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“Este prédio nunca será feio”

por Fábio Fujita — publicado 06/12/2010 19h30, última modificação 08/12/2010 18h10
As angústias e sonhos das 840 famílias que ocupavam um edifício no centro de São Paulo
"Este prédio nunca será feio"

As angústias e sonhos das 840 famílias que ocupavam um edifício no centro de São Paulo. Por Fábio Fujita. Foto: Mônica Alves

As angústias e sonhos das 840 famílias que ocupavam um edifício no centro de São Paulo

Às 8h51 da quinta-feira 25, a retirada de uma bandeira da Frente de Luta por Moradia (FLM) da fachada do número 905 da Avenida Ipiranga, no centro velho de São Paulo, simbolizou a volta às ruas de 1,1 mil sem-teto. Ao som de Vida de Gado, de Zé Ramalho, e sob os olhares do Batalhão de Choque da Polícia Militar, da Guarda Civil Metropolitana e do Corpo de Bombeiros, a reintegração de posse pedida pela construtora Camargo Corrêa ocorreu de forma pacífica, pondo fim à aventura de 840 famílias que, por quase dois meses, assumiram o local. Sem outro destino previsto, as famílias se juntaram a outro grupo de sem-teto acampado defronte à Câmara Municipal. Uma semana antes, esse grupo fora igualmente despejado de outro endereço da região. A execução da reintegração de posse do prédio vai muito além de simplesmente agravar o complexo problema de habitação da cidade de São Paulo. Representa, também, o desmantelamento de uma engrenagem de organização coletiva inimaginável a quem, de fora, tende a olhar as ocupações do tipo sob os clichês típicos dos bem-nascidos – notadamente, a ideia de tratar-se de ajuntamento de vagabundos, quando não de marginais. Não seria com esse perfil de ocupantes que o prédio em questão, frequentado por ratazanas e baratas nos últimos anos, conseguiria estabelecer uma dinâmica social – e funcional – que atenuou ao menos outros dois problemas que invariavelmente acompanham os sem-teto: a fome e a higiene pessoal.

Não é pouca coisa. O grupo chegara ao prédio na madrugada de 3 para 4 de outubro. Segundo a coordenadora do FLM, Maria Aparecida Ferreira, conhecida como Maria do Planalto – que circulou com a reportagem pelo prédio, dois dias antes da reintegração –, as pessoas entraram a partir de um buraco na parede. A polícia reprimiu no início, com bombas, sem sucesso. Mas, às 11 horas do dia 4, o Batalhão de Choque cercou o prédio: ninguém saía e ninguém entrava. O cerco só acabaria às 22 horas, quando, do ponto de vista jurídico, a situação deixava de ser invasão para ser ocupação. A partir daí, começava o desafio de tornar o local habitável. Foram nove dias para remover entulhos, que encheram 15 caminhões. “A gente amarrava o lixo em cobertor velho e o pessoal arrastava pela escada”, lembra Maria. Nos primeiros dias, procuraram uma igreja católica das cercanias para que pudessem abastecer garrafas com água, mas o padre vetou. “Só quem nos ajudou foi a lanchonete da esquina e outro bar da Avenida Rio Branco.” Após alguns dias, conseguiram ligar a eletricidade e a água encanada. Um chuveiro masculino e outro feminino foram montados para banho. A cada dia da semana um grupo de pessoas era designado a acordar às 4 da manhã para conseguir na Ceasa, ali nas cercanias, doações de verduras, legumes e frutas. As refeições, feitas de forma coletiva, seguiam horários estabelecidos.

Havia duas cozinheiras fixas e uma equipe de ajudantes se revezava a cada dia. A faxina das escadas seguia um esquema de revezamento. Em cada um dos 14 andares do prédio de 80 apartamentos, a escala de tarefas aparecia em cartazes pregados na parede, sob responsabilidade de um ­coordenador. “As senhorinhas que não podem fazer trabalho pesado cortam cebola, tomate. Ninguém pode ficar se sentindo coitadinho”, determinava Maria. Quem não podia se dedicar às tarefas do coletivo, por conta de outros empregos, contribuía com um pacote de arroz, um litro de leite. “Por isso a comida não acaba”, conta a líder, embora com a ressalva: “Mas carne faz tempo que não tem”. A FLM impunha regras exigentes quanto ao comportamento dos integrantes. Se alguém chegasse embriagado ao prédio, era obrigado a sair e procurar um albergue para dormir. “A pessoa quando bebe se sente forte e dá trabalho”, justifica Maria. A punição era ainda mais severa com alguém pego portando ou usando drogas: expulsão do movimento. Ela cita o caso de um dos integrantes, Francisco, pai de três filhos, alcoólatra e drogado. “Deixei bem claro: ou conserta ou não pode ficar.” A segunda chance, no caso, só foi permitida porque ela é contra o autoritarismo. “Se você põe para fora direto, você cometeu a mesma coisa que o governo está fazendo com a gente”, teorizou. “Mas já faz 12 dias que ele não bebe e nunca mais saiu.” Maria do Planalto é mais que uma liderança para esse grupo de sem-teto. Muitos a chamam de Mãe. Originalmente, as 840 famílias que acabam de deixar o prédio na Ipiranga para voltar às ruas saíram de uma favela da zona leste, o Alto Alegre, desmanchada há um ano por ter sido erguida em terreno grilado. Desde lá, Maria vem na frente da batalha.

