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Tempo perdido

1945 e 1968

por Emiliano José — publicado 08/07/2008 18h35, última modificação 01/09/2010 18h36
Num debate recente de que participei, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, dividindo a mesa com o professor José Crisóstomo de Souza, discutimos 1968, esse ano que parece nunca terminar pela profusão de idéias, de signos, de sentidos que dele emanam.

Num debate recente de que participei, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, dividindo a mesa com o professor José Crisóstomo de Souza, discutimos 1968, esse ano que parece nunca terminar pela profusão de idéias, de signos, de sentidos que dele emanam. Há muito que dizer ainda sobre 1968 que, para brincar com as palavras, e dizer a verdade, foi a derrota mais rica em significados e alcance que conhecemos.

Ali, provocado positivamente pelos estudantes, passei a pensar sobre a relação entre as conjunturas históricas. Creio que para pensar a explosão de 1968, com toda sua incrível força, é necessário recuar um pouco que seja. Refletir, por exemplo, sobre o significado de 1945, o pós-guerra, que nessas discussões aparece pouco, é insuficientemente analisado.

O pós-guerra abria um leque imenso de possibilidades, e aqui não vale pensar exatamente no que ocorreu, mas no que havia de promessa. Afinal, não é pouco ter saído de uma guerra daquelas dimensões, com tantos milhões de mortos, anos vividos sob o espectro do nazi-fascismo. Será que podemos imaginar o que teria sido o mundo se Hitler tivesse sido vitorioso?

E me parece que a pergunta é pertinente, pois houve uma guerra. E foi preciso uma ampla frente, que incluiu a Europa, a URSS e os EUA, para que a proposta nazista fosse derrotada. Se não fosse, o mundo seguramente seria outro, e é impossível imaginar o que ocorreria exatamente. O triunfo da perspectiva ariana, de um capitalismo com aquelas características, faz qualquer um ficar de cabelo em pé.

Claro que rapidamente um interlocutor mais crítico pode me alertar para o fato de que não se afirmou um mundo tão maravilhoso assim. Pode me dizer que o novo Império, os EUA, passaram a dominar o mundo. E tanto no plano ideológico-cultural, quanto, quando acreditava necessário, manu militari. E eu deveria concordar com meu interlocutor e acrescentaria o fato de que a justiça social esteve longe de se fazer no mundo.

Mas, como alertara antes, estou tentando analisar o que 1945 prometia, o que havia de horizonte com o fim daquela terrível guerra. E era um horizonte cheio de possibilidades, pleno de esperanças. De confiança na democracia, na liberdade, de consagração dos direitos humanos, de crença na idéia da justiça social, de afirmação da idéia de soberania, de fortalecimento da noção de independência nacional.

Sair da guerra era como escapar de um pesadelo. E ao escapar de uma época tão terrível, era necessário formular um pacto entre nações e tal pacto tinha que ter uma base rigorosamente democrática, uma noção de liberdade bastante sólida de modo a esconjurar os fantasmas do nazi-fascismo. A esquerda ganhou força em todo o mundo, inclusive pela dimensão política que ganhou a URSS, mas não só por isso. Ganhou expressão, sobretudo, na Europa.

A partir do outono de 1945 até o verão de 1946, frentes políticas que uniam comunistas, socialistas e democrata-cristãos controlavam três quartos do eleitorado – quase 75% nas eleições francesas para a Assembléia Constituinte em outubro de 1945; o mesmo percentual na Itália, em junho de 1946; quase 87% na Bélgica em fevereiro de 1946 e 72% na Holanda em maio de 1946. Os partidos comunistas obtiveram ganhos em todos os países. Esses dados e parte dessa análise estão em Forjando a democracia – A história da esquerda na Europa, 1850-2000, de Geoff Eley, editado pela Fundação Perseu Abramo.

Esse fortalecimento da esquerda e dos comunistas de modo particular também ocorreu na América Latina. No caso brasileiro, por exemplo, o Partido Comunista Brasileiro chega a 10% dos votos nas eleições presidenciais de 1945 e elege 14 deputados federais e um senador, Prestes. Esses ventos democráticos tão saudáveis, no entanto, enfrentarão a Guerra Fria, que colocará o mundo novamente em conflito latente, sob a ameaça permanente de uma guerra nuclear.

Não há como negar, no entanto, para insistir, que a guerra antifascista teve efeitos profundos na vida dos povos. A herança cultural fincou raízes sólidas. Solidificou esperanças em um mundo melhor. Uma disposição forte de lutar por uma sociedade de paz. Uma espécie de consciência sobre as fragilidades da espécie humana também se fixou na mente dos povos. Daquela guerra emergiu uma noção forte de cidadania, de democracia, de igualdade e justiça social, o que não quer dizer que, como num raio caído num dia de céu azul, tudo isso tenha se realizado, muito ao contrário. Havia uma longa estrada pela frente.

A década de 60, e aqui começamos a nos aproximar de 1968, começou a questionar aquela herança. Poderíamos dizer, quem sabe, que os povos quiseram fazer valer aquelas promessas de 1945, radicalizando-as. Havia as guerras de libertação nacional, houve a Revolução Cubana, Panteras Negras, uma espécie de furacão libertário, revolucionário, que parecia que não ia deixar pedra sobre pedra.

As novas gerações pareciam querer dizer que aquela herança, aquelas idéias do pós-guerra, então generosas, agora cheiravam a complacência, a conciliação, a conformismo. Era como se dissessem que a geração de 1945 estava marcada pelo sacrifício da guerra e que, por isso, qualquer pequeno ganho era grande.

Nesse sentido, pode-se afirmar, mesmo que com algum risco, que 1968 representou um antagonismo com a cultura política do pós-guerra. Não sei se para o bem ou para mal. Ou se um pouco para o bem e um pouco para o mal. A história não tem bem-querer. Geoff Eley diz que 1968 evidenciou a crise da cultura política do pós-guerra em dois sentidos. No primeiro, revelou a impaciência das novas gerações – ou de gerações dissidentes, como ele chama. No segundo, abriu espaço público para a reação da direita, e eu acrescento que essa reação, àquele momento, foi vitoriosa.

Diria que 1968, antes de ser derrotado, chamou a si as melhores tradições democráticas de 1945, mas não quis, de modo nenhum, ficar contido no círculo de giz de uma geração que, pelo que sofrera, queria fazer tudo passo a passo, sem impaciência. Talvez, passado o tempo, pudéssemos dizer que a geração de 1945 tivesse mais clareza do processo, compreendesse melhor a necessidade da acumulação de forças para afirmar a democracia e, quem sabe, o socialismo.

Mas, insisto, a história não tem bem-querer, não volta atrás. 1968, para brincar com as datas, vai contraditoriamente voltar à cena, no final dos anos 80, início dos 90, com a queda de Muro de Berlim e as revoluções do Leste. Essa, no entanto, é outra história, para outro texto.