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Sociedade

Pirâmide social

2022: o futuro é logo ali

por Renato Meirelles — publicado 05/01/2013 06h59, última modificação 05/01/2013 06h59
As conquistas alcançadas pelo consumidor emergente projetam boas perspectivas para a próxima década
Classe média

Foto: Breno Fortes/CB/D.A Press

Uma das tarefas mais difíceis para quem se predispõe a analisar cenários socioeconômicos de qualquer espécie é a de traçar tendências de longo prazo. Mesmo com a enorme gama de indícios existentes, sempre há espaço para o imprevisto e a confirmação das teses tende a ser improvável. Isso vale também para o futuro da população emergente, em especial da nossa classe média brasileira, público que tenho estudado com bastante atenção nos últimos dez anos. Entretanto, por mais que não possamos ter clara a situação do País em 2022, alguns aspectos podem e devem ser considerados. Um deles é que as conquistas alcançadas pelos emergentes nacionais até aqui projetam boas perspectivas para a próxima década. Isso é inegável. Outro aspecto importante: as políticas públicas dos governos, sejam eles integrantes de quais partidos forem, situação ou oposição, deverão ser direcionadas para a manutenção dos ganhos econômicos dessa parcela da população. Caso contrário, seus candidatos sofrerão nas urnas revezes eleitorais.

A expansão da nova classe média que, atualmente representa a metade da população brasileira, aconteceu pela melhora da renda de quatro protagonistas: negros, mulheres, nordestinos e jovens. Em dez anos, os montantes da renda de negros e mulheres cresceram mais que as somatórias dos rendimentos de não negros e homens. Na Região Nordeste, onde existia a predominância da classe baixa, houve uma migração considerável de pessoas para a classe média. Em relação aos jovens, o avanço materializa-se por meio do acesso a melhores níveis educacionais que a geração anterior. Esses aspectos da movimentação socioeconômica no País, revelados em números por pesquisas das mais variadas, são percebidos no dia a dia durante minhas viagens Brasil adentro. Seja nos aeroportos, seja nos shopping centers, nas universidades ou nos escritórios de grandes empresas, estamos identificando uma dinâmica de transformação que não se resume às variáveis de consumo. Vai muito além. Abrange, inclusive, hábitos de vida e de relacionamento.

 

 

Essas mudanças econômicas dos últimos anos contribuíram não apenas para o aumento da renda dessas pessoas, mas para a melhora da autoestima. E com isso veio o otimismo, que impacta todos os setores da vida desse brasileiro. Oito em cada dez integrantes da classe média brasileira acreditam que a vida financeira vai melhorar no futuro próximo. Sete em cada dez afirmam que o País terá melhoria. Em estudos recentes conseguimos constatar que são os otimistas que consomem mais, estudam mais e empreendem mais. Não é à toa que a classe média apresenta esses índices em constante ascensão. Em 2012, consumiram mais de 1 trilhão de reais. Entre eles, quase a metade da nova geração estudou mais que seus pais. Mais escolarizada, essa parcela da população já tem acesso a ocupações que exigem maior qualificação e, consequentemente, oferecem melhores salários. Enquanto profissões como domésticos e pedreiros imperavam entre as profissões paternas, os filhos da classe média atuam como vendedores e operadores de caixa, entre outras profissões que exigem mais conhecimentos.

Além disso, esse aumento da escolaridade, que influenciou na conquista de melhores empregos, impulsionou a nova geração da classe média a se manter mais informada, inclusive por meio da internet. A descoberta das novas tecnologias serve como base para os estudos e é a razão primeira para incrementar o consumo de computadores, celulares e outros itens de informática. Cada vez mais conectada, a classe média já descobriu nas redes sociais um palanque para expor suas insatisfações e exigir seus direitos de consumidor e como cidadãos. Até 2022, esse fenômeno pressionará cada vez mais por qualidade nos serviços públicos.

E por falar em consumo, o acesso a bens antes apenas sonhados fez alguns desses consumidores de classe média da nova geração, responsáveis pela maior parte da população economicamente ativa da próxima década, caírem nas armadilhas do cartão de crédito. Ainda aprendendo a administrar suas dívidas, devem sofrer influência da geração anterior, acostumada a lidar com a hiperinflação e privações financeiras. Com isso, a necessidade de poupar para se precaver contra imprevistos futuros começa a despontar na cabeça do brasileiro. Cansada de esperar por benefícios do poder público, essa nova geração valorizará ainda mais o esforço pessoal, como forma de melhorar a vida, essa alicerçada por subsídios necessários.

Com o crescimento econômico da população de classe média, começamos a caminhar para uma quebra de paradigma no que diz respeito à discriminação racial. Isso porque mais da metade desses brasileiros é de negros e pardos. Aos poucos, vamos percebendo uma valorização da etnia, que é conquistada com o resgate de uma autoestima perdida. A população negra brasileira viu sua vida melhorar com a estabilidade econômica, e consegue integrar-se a uma gama de empregos formais que eram exclusivos para uma elite branca. Acredito que em 2022 deva aumentar o número de negros brasileiros ocupando cargos de visibilidade e frequentando lugares que eram redutos de brancos de alta renda. Se outrora sobravam para eles os subempregos, hoje conseguimos uma integração maior. As cotas étnicas e sociais nas universidades públicas devem favorecer para a efetivação desse quadro. Não nos esquecendo da contribuição indispensável dos movimentos de combate ao preconceito e ao racismo, em 2022 esperamos encontrar uma sociedade mais igualitária.

As diferenças entre gêneros também devem ser atenuadas em razão da participação cada vez maior da mulher como chefe de família. O auxílio do marido nos afazeres domésticos e a possibilidade de a parceira ter renda maior devem fazer parte de uma nova rotina. A sobrecarga das mulheres ainda é muito grande. No entanto, entre os jovens da classe média já há quatro em cada dez que concordam que cuidar da casa não é papel exclusivamente feminino. Protagonistas dos emergentes, as mulheres são as responsáveis pelo orçamento doméstico e até mesmo pelas roupas do marido. Em dez anos, a perspectiva de equiparação salarial entre homens e mulheres deve ser mantida, com a possibilidade de vermos um País com uma divisão mais homogênea de tarefas e oportunidades para todos.

Critérios econômicos

O conceito de classe média da maneira como tem sido utilizado no Brasil é baseado em indicadores meramente econômicos e não sociopolíticos. Não se trata de uma parcela da população instruída, que lê, se informa, tem posições políticas claras e consciência de seu papel na sociedade. Não por ora. Trata-se na verdade de uma nova leva de consumidores beneficiada pela ascensão social recente e que forma o meio da pirâmide de renda no País. Tem uma receita familiar mensal entre 2 mil e 5 mil reais e compõe a hipercitada classe C. Segundo os cálculos, serão 100 milhões de brasileiros nestas condições até 2014. Acima, aliás, bem acima, está uma ínfima parcela de brasileiros ricos ou muito ricos. É a turma que controla o capital e o patrimônio nas cidades e no campo, sobre a qual existem poucos dados estatísticos conhecidos. Pouco ou quase nada se sabe sobre a extensão de sua riqueza. Abaixo, nem tão abaixo, estão os muito pobres e miseráveis, foco principal das políticas públicas do governo Dilma Rousseff.

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