Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / “Quantidade de erros no Enem vem do corpo técnico do ministério”, diz pesquisadora

Sociedade

Enem

“Quantidade de erros no Enem vem do corpo técnico do ministério”, diz pesquisadora

por Paula Thomaz — publicado 12/11/2010 15h14, última modificação 12/11/2010 16h47
Em entrevista ao site de CartaCapital, Eunice Durham diz que a escolha de cargos do corpo técnico do Enem não pode ser baseada em partido político

Em entrevista ao site de CartaCapital, Eunice Durham, do Núcleo de  Pesquisas sobre Políticas Públicas da USP, diz  que a escolha de cargos do corpo técnico do Enem não pode ser baseada em partido político

Em suas duas últimas edições o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) teve problemas que colocaram em xeque a mudança proposta pelo Ministério da Educação, em 2009, que o tornou também num exame que vale ingresso para o ensino superior.

De acordo com a pesquisadora da área da educação do Núcleo de Pesquisas sobre Políticas Públicas da USP, Eunice Durham, o Enem não deve ser usado como forma de seleção de estudantes, e aponta o corpo técnico escolhido pelo ministério como o principal motivador dos problemas ocorridos. Para ela, deveriam ser escolhidas “as melhores pessoas naquele campo, independentemente do partido político ao qual ele pertence” e que o ensino médio carece de uma mudança profunda.

A Paula Thomaz

CartaCapital: Qual modelo de Enem a sra. considera o mais adequado: o que avaliava somente o ensino médio ou o atual, que passou a valer como ingresso para o ensino superior?

Eunice Durham: Se for para avaliar o sistema eu acho que o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) funciona perfeitamente bem. É um sistema de avaliação do ensino básico que avalia os alunos até o terceiro grau. Há uma diferença muito grande entre avaliar a qualidade do ensino, que é realmente mais importante, e você fazer seleção de estudantes para uma finalidade qualquer. Há engano quando se tenta fazer as duas coisas. Porque quando você está avaliando, na verdade você não está interessado em qual aluno é melhor e qual é o aluno pior. Você está interessado é na média dos alunos. Você avalia o aluno para saber se a escola está funcionando ou não. E quando há um erro estatístico, digamos, um aluno que vai mal no dia da prova, isso não afeta [no caso do Saeb] porque esse exame não diz respeito a ele, individualmente, mesmo porque você não testa todos os estudantes, você testa uma amostra. Esse sistema tem funcionado bastante bem. Se ele se tornasse universal você poderia fazer uma avaliação escola por escola, Estado por Estado, município por município.

Agora, se você vai fazer uma seleção para a universidade pública, que é obviamente  gratuita, a seleção tem outro objetivo. Aí não é a média que interessa. Você não quer saber quantos alunos estão indo bem, você quer saber quais alunos estão melhores. A avaliação é do sujeito individualmente. Um teste único para avaliar 4 milhões de alunos do universo de estudantes e fazer a seleção para todo um conjunto de universidades, na minha opinião isso é alguma coisa enganosa. Porque você no fundo só dá uma chance aos estudantes; e porque os cursos são diferentes as exigências de entrada são diferentes. Os alunos são diferentes e você esta avaliando todo mundo pelo mesmo critério. Pelo sistema normal de vestibular, se o aluno quer entrar em Letras você avalia mais o potencial de Letras do que na verdade o potencial de Matemática; se quer Medicina, é feita uma outra série de exames para ver se tem a base do curso de Medicina. Os alunos entram e saem muito heterogêneos do ensino básico então você tem uma avaliação pela média que nos diz como é que o sistema vai indo. A seleção é outro fenômeno de interesse que precisa de um outro tipo de teste. E você precisa, dada a variedade de regiões a variedade do nível econômico dos alunos, de diferentes tipos de exame. Cada instituição, de acordo com o que ela pretende, faz uma seleção de um tipo diferente.

CC: A senhora não acredita no Enem nem de uma forma ou outra?

ED: Se fosse um sistema de avaliação universal, você não poderia usá-lo para entrar na universidade. Se fosse um exame universal, você podia ver exatamente em quais escolas os alunos estão melhores. Quer dizer, quais produziram melhor resultado. Agora, só esse dado é pouco, porque você pode ter uma escola em que os alunos de famílias ricas estudam durante o período integral e você tem alunos que estudam à noite e trabalham de dia e são de famílias pobres. O resultado normalmente é diferente. Então também não serve para avaliar a qualidade do ensino, apenas com um padrão de medida.

A avaliação do ensino tem que ser feita pelas médias, você não está tão interessado no que cada aluno é capaz, você não está interessado em selecionar os melhores alunos em Matemática, nem os melhores alunos em Português, você quer saber qual é o resultado da média da aprendizagem nas escolas brasileiras. Isso eu acho que é uma coisa importante.

CC: Nesse sentido a primeira função do Enem, de quando foi criado há 12 anos, funcionava?

ED: Eu acho que sim. Mas eu acho que o Saeb nos dá uma visão bastante grande. Você usando a mesma metodologia para fazer um exame universal você vai ter mais dados para conhecer o sistema brasileiro [de ensino].

CC: Já que ele existe e se transformou em uma forma de ingresso para o ensino superior, o que poderia ser feito para que seja melhorado?

ED: A melhor coisa que a gente poderia fazer é acabar com o Enem como forma de seleção. Não acho que é um bom método para você selecionar o aluno. Agora, o que precisa ser feito é melhorar muito o pessoal técnico do ministério. Eu acho que a forma de escolha para os cargos técnicos do ministério levou a uma perda de qualidade muito grande dos técnicos, considerado conhecimento que eles têm. Acho que houve muitos critérios políticos nas nomeações do ministério.

CC: Fala de alguém especificamente?

ED: Não. A quantidade de erros, como tem acontecido, vem de um despreparo do corpo técnico.

CC: E como se daria essa seleção?

ED: Escolher as melhores pessoas naquele campo, independente do partido político ao qual ele pertence.

CC: Qual seria a solução para o problema ocorrido neste fim de semana?

ED: Por não aprovar o exame que foi feito eu não aponto uma saída melhor. Isso é problema do ministro. Não devemos procurar uma saída para isso, e sim avaliar se o Enem é efetivamente alguma coisa que precisa ser feita ao preço que ele custa. Sou a favor de que as próprias faculdades façam seu próprio exame.

CC: Os problemas ocorridos com o Enem reacendem a necessidade de repensar o ensino médio?

ED: Acho que não só o Enem, o Saeb. Qualquer pessoa que tem o mínimo de conhecimento do que está acontecendo no ensino médio, do que acontece nas notas dos estudantes brasileiros nos testes internacionais, sabe muito bem que nós precisamos fazer uma mudança profunda dentro do ensino médio. Agora, há uma resistência muito grande para uma reforma desse tipo e acho que esta resistência se localiza em grande parte nos sindicatos.

Porque qualquer mudança que seja profunda em toda a organização do ensino médio, alguma coisa que permita uma opção maior dos alunos entre diferentes disciplinas e diferentes áreas de conhecimento, que eu acho que é essencial e é o que acontece nos países desenvolvidos, tudo isso vai criar problemas para uma série de pessoas que estão acomodadas, digamos, no seu emprego, na sua carreira e essa coisa cria muita resistência. E também porque não é fácil. As forças políticas do próprio professorado resistem às mudanças. Isso não só no Brasil. Acontece no mundo todo.

registrado em: ,