Aprendeu a “gostar do movimento”, desde que levantou a própria casa, num esquema de mutirão, na Fazenda da Juta, também na zona leste – até 1987, ela morava de favor no quintal da casa da mãe, com o marido e as três filhas. Uma tia a chamou para conhecer as iniciativas populares relativas à habitação. “Quando entrei no movimento, não sabia nem pegar o carrinho de areia.” Aprendeu muito sobre ferragens, alvenaria, serragem. Ajudou a erguer cerca de 500 sobrados. “A gente fez todos com o mesmo carinho, porque eu não sabia qual seria a minha casa. Se alguma saísse malfeita, poderia ser a minha.” A dela ficou pronta em 1997. “Vi que meu mundinho não era aquele lá de trás, de lavar, passar, cozinhar, tirar o pó e ficar na rodinha com as vizinhas.” José Roberto dos Santos, pernambucano de Pesqueira, é um dos que atribuem a Maria do Planalto o maior auxílio que teve na chegada a São Paulo, em 2009. Com a mulher, Jeane, e dois filhos pequenos, moraram por um tempo na casa de parentes. Depois, tiveram de procurar outra morada. Quando ele topou com os barracos de Alto Alegre, olhava a distância e especulava com a esposa. “Eu dizia: É de cigano. E ela dizia: ‘É não’”. Até que tomaram coragem, aproximaram-se e conseguiram um canto. Passaram pelo despejo e seguiram com a turma liderada por Maria rumo à Avenida Ipiranga. Pergunto o que ele fazia em Pesqueira, e ele responde: “Rapaz, não fazia era nada, porque serviço não tinha”. Até por isso, não ficou desgostoso com a capital paulista, em relação ao que esperava encontrar. “Aqui você junta papelão e ganha dinheiro. Só passa fome se for preguiçoso mesmo.” É baseado nessa premissa que ele parecia alheio à iminência do novo despejo, brincando com a miúda Ketllin Vitória, a terceira filha que nascera há menos de duas semanas.

Se Santos e Jeane estão com a prole por perto, menos sorte teve a paraibana Maria Judite Ferreira, a Zezé, que há 40 anos deixou a cidade de Santa Rita em busca do eldorado paulista. Então separada do marido, ela deixou as três filhas – Maria Auxiliadora, Maria Helena e Maria do Carmo – sob os cuidados de um cunhado, de quem perdeu contato. Zezé nunca mais soube das meninas – até porque jamais pôde voltar a Santa Rita, por conta das dificuldades financeiras. Seu temor é de que as filhas achem que ela, Zezé, as abandonou. “Mas vou vencer. Deus não vai permitir que eu morra sem revê-las.” Em São Paulo, ela não voltou a casar, e seu amor de mãe é integralmente repassado à causa dos sem-teto. Outro solitário é José Tadeu da Silva, o Pokémon, que chegou a São Paulo em 1993 com o intuito de fazer a vida. Pokémon traz na expressão um sorriso quase permanente, digno de suas origens baianas, mas surpreendente em vista dos leões que mata a cada dia. Começou a vasculhar no lixão, até que conseguiu empregos melhores, como servente de pedreiro. “Mas a idade vai chegando e aí começa a ficar mais complicado.”

Por ter bronquite, passou por algumas crises de asma ao dormir no carpete. Assim, transformou em “cama” a porta de um armário – apoiada por duas cadeiras nas extremidades – sobre a qual dorme com o equilíbrio de um faquir. Tímido, aos 50 anos, segue solteiro. Mas nem por isso acha que está fadado a terminar a vida sozinho. “Tenho algumas amigas, quem sabe um dia não acontece alguma coisa.” Entre os idosos, destaca-se a figura empertigada e elegante do viúvo Luiz Vicente. Depois da morte da esposa, ele foi vítima de um AVC, que comprometeu parte de suas funções motoras. A saúde debilitada o levou a morar com um dos filhos. Mas não deu certo. Então, procurou Maria do Planalto e voltou ao movimento. “Ele falou que preferia morar na rua a continuar com o filho”, revelou Maria, embora a dificuldade de convivência pareça ter sido com a nora. “O marido não vai deixar de amar a mulher, e o velho é coisa bastante usada, não é para ser amado”, afirma um melancólico Vicente. O paradoxo é que, há pouco tempo, dona Sebastiana, uma senhora que ainda se recuperava do braço que quebrou ao fugir da truculência policial na chegada ao prédio, procurou Maria do Planalto. Queria a autorização da coordenadora para aceitar o pedido de namoro de Vicente. “As outras velhinhas ficaram todas enciumadas”, brinca Maria. No dia 23, dona Sebastiana havia recebido o valor da aposentadoria. Queria levar o namorado para comer um bife. Em outra extremidade da vida, quase 350 crianças tentam se divertir.

As paredes do andar que servia de creche permaneceram decoradas com desenhos feitos pelas crianças. Numa delas, uma frase escrita com giz de cera expõe a visão infantil, sempre comovente: “Este prédio nunca será feio”. Num alto-falante, a voz de Zé Ramalho embalava a despedida: ...É duro tanto ter que caminhar/ E dar muito mais que receber/ E ter que demonstrar sua coragem/ À margem do que possa parecer...

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