momento. Ela afirma que cabe à Superintendência do Espaço Física (SEF) da USP um posicionamento com relação aos problemas envolvendo a terra contaminada e o acúmulo de gás e que o órgão se posicionará nas próximas semanas

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