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O boleiro e a BBB

por Sergio Rizzo — publicado 31/05/2011 20h31, última modificação 03/06/2011 14h53
Um caso extraconjugal, uma amante chantagista e um debate sobre privacidade... No Reino Unido. Por Sérgio Rizzo, de Londres
O boleiro e a BBB

Um caso extraconjugal, uma amante chantagista e um debate sobre privacidade... No Reino Unido. Por Sérgio Rizzo, de Londres. Foto: Christof Stache/AFP

No atraente cardápio britânico de temas a explorar durante a semana, despontava como alternativa promissora a possibilidade de comparar e avaliar, em um confronto transatlântico de estilistas, os vestidos usados pela duquesa de Cambridge, recém-chegada da lua de mel nas Ilhas Seychelles, e pela primeira-dama dos EUA durante a visita de seu marido ao Palácio de Buckingham.

Boas imagens e maledicências também viriam, era razoável presumir, da ida da rainha à abertura da exposição de flores de Chelsea, evento momentoso frequentado por queridinhos da mídia britânica. E, caso fosse preciso investir em uma trilha de caráter mais catastrofista, a erupção de outro vulcão islandês ameaçava fechar novamente o espaço aéreo no Norte da Europa.

Apesar desses protagonistas ilustres em situações de tamanho apelo, os personagens da novela inglesa de maior audiência nos últimos dias são um veterano ídolo do futebol em uma das semanas mais importantes de sua carreira, uma ex-participante do Big Brother, os poderes Legislativo e Judiciário, um ameaçador escritório de advocacia, a mídia e 75 mil usuários do Twitter.

Cursos de roteiro podem propor a seus alunos o desafiador exercício de combinar esses elementos em uma história que seja capaz, simultaneamente, de falar à curiosidade pela vida alheia e de promover uma discussão sobre a cidadania em tempos de internet. Quem chegasse mais perto ganharia a oportunidade de fazer uma oficina com Tom Wolfe sobre como a vida pode imitar A Fogueira das Vaidades.

Em meados de abril, a mídia da Inglaterra e do País de Gales recebeu uma ordem judicial de embargo. Proibia-se qualquer menção ao nome, posição e títulos conquistados de um jogador que teria mantido um caso extraconjugal com a ex-BB Imogen Thomas. O juiz que expediu a ordem teria se baseado em indícios de que a moça havia chantageado o ex-amante: 50 mil libras em uma primeira negociação, 100 mil libras em seguida. Se não recebesse o cala-boca, ela contaria sua versão da história para o tabloide The Sun.

Em respeito à determinação, os tabloides jogaram Imogen na fogueira e preservaram a identidade do craque. Com o tempo, as informações começaram a vazar. Sabia-se, por exemplo, que era um jogador do Manchester United. Os suspeitos pertenciam a um grupo reduzido de casados. No Twitter, usuários começaram a nomear o infiel: o galês Ryan Giggs, de quem o jornal escocês Sunday Herald, fora do alcance do embargo, publicou, na primeira página da edição do último domingo, uma foto com os olhos vendados, associando-o ao segredo mais conhecido do Reino.

No mesmo dia, durante a última rodada do campeonato inglês, torcedores do Blackpool em visita ao estádio do Manchester United entoaram cânticos irônicos e impublicáveis em homenagem ao jogador, que não acusou o golpe e manteve-se sorridente. A história adquiriu outra dimensão na tarde de segunda-feira, quando um parlamentar de Birmingham, John Hemming, do Partido Liberal Democrata, sacudiu o plenário ao dizer que “é impossível prender as 75 mil pessoas que identificaram Ryan Giggs no Twitter”.

Hemming foi interrompido pelos -colegas, mas o estrago estava feito. O primeiro-ministro David Cameron, em entrevista a um programa de tevê, afirmou que também sabia quem era o tal jogador, “como todo mundo”, e anunciou a intenção de formar uma comissão para rever o que o diário The Independent chama de “atos de mordaça”. Ao menos 333 embargos, de acordo com levantamento do jornal, determinados pelo Judiciário nos últimos cinco anos.

As declarações de Hemmings e de Cameron levaram toda a mídia, inclusive a de prestígio, a desrespeitar o embargo, para irritação de juízes que lembraram o fato de que a determinação continua a valer, mesmo que todo o país saiba da história. No Parlamento, embora a avaliação dominante seja a de que Hemmings foi irresponsável e quis chamar a atenção para sua figura, formou-se o consenso de que a legislação sobre privacidade não dá mais conta da circulação de informações pelas redes sociais e precisa ser revista.

Aberto o baú, soube-se que o escritório de advocacia Schillings, contratado pelo jogador (e por diversos outros clientes milionários envolvidos em situações semelhantes), havia acionado judicialmente o Twitter para que apontasse a identidade dos responsáveis por mencionar Giggs como o protagonista do episódio, um universo de gente que teve suas mensagens multiplicadas por um número incalculável de outros usuários. Mesmo se fosse obrigado a fazer isso, como o Twitter procederia? E, na hipótese de ter essas informações, a Schillings processaria todos os usuários?

Na mídia, as avaliações parecem divididas. Entre os tabloides, a circulação da informação no Twitter e o desrespeito ao embargo foram tratados como atos de “desobediência civil” em nome da liberdade de expressão. Essa presunção foi ironizada, entretanto, por articulistas de jornais como The Independent, The Guardian, The Times e The Daily Telegraph, para os quais a imprensa marrom agiria em causa própria, interessada apenas em bombardear o Judiciário para ter a liberdade de explorar escândalos privados. Dos 333 embargos estimados, apenas 28 envolvem maridos em casos extraconjugais, enquanto 264 protegem crianças e adultos em “situação de vulnerabilidade”.

O consenso é o de que Giggs e Schillings- cometeram um grande erro de avaliação. Sem a ordem judicial, a história extraconjugal teria alimentado os tabloides por alguns dias e sido rapidamente substituída pelo próximo na fila, como ocorreu recentemente com outro ídolo do Manchester United, o atacante Wayne Rooney, envolvido em escândalo com prostitutas. O embargo criou uma bola de neve, forçou a mídia a falar do assunto e expandiu consideravelmente o público de uma notícia que se pretendia abafar.

Por uma infeliz coincidência que amplificou o barulho, espera-se que Giggs esteja em campo no sábado 28, em Londres, para disputar a final da Liga dos Campeões da Europa contra o Barcelona. Do céu ao inferno, e do inferno... ao segundo subsolo do inferno?

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