Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / ‘Espero que o Brasil seja o próximo’, diz primeiro gay que se casou em Buenos Aires

Sociedade

Casamento gay

‘Espero que o Brasil seja o próximo’, diz primeiro gay que se casou em Buenos Aires

por Adriana Marcolini — publicado 04/08/2010 18h24, última modificação 13/08/2010 12h56
Ativista Alejandro Vanelli revela como era ser homossexual na época da ditadura e critica a posição da Igreja Católica
‘Espero que o Brasil seja o próximo’

Diz o primeiro gay a se casar na Argentina, Alejandro Vanelli (à direita), em entrevista à CartaCapital

Ativista Alejandro Vanelli revela como era ser homossexual na época da ditadura e critica a posição da Igreja Católica

Os homossexuais Alejandro Vannelli (à direita na foto ao lado), 61 anos, e Ernesto Larresse (à esquerda), 60, foram os primeiros a se casar em Buenos Aires depois que o país vizinho aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A cerimônia aconteceu na sexta-feira, 30 de julho, em meio à presença de cerca de 100 pessoas. Juntos há 34 anos, o representante de atores Vannelli e o ator Larresse participaram do movimento que culminou com a aprovação da lei no Senado, por 33 votos a favor e 27 contra, em meados de julho. Nesta entrevista, Vannelli relata como era ser homossexual na época da ditadura; conta como o movimento gay conseguiu difundir a discussão sobre homossexualismo e sexualidade na sociedade argentina e critica a posição da Igreja católica. Leia a seguir:

CartaCapital:O senhor e seu companheiro, Ernesto Larresse, se conheceram em 1976, durante a última ditadura militar (1976-1983) na Argentina. Um casal de homossexuais podia sair às claras naquela época?

Alejandro Vannelli: Tanto Ernesto como eu sempre vivemos nossa homossexualidade e nosso vínculo com muita tranquilidade. Como ele diz, somos “gays com falhas” porque ambos tivemos relações com mulheres. Mas acontece que um dia nos apaixonamos. Isto nos trouxe problemas, na época da ditadura havia muitas operações da polícia na rua e não podíamos ter tranquilidade. Porém, como somos do meio teatral, no nosso ambiente estávamos protegidos. Passávamos muito tempo em casa para não correr riscos. Quando queríamos nos divertir viajávamos para o Rio de Janeiro e frequentávamos as danceterias cariocas. O Brasil era muito mais aberto que a Argentina.

CartaCapital: Em 2007 vocês tentaram se casar no cartório e não conseguiram. Pode nos contar sobre este episódio?

Vannelli: A Federação Argentina de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trans (FALGBT) havia sido criada há pouco tempo. Eles nos perguntaram se não nos importaríamos em ser o primeiro casal masculino para o qual a Federação pudesse oferecer proteção jurídica. E assim resolvemos nos casar. Pareceu-nos ser importante, embora as pessoas nos dissessem que estávamos loucos porque nos exporíamos. E lá fomos nós com nossas testemunhas, mas fomos informados de que não seria possível. Recorremos a uma juíza, que também disse ser impossível, até chegarmos à Corte Suprema de Justiça. Ainda não tivemos a resposta desta última instância, mas agora a lei foi aprovada.

CartaCapital: Como se desenvolveu o movimento para a aprovação da lei? O senhor foi um dos participantes?

