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Recordações

1968, juventude e militância

por Emiliano José — publicado 23/04/2008 15h15, última modificação 02/09/2010 15h20
Este é um ano que 1968 volta à cena. Outra e mais uma vez. É o aniversário de 40 anos.

Este é um ano que 1968 volta à cena. Outra e mais uma vez. É o aniversário de 40 anos. 1968 já é um senhor respeitável. Com este senhor, o eterno retorno de um debate: o papel da juventude. E nessa discussão emerge sempre um acentuado saudosismo, que atinge tanto os mais velhos, aqueles que viveram aquele ano mágico-redentor, quanto os mais jovens, de alguns dos quais já ouvi o lamento por não tê-lo vivido. Alguns lamentam não ter tido a chance de ter nascido numa época em que pudessem enfrentar a ditadura.

Viver sob uma ditadura, creiam os mais jovens, não é uma experiência agradável. Muito ao contrário. O melhor mesmo, com todas as suas imperfeições, é a democracia. Não há um modo político que a substitua com vantagem. E não há a possibilidade de comparar épocas tão distintas – aquela, quando vivemos sob um regime de terror e medo, e esta, depois de 1985, quando o País pôde respirar, quando as contradições, bem ou mal, puderam ser enfrentadas à luz do dia.

Eu dizia, esses dias, em entrevista dada a Samuel, estudante da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia que fazia matéria para a revista Lupa, produzida pelos alunos, tratar-se de uma ousadia alguém tentar interpretar a atividade política da juventude dos dias atuais já tendo chegado à casa dos 60 anos de idade. Corria um risco muito grande, inclusive, talvez, o do saudosismo, pois, afinal, havia participado decisivamente do movimento estudantil de 1968.

Além disso, depois me dedicara à luta contra a ditadura, já clandestino, militando na Ação Popular, organização marxista que defendia a luta armada. Eram interpelações feitas a mim mesmo, para que evitasse esse saudosismo, que condeno. Não é que não se deva valorizar tudo o que foi feito naquele ano tão cheio de promessas, de expectativas redentoras – tudo o que ele representou como um momento de semeadura de sonhos, de esperanças, de utopias. Deve ser lembrado assim, à Walter Benjamin, como um ponto luminoso do passado, trazido ao presente, para que sejamos capazes de prosseguir em busca daqueles mesmos sonhos, em outras condições e circunstâncias.

Nada de pensar em repetições da história, no entanto. O tempo não volta. O tempo não pára. A história não se repete, e aqui é Marx. Há a tragédia e a farsa. Experimento acentuado incômodo quando a análise sobre 68 descamba para o saudosismo e para a tentativa de comparações canhestras entre aquele tempo e os dias de hoje. Não raramente aparece uma comparação entre o heroísmo daquele passado cheio de glória e a apatia despolitizante dessa fase em que vivemos.

Precisamos nos acertar quanto a isso.Os jovens da geração 68 radicalizaram empurrados pela violência da ditadura. Não escolheram o heroísmo como caminho. Se o heroísmo sobreveio em alguns casos foi por força das convicções de quem acreditava na necessidade de lutar contra a ditadura. Se tantos morreram debaixo de tortura não foi por uma escolha de assim morrer. Se tantos estiveram presos por anos não foi porque quiseram. Se tantos se exilaram não foi de boa vontade. Fizeram, é verdade, a opção de enfrentar a ditadura, e esse foi um mérito de uma parcela daquela geração.

Aquele momento histórico cobrava opções. Houve uma grande parte da juventude brasileira que preferiu seguir sua vida, afastar-se daquela arriscada militância porque a barra era de fato muito pesada. Pesadíssima. Quem topasse a empreitada o fazia sabendo dos riscos que corria – ou, ao menos, devia saber.

O fim da linha, em geral, era a morte. Ou o pau-de-arara e anos de prisão. Ou o demorado exílio. Era ditadura, outro Brasil, outra juventude. De 68 não cabe recolher murmúrios nostálgicos, melancólicos. E muito menos qualquer tipo de avaliação negativa, com base naquela experiência histórica, para julgar a participação política da juventude dos dias de hoje.

A juventude, hoje, por obviedade, vive um tempo completamente distinto no Brasil. Primeiro, sob uma democracia. Segundo, sob a crise da democracia representativa. Terceiro, sob a Internet. Quarto, sob uma revolução científico-tecnológica de proporções ainda não suficientemente avaliadas, que leva a um acentuado desemprego estrutural e à reestruturação profunda do mundo do trabalho, que atinge em cheio os jovens. Quinto, sob o governo Lula e seus positivos impactos históricos. Isso para situar alguns traços desse quadro histórico, sem discuti-los.

Não há atualmente nenhuma apatia da juventude. Uma parcela ponderável dos jovens está em plena atividade. Em número maior do que 1968 porque o Brasil é muito maior e a cidadania ativa também cresce. Não se procure, no entanto, apenas os modelos tradicionais de participação, como a militância em partidos políticos. Esta existe, que ninguém se engane. Mas não é a única, e tenho convicção de que numericamente não é a maior.

Os jovens estão espalhados por associações comunitárias urbanas e rurais, por sindicatos, por organizações não-governamentais, por redes culturais de variada natureza, por movimentos culturais diversos. E a participação não está apenas na praça, na rua, mas, também, no mundo virtual, eletrônico, onde a juventude dialoga e intervém. Praça e tela então se completam.

O olhar exigente – ou conservador – dos partidos políticos pode, com simplismo, pretender criticar essa militância espalhada por tantos movimentos. Militância que, nesse olhar, não teria condições de globalizar a luta política, de entender a complexidade do País. Essa crítica não percebe o quanto existe de vitalidade nessa juventude, que naturalmente não segue os modelos antigos, mas faz política. Quem sabe, por exemplo, leia mais Leonardo Boff do que Lênin. Não se trata de um problema. Com Boff aprende solidariedade, fraternidade Aprende a como cuidar das pessoas e do mundo. E por Boff pode chegar a Lênin, quem sabe, ou a outros autores.

Está, provavelmente, mais preocupada com o meio ambiente do que com o que se chamou tradicionalmente de progresso. Mais próxima de movimentos como o MST. Mais próxima do combate ao racismo. Da percepção das lutas de gênero. Sem preconceitos com a homossexualidade. Canta, com Paulinho da Viola, que as coisas estão no mundo, só é preciso entendê-las. Tenta compreender a vida que sai das entranhas da globalização acelerada, aprendendo o que tem de bom e de ruim nesse admirável mundo novo, quem sabe relendo Aldous Huxley.

E não se pense apenas em militância de classe média, que continua a ser importante, mas na adolescente ou no adolescente que vive no campo e que participa do sindicato ou da associação comunitária. Noutros, envolvidos com o hip-hop. Quem sabe os partidos políticos, especialmente aqueles situados à esquerda, pudessem beber dessa fonte com mais carinho. E num outro sentido, essa nova militância podia, também, aprender mais da luta política estrito senso com os partidos políticos. A volta a 68, além da rememoração histórica, deve servir, aí sim, para buscar elementos de um sonho que a juventude atual pode reinterpretar e seguir adiante. Em outro mundo, outro Brasil.