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Entrevista - Lucio Branco

“O jogador hoje é uma marca comercial rentável”

por Bruno Pavan — publicado 21/06/2016 04h42, última modificação 21/06/2016 12h26
Diretor do documentário "Barba, Cabelo e Bigode", sobre Afonsinho, Nei Conceição e Paulo Cézar Caju, critica o futebol dito moderno
Tay Nascimento
Nei Conceição, Paulo César Caju e Afonsinho

Nei Conceição, Paulo César Caju e Afonsinho segurando a Taça Brasil 68, conquistada pelo Botafogo

O futebol, de modo geral, não é conhecido pelos seus personagens contestadores. Racismo, machismo e homofobia sempre estiveram presentes nos campos, tendo uma espécie de salvo-conduto por parte da arquibancada.

Alguns personagens, porém, rompem essa mesmice e inserem o esporte dentro do debate nacional. É o caso de Paulo Cézar Caju, Afonsinho e Nei Conceição, personagens. do documentário Barba, Cabelo e Bigode.

Para Lucio Branco, diretor do filme que conta a história de como o trio utilizou o futebol para questionar a ditadura em sua fase mais repressiva, o esporte mudou tanto desde então que não permite mais a contestação por parte dos jogadores. "A não ser que haja uma revolução que ainda não mostrou a cara, definitivamente não há espaço para jogadores como Afonsinho, Paulo Cézar Caju e Nei Conceição no futebol dito moderno”, diz. "Portanto, azar o do futebol".

CartaCapital: Esses três jogadores viam o futebol de alguma forma diferente do que os craques da época?

Lucio Branco: Eles são herdeiros declarados da geração campeã na Suécia, em 1958. Sempre entenderam que o futebol brasileiro nunca poderia ter perdido aquela identidade essencial, percebido como fenômeno da cultura, forma de expressão artística e via de inserção social, algo que transcende a mera competitividade.

Eles debatiam isso internamente, e foi essa a raiz dos conflitos com os dirigentes e comissões técnicas com quem tiveram que lidar ao longo das suas carreiras. Por conta disso, talvez não seja errado afirmar que a política dos três fosse, antes de tudo, estética. Mais ligada ao estilo de jogo do que aos cabelos e à indumentária.

CC: Os três jogavam juntos no Botafogo na que talvez seja a época mais dura da ditadura militar. Havia algum questionamento deles ao governo? 

LB: Totalmente. Não abriram mão de ser eles próprios justamente no período mais repressivo da ditadura, que tinha um projeto de controle absoluto e de disciplinarização para o futebol. Através da implantação da ditadura, o projeto de militarização da sociedade incluiu o futebol como um setor privilegiado de controle e propaganda junto às massas e a intervenção diária dos militares dentro da estrutura dos clubes virou norma.

Daí a emergência da figura do técnico como “professor”, a aparição dos preparadores físicos formados na Escola de Educação Física do Exército como referência vital no universo da bola que passava então a se “modernizar”, o que implicou na perda do estilo técnico particular, da habilidade, do talento individual, do improviso, da plasticidade.

Sem contar as medidas de controle do comportamento dos jogadores na sua rotina dentro e fora dos clubes: proibição de cabelo grande, roupas “chamativas”. A barba do Afonsinho virou símbolo de resistência não foi de graça. O autoritarismo do período se metia em todas as frestas da vida social e os três viveram esse processo na pele e pagaram um preço imenso, do qual nunca se arrependeram.

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Escalação do Botafogo de 1968 (Foto: Acervo D. Maura Moreira)

CC: Como se deu a politização dos três?

LB: O Afonsinho e o Nei também conviviam com o professor Manoel Maurício de Albuquerque, historiador marxista que tinha o hábito de jantar no Hotel Argentina, no bairro do Flamengo, onde o time do Botafogo se concentrava. Afonsinho, como estudante de medicina, frequentava reuniões clandestinas na universidade e cogitou muito a sério em integrar a luta armada. Ele afirma que só não levou a iniciativa à frente porque era jogador.

Já o Caju aderiu à causa negra mundial. Antes de adquirir consciência política mais específica sobre o que acontecia no País sob os generais, quando ainda iniciava no futebol, passou a se interessar pela trajetória de Muhammad Ali, Malcolm X, Martin Luther King Jr., Angela Davis etc. Sua posição contrária ao “mito fundador” da “democracia racial” no Brasil também lhe cobrou um preço imenso, reforçando ainda mais o estigma em torno do seu nome e das suas origens.

CC: Qual a diferença entre os três e Pelé, acusado muitas vezes de ter uma postura alienada diante da ditadura?

LB: Os três eram a antítese do Pelé, do ponto de vista do posicionamento político. Em relação ao Caju, mais particularmente no âmbito do problema racial, a diferença é gritante. O Pelé sempre se manteve conciliador com respeito ao problema do negro no Brasil porque é, antes de tudo, um conservador e sua boa relação com ditadores nacionais e internacionais também se baseia nisso, ideologicamente. 

Mas a persona do Pelé não cabe num debate sem nuances. Estamos falando de um gênio absoluto, total e definitivo na área de atuação esportiva. Há um ódio militante contra a figura do Pelé no Brasil e eis o termo técnico para tanto: racismo. O lamentável é o próprio não acusar isso, o que implica uma cumplicidade involuntária da sua parte com esse fenômeno execrável da nossa formação histórico-social que o pegou para Cristo da raça. No caso dele, pedir para o homem repetir o atleta é muito, é exigir demais da vida que uma mesma geração comporte dois Muhammad Alis...

Fiz questão de tratar dele em Barba, Cabelo & Bigode com a seriedade que merece. Um gênio total dos gramados condenado a ser o homem mais célebre do Planeta desde os 17 anos.

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Afonsinho na frente da foto dele jovem. Hoje ele é colunista de CartaCapital (Foto: Tay Nascimento)

CC: Quais as principais histórias dos três juntos? 

LB: Foram poucas as vezes em que os três jogaram juntos, por uma série de questões diretamente relacionadas à trajetória deles no futebol. Só para se ter ideia, no filme, o litígio do Afonsinho com o Botafogo foi dividido em três capítulos. Começa com a disputa pela titularidade no time com o Gerson, considerado insubstituível. A torcida e a imprensa sabiam que ambos poderiam jogar juntos, mas nem os dirigentes nem a comissão técnica do Botafogo julgavam assim por questões políticas. 

A situação ficou incômoda para ambas as partes e a solução foi emprestá-lo ao Olaria, onde formou um meio campo clássico com Fernando Pirulito e Roberto Pinto e retomou o gosto pelo ofício. Ele voltou ao Botafogo e lá criaram mais um pretexto para barrá-lo por conta da barba e do cabelo que ele deixou crescer. Tudo para desmoralizá-lo e com o apoio direto dos militares, muito gratos ao Zagallo por ter voltado a Brasil com a Jules Rimet. Ele entrou numa longa batalha judicial até conquistar o direito na justiça comum de adquirir o próprio passe. Essa conquista do passe foi uma revolução, sem dúvida, e no momento histórico mais improvável.

Já sobre o Nei Conceição circulam muitas histórias sem confirmação porque ele prefere que apenas se especule sobre aquilo que pode ou não ser a verdade factual dos acontecimentos. Ele era músico profissional antes de ser jogador e uma das mais célebres lendas sobre ele era que preferia treinar com os Novos Baianos, no sítio Cantinho do Vovô, em Vargem Grande, onde eles moravam, do que em General Severiano, sede do Botafogo.

Dentro de campo, ele era um volante genial, que caiu voluntariamente num relativo ostracismo. Mas os que o viram jogar apontam a sua matada de bola como a maior do futebol brasileiro. Ele está muito além do folclore que teimou em colar no nome dele. 

Já o Caju, em um episódio durante uma reunião de jogadores, comissão técnica e dirigentes numa excursão preparatória da seleção para a Copa de 78, ele, titular absoluto, pediu a palavra. Quis reivindicar uma premiação geral mais à altura dos convocados. O então presidente interventor da CBD, o Almirante Heleno Nunes, lhe cortou a palavra, sem pudor algum de exercitar o seu autoritarismo e a reação do Caju foi imediata: mandou que o oficial enfiasse no cu o seu arsenal de guerra e a sua frota de navios.

O que o senso comum prefere julgar como destempero ou “marra” do craque, foi na verdade um gesto de desobediência civil consciente, mesmo sob pena de ter tido que arcar com o prejuízo de nunca mais ter sido convocado para o escrete nacional. 

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Caju segurando foto em que aparece ao lado de Bob Marley (Foto: Mauricio Valladares)
CC: O Caju sempre teve uma noção de negritude muito forte, foi um dos primeiros jogadores a adotar o black power. O que isso significou na época? Como você vê hoje a questão do racismo e principalmente da reação a ele no futebol?

LB: Foi um impacto monumental, um jogador com a projeção que ele tinha, em plena era Médici, bater de frente publicamente contra a falácia da democracia racial no País tanto verbal como visualmente. O recado foi muito direto da parte dele, mas acabou como uma atitude solitária no meio. 

O Caju acabou se convertendo num caso típico de amor ou ódio. A questão racial também foi colocada por jogadores que antecederam o Caju, como Leônidas da Silva, Fausto dos Santos, Barbosa, ou um técnico como Gentil Cardoso, mas não com a mesma adesão consciente e intensidade. O goleiro Aranha veio a ser um representante bissexto dessa luta no futebol brasileiro. Lamento que não seja algo mais frequente. O racismo é um tabu expressivo no nosso cotidiano, visto que o Aranha se tornou ainda mais vítima do problema por ter se manifestado a respeito. 

CC: Uma acusação que se faz muito ao Sócrates, por exemplo, que também foi um jogador contestador, é que ele deveria ter sido “mais atleta”. Isso é algo que se diz dos três?

LB: Esse estigma é fatal no caso de todo jogador com personalidade própria. Ainda mais quando ele se notabiliza por ser contestador em nome da classe. É uma velha estratégia de desqualificação. Parte dos dirigentes, treinadores, imprensa e torcedores, na sua inclinação conservadora, costuma se engajar nesse tipo de campanha de detratação do atleta que não se encaixa em determinados padrões de comportamento. A questão foi que a disciplinarização militar se esmerou em transformar o jogador numa máquina dócil, sempre apta a fazer uso da sua força física em primeiro lugar.

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Nei na frente da foto dele jovem (Foto: Tay Nascimento)

CC: Você acredita que ainda hoje existe espaço para jogadores como os três? Na sua opinião existe um desinteresse dos jogadores de hoje com posicionamentos políticos e sociais? 

LB: Ao que tudo indica, infelizmente, não há mais espaço. Lembro de uma entrevista do Daniel Alves num programa da ESPN, no ano passado. Ela foi anunciada como bombástica, reveladora, já que ele não teria refugado diante de nenhuma pergunta. E, a rigor, nada o que pensa ou o que “tem a dizer” o lateral direito do Barcelona interessa.

A conversa acabou se limitando a duas horas de ode à “excelência” e a uma muito louvada, ultimamente, “meritocracia”. O marqueteiro, o assessor de imprensa, o consultor nem sei exatamente do quê e outros aspones muito bem remunerados converteram o jogador numa marca comercial rentável a ser negociada com grandes clubes, agências de publicidade e redes de televisão. 

Temos aí o Bom Senso FC, uma experiência destituída de qualquer sentido ideológico definido, que parece mais uma organização de empresários que se juntaram para defender os seus interesses corporativos.

Mas, claro, sem deixar de apelar para o já manjado e conveniente método de propalar certa “responsabilidade social” ao não deixar de fora do papel as reivindicações dos times das divisões de baixo e mais uma ou outra medida demagógica. O que está em primeiríssimo plano é a luta pela garantia do interesse financeiro do jogador de elite que não quer perder parte dos lucros para o cartola e para a emissora de TV no negócio da exploração da sua imagem.

Então, a não ser que haja uma revolução que ainda não mostrou a cara, definitivamente não há espaço para jogadores como Afonsinho, Paulo Cézar Caju e Nei Conceição no futebol dito “moderno”. Portanto, azar o dele.

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