Vannelli: Sim, estou muito orgulhoso de ter participado deste movimento. No meu caso, consegui o apoio do mundo da cultura, o que é muito importante. Quando atores e atrizes, essas figuras das quais o povo gosta tanto, comunicam ao público que são a favor de uma determinada causa, isto tem um peso grande, principalmente no interior do país, onde as pessoas discriminadas sofrem mais. Produzi vídeos de apoio com os atores mais importantes da Argentina e em alguns mencionamos as dificuldades para a conquista do voto feminino e do divórcio. O movimento foi conduzido por gente sem nenhum poder econômico ou político por trás. E foi tocando a campainha das casas, conversando com as pessoas e levando o assunto para a esfera pessoal que conseguimos chegar até aqui. Quando você diz para alguém que “morreram mil pessoas na China” o acontecimento é distante e não toca tanto, mas quando diz “morreu o seu vizinho” é muito diferente. É por isso que abordar o plano pessoal é importante. E esta abordagem conseguiu algo raramente visto: que quase todos os partidos políticos votassem a favor ou contra a lei, independente da inclinação política. No caso da mídia, embora observamos posições a favor e contra, conseguimos que a maioria da imprensa trate o tema do ponto de vista humano e não político. Como não havia dinheiro, também utilizamos a magia da internet e da TV. Colocávamos os vídeos primeiro na internet e muitas pessoas os carregavam no facebook. Depois eu solicitava aos produtores dos programas de TV que os exibissem. Geralmente eles os inseriam em um programa de debates ou em um contexto que permitia a transmissão. Tudo isso sem gastar dinheiro. É importante deixar claro que não se tratou de uma campanha, tal como entendemos este termo. Um ator, por exemplo, era convidado a participar de um programa; então aproveitávamos a oportunidade para exibir o vídeo de apoio que ele havia gravado.

CartaCapital:Quanto tempo levou tudo isso?

Vannelli: Começamos a trabalhar há cinco anos. Foi muito lento, com exceção da última fase, que foi intensa. Resolvemos tratar o tema de uma maneira tranquila, a partir da perspectiva de alguém que sabe ter a verdade e que está reivindicando um direito legítimo. Somos tratados como cidadãos de segunda, mas pagamos os mesmos impostos que os demais, cumprimos com as obrigações comuns a todo cidadão, então também queremos ter os mesmos direitos. Escutamos barbaridades durante este período, coisas da época da inquisição, como por exemplo, que éramos doentes, desviados, pedófilos e assim por diante. Não aceitamos que a hierarquia eclesiástica da Igreja católica nos diga que somos pedófilos quando as evidências indicam que uma boa parte do clero é praticante da pedofilia. Existe um tipo de estigma a apontar o homossexual como abusador, mas as estatísticas revelam que isto não é verdade. Há um detalhe importante: com a nossa estratégia conseguimos que o tema se instalasse nos lares. A discriminação, o homossexualismo, a sexualidade passaram a ser discutidos no seio familiar.

CartaCapital: Para nós, no Brasil, a Argentina é um país muito machista. Como a inserção desses temas no âmbito familiar pôde acontecer?

Vannelli: Isto é verdade, somos um país machista. Esta é uma mudança muito grande e por isso é raro o que está acontecendo. Acredito que os argentinos queiram ser pessoas mais tranquilas e desejam ter uma visão mais livre do mundo. Vivemos muito tempo sob pressão na Argentina. Creio que isto tem a ver com um Estado muito religioso, que nos obrigava a uma certa conduta. Não se esqueça de que saímos de uma ditadura tremenda e até pouco tempo ainda havia pessoas dizendo que estávamos melhor naquela época. Mas as pesquisas de opinião recentes revelam que a grande maioria da população está melhor agora. E os que não estão precisam deixar que os outros sejam como são. Isto se chama homofobia. Meu companheiro sempre diz o seguinte: “Que culpa tem o elevador se alguém tem claustrofobia e não pode usá-lo? Que culpa tem o homossexual se alguém tem homofobia? São fobias, doenças.”

CartaCapital: Em termos legais, qual é a diferença entre união civil e casamento?

Vannelli: A principal diferença é a igualdade. Nunca pensei em me casar, não sou muito a favor da estrutura do casamento, mas de alguma maneira esta lei ampara as famílias. Pode ser melhorada e imagino que o será. Na união civil você recebe uma caderneta verde e fica sendo “igual”, mas com regras diferentes. Não é a mesma coisa. Como na Argentina vigora a lei do casamento, então que seja para todos. Se não for desta maneira, o próprio Estado estará discriminando um segmento da sociedade. A discriminação acontecia ao marcar um território para os homossexuais, estabelecendo que eles podiam ter somente a união civil, ao contrário dos heterossexuais, que podiam ter as duas opções (casamento e união civil).

CartaCapital: A adoção de crianças era possível na união civil?

