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Entrevista

“Não vai faltar dinheiro”

por Rodrigo Martins publicado 16/11/2010 10h21, última modificação 16/11/2010 18h17
Luís Paulo Rosenberg, dirigente do Corinthians, garante que o estádio estará pronto para a abertura da Copa
"Não vai faltar dinheiro"

Em entrevista à CartaCapital, Luís Paulo Rosenberg, dirigente do Corinthians, garante que o estádio estará pronto para a abertura da Copa. A Rodrigo Martins. Foto: Ricardo Nogueira/Folhapress

Luís Paulo Rosenberg dirigente do Corinthians, garante que o estádio estará pronto para a abertura da Copa

São Paulo oficializou, na segunda-feira 8, o futuro estádio do Corinthians, em Itaquera, como sede da Copa de 2014 na cidade. A decisão foi comunicada ao presidente da Confederação Brasileira de Futebol e do Comitê Organizador Local, Ricardo Teixeira, em reunião com o governador Alberto Goldman e o prefeito Gilberto Kassab.
Para abrigar a abertura do Mundial, o Corinthians formalizou a intenção de ampliar seu projeto de 48 mil para 65 mil lugares. O grande mentor da arena é, na realidade, o economista Luís Paulo Rosenberg, vice-presidente de marketing do clube.
Em conversa de mais de uma hora com a reportagem de CartaCapital, Rosenberg afirma que jamais trabalhou nos bastidores para impedir a indicação do Morumbi como sede da Copa. E ironizou o descontentamento de dirigentes são-paulinos com a preferência da Fifa pelo projeto corintiano: “Se você se separa da mulher e, seis meses depois, ela começa a namorar um amigo seu, você não pode culpá-lo pela separação”.
Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: O Corinthians tem garantido um empréstimo do BNDES de até 400 milhões de reais para erguer um estádio de 48 mil lugares. De onde sairão os recursos adicionais para construir uma estrutura para mais de 65 mil torcedores?
Luís Paulo Rosenberg
: São Paulo não abre mão da abertura do evento. Os ganhos para a cidade e o estado entram na casa dos bilhões. E nós estamos falando de algo em torno de 300 milhões de reais de insuficiência de recursos na construção do estádio. Para o Corinthians, seria mais cômodo tocar seu projetinho de 48 mil lugares, no tempo que for necessário, do que investir numa empreitada maior, com prazo curtíssimo. Mas seria uma mesquinharia com a cidade, porque nossa arena será a única capaz de abrigar a abertura da Copa. Vamos encontrar uma solução financeira justa.

CC: Então o projeto não tem todas as garantias financeiras.
LPR
: Fica muito difícil você fechar todo o esquema financeiro sem o projeto ter sido avaliado pela Fifa, porque depois tem alguma mudança e a conta não fecha. Decidimos seguir adiante. E não faltará dinheiro.

CC: Essa solução passa por um investidor privado ou pode depender do poder público?
LPR
: Pegar recursos orçamentários para investir no estádio do Corinthians é uma hipótese que nunca se cogitou.

CC: E ampliar o financiamento do BNDES?
LPR
: São coisas diferentes: quem paga e quem financia. Estamos discutindo quem paga. Se o investidor vai pegar empréstimo do BNDES ou não, é outra questão.

CC: Em junho, o senhor afirmou a Carta­Capital que o Corinthians não tinha interesse­ em construir um estádio tão grande, tendo em vista que a média do público por partida é de 21 mil nos jogos do clube no Brasileirão. O que mudou?
LPR
: Neste ano, a média está um pouco melhor. Mas, de fato, um estádio de 65 mil lugares eu só vou conseguir lotar em cinco ou seis partidas por ano. Eu não terei condições de, com a receita adicional desses jogos, pagar o custo da ampliação do estádio. Caso contrário, vou ter de trocar a contratação do Kaká por arquibancada vazia. Por outro lado, essas seis partidas lotadas pagam os custos adicionais de manutenção.

CC: O Corinthians tinha outras opções de estádio, por que o clube entendeu que esse em Itaquera era o melhor projeto?
LPR
: Este é o estádio mais barato do Brasil. Terá um financiamento do BNDES com linha privilegiada. A Odebrecht será fiadora e não cobrará spread no repasse do empréstimo. É um projeto que renderá 100 milhões de reais por ano. O estádio se paga em três ou quatro anos. Os demais projetos tinham custo mais alto e os investidores pediam sociedade. Em Itaquera, não preciso dividir bilheteria com ninguém.

CC: Desde quando o COL sabe do projeto?
LPR
: Este projeto foi assinado com a Odebrecht em 30 de agosto. Você poderá dizer: “Ah, isso é conversa”. Pois bem, dois dias antes havíamos rompido as negociações com a empreiteira, em virtude de divergências com o modelo que queríamos. Fechamos posição de que a empresa teria a remuneração dentro do preço fixo da obra, nada mais. E foi o que ficou acertado.

CC: A CBF e a Fifa não sabiam de nada? O presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, chefiou a delegação brasileira na África do Sul e estava ao lado de Teixeira quando anunciaram a exclusão do Morumbi.
LPR
: Não tínhamos nada de concreto até então. Eu nunca pensei em Copa, queria resolver o problema da torcida. Estou falando de uma nação de 30 milhões que não tem Jerusalém para rezar.

CC: Vários dirigentes são-paulinos dizem que o processo de avaliação do Morumbi foi um jogo de cartas marcadas.
LPR
: Olha, isso eu não sei.

CC: Então surge o projeto do Corinthians e ele recebe o apoio do governo para sediar a Copa. Coincidência?
LPR: O Corinthians sempre apoiou o Morumbi. A minha tese é a seguinte: Temos um projeto maleável. Se a Fifa disser, tira isso daqui, coloca isso daqui para lá, eu digo: “Ok, dá para fazer”. No Morumbi, que já está de pé, isso é mais difícil. De toda forma, acho que, num país como o Brasil, a Fifa tem de se ajustar à realidade local, e não o inverso. Por mais que tenha problemas, o Morumbi é o melhor estádio que temos em São Paulo e um dos melhores do Brasil.

CC: Como foi definido que o estádio do Corinthians fará a abertura da Copa se o projeto não foi finalizado?
LPR
: Primeiro São Paulo precisa definir qual estádio quer. Somente depois a Fifa analisa a opção, pede os ajustes e dá o aval.

CC: Ainda depende de aprovação da Fifa?
LPR
: Da Fifa, da prefeitura, dos órgão ambientais, da Habitação.

CC: E o imbróglio do terreno, os dutos da Petrobras?
LPR
: A Petrobras tem tubulações que passam por baixo do terreno, mas que podem ser desviadas. É uma coisa de 2 ou 3 milhões de reais. O terreno ­pertence à prefeitura e foi cedido ao clube para a construção de um estádio em cinco anos. O Ministério Público entrou com processo porque o prazo venceu. Só que, agora, podemos cumprir a promessa. Isso deve ser resolvido com um Termo de Ajustamento de Conduta.

CC: Há mais de 30 anos o clube anuncia projetos de estádio. Chegou a arrecadar dinheiro de torcedores. O que deu errado?
LPR
: Não havia seriedade, mas isso mudou. Tivemos bom desempenho em campo, fomos o primeiro clube a publicar um relatório de sustentabilidade, passamos a divulgar balanços auditados, temos a quinta camisa mais cara do mundo, 70 mil sócios torcedores em dois anos. Retomamos a credibilidade para pleitear construir uma solução financeira para o estádio.

CC: A que o senhor atribui o êxito do Corinthians na arrecadação de patrocínios? Deve-se ao “efeito Ronaldo”?
LPR
: O Ronaldo deve ter arrecadado uns 14 milhões de reais para o clube, mas nossa receita é de 200 milhões. Em patrocínio, nossa receita cresceu cinco vezes. Estamos falando de uma nação de 30 milhões de loucos que apoiam o time fervorosamente. Mesmo com o time na Série B do Campeonato Brasileiro lota os estádios.

CC: Mas a torcida sempre existiu, não?
LPR
: Ocorre que nunca na história do clube a torcida foi tão bem tratada como agora. Temos até ombudsman, nosso marketing é muito focado. O primeiro filme de longa-metragem que lançamos não se chama Timão, batizamos de Fiel. É a torcida contando como o rebaixamento do clube afetou a vida dela. Faltava formalizar essa relação do torcedor com o clube.

CC: Todo êxito financeiro se deve à torcida?
LPR
: Boa parte. Por isso temos tanta afinidade com o Barcelona. Muito do que fizemos no marketing do Corinthians foi discutido com dirigentes do clube catalão.

CC: O Corinthians terá condições, no futuro, de dispensar patrocinadores e ser sustentado pela torcida, como o Barcelona?
LPR
: Sem dúvida.

CC: A camisa do clube não terá publicidade?
LPR
: Não, você verá o símbolo da AACD. O Corinthians é um time capaz de arrecadar 500 milhões de reais em 2014.

CC: E a dívida?
LPR
: Hoje é de 90 milhões, muito pouco.

CC: Na avaliação do senhor, qual o maior vício do futebol brasileiro?
LPR
: O amadorismo.

CC: O que exatamente?
LPR
: Os amigos que perpetuam no poder, sócio há muito tempo que quer ser diretor. Mas isso está sendo superado muito elegantemente. Veja o avanço que houve no Santos, Palmeiras, Vasco e Botafogo. O que eu acho injusto é comparar o modelo que o Corinthians adotou com outros clubes. Não somos gênios do marketing. Aproveitamos a fidelidade da Fiel, com o perdão do trocadilho. O Flamengo pode fazer igual? Parecido. Agora, veja que coisa notável o profissionalismo do São Paulo, com uma torcida totalmente blasé, que não vai ao estádio quando o time está mal. Ainda assim eles encontraram um bom modelo de gestão.

CC: A competição para ter os jogadores mais caros não acaba endividando os clubes?
LPR
: Acho essa competição saudável. Discordo da tese de que precisamos criar artificialismos para prender jogadores no Brasil. Temos de assumir o papel de gerador de talentos para exportar e monitorar os jogadores de 30 anos que estão lá para repatriar.

CC: Do ponto de vista empresarial, isso é ótimo. Mas cada vez mais a vitrine do futebol é o campeonato europeu, não?
LPR
: Nossa Libertadores terá, em breve, muito mais craques. Não sei se o meu Corinthians do ano passado, campeão da Copa do Brasil, perderia do Barcelona, por exemplo. A gente ia jogar com o Real Madrid, não conseguimos data na CBF.

CC: O Corinthians foi um dos primeiros clubes a não permitir reeleição de presidente. Já a CBF está nas mãos de Teixeira há 25 anos. O senhor defende renovação no órgão?
LPR
: Como princípio, defendo eleições frequentes, renovação. Mas veja bem... Se tivesse lá um tapado que não entendesse de futebol, isso seria intolerável. Não é o caso. A Seleção Brasileira é exemplo de profissionalismo. Tem uma gestão primorosa, veja a quantidade de patrocinadores.

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