Vannelli: A adoção podia ser feita apenas por um integrante do casal e, portanto, se o tutor legal viesse a falecer, ou se adoecia seriamente, seu parceiro não tinha o direito de ficar com a criança. O maior prejudicado era justamente a criança, porque ela sentia vínculo com ambos. Para a herança, era preciso fazer previamente um testamento conjunto.

CartaCapital – A lei prevê que os casais gays possam adotar crianças?

Vannelli: Sim, com o casamento poderemos adotar juntos e não mais apenas um integrante do casal será o tutor responsável.

CartaCapital: Muitos dos que criticam a aprovação do casamento gay afirmam que este é um projeto dos Kirchner. Qual a sua resposta?

Vannelli: Não é em absoluto. Os Kirchner são os últimos que tentaram usá-lo como arma partidária. Os integrantes da FALGBT têm orientações partidárias diferentes, mas nunca se tratou sobre este assunto. O que estava na mesa eram os direitos igualitários; nas nossas discussões a política não entrava. O ex-presidente Néstor Kirchner já havia nos apoiado em 2003, mas quando o projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados, deu novamente o seu apoio. Dois dias antes da votação, a presidente Cristina Kirchner expressou ser favorável. Portanto os que afirmam ser este um projeto K são aqueles que tentam levar tudo para o terreno político, em benefício próprio.

CartaCapital: Pouco antes da votação no Senado, o arcebispo de Buenos Aires e cardeal primaz da Argentina, Jorge Bergoglio, referiu-se ao projeto como a “pretensão destrutiva ao plano de Deus” e disse que era a “presença do demônio”. Esses ataques chegaram a colocar a aprovação em risco?

Vannelli: Parece que o cardeal trabalhou a nosso favor, porque ao fazer afirmações que lembram a inquisição e o obscurantismo, acabou prejudicando a própria Igreja. Quem pode dizer que Deus, a expressão do amor, está contra nós? Veja bem, queremos oficializar uma relação que já existe de fato. Quem vai querer se casar se não estiver apaixonado? Ou seja, estamos falando de amor. Por que provocar uma guerra por causa disso? Tudo bem alguém afirmar não estar de acordo, mas que não desate uma guerra! Muitas pesssoas que estavam indecisas se assustaram com as declarações do arcebispo e acabaram ficando do nosso lado. Imagine que um dia antes da votação, ele suspendeu o padre Nicolás Alessio, de Córdoba, porque este sacerdote era favorável ao projeto – assim como muitos outros que têm um pensamento mais moderno. Isto acontece ao mesmo tempo em que Cristhian von Wernicke, um cardeal condenado por ter participado da tortura e da morte de muitas pessoas na ditadura militar, e os párocos Edgardo Storni e Julio Cesar Grassi, ambos condenados por abuso sexual, continuam a rezar a missa na prisão!

CartaCapital: A aprovação da lei teve muita repercussão no Brasil. O senhor pensa que o próximo país da América do Sul a aprovar uma legislação semelhante possa ser o Brasil?

Vannelli: Embora tenha a sensação de que o Uruguai seja um país bastante adiantado neste âmbito – eles tiveram o divórcio antes de nós, por exemplo – eu gostaria muito e espero que o próximo fosse o Brasil. Conheço o país de norte a sul, íamos muito para lá nos anos 1970, foi no Rio onde conheci a liberdade sexual. Para mim, o Brasil sempre foi muito mais livre, mais aberto, acho que por causa do calor, da forma de pensar das pessoas, da mistura de raças. Por tudo isso me estranha que não tenha aprovado o casamento gay antes da Argentina. Mas penso que o país tenha tudo para adotar esta medida; é preciso aproveitar a presença do Lula, uma pessoa que vem das camadas baixas da população e luta pelos direitos de muita gente. Penso que a aprovação da lei aqui terá repercussão em todo o continente. A FALGBT reuniu muita bibliografia, contribuições de advogados e relatórios das audiências no Congresso. Temos um bom material que pode servir de apoio a qualquer entidade que necessite de subsídios para levar adiante seu trabalho. Portanto, se uma organização brasileira nos procurar, estamos dispostos a ajudar. A FALGBT pode ser uma referência para os outros países sul-americanos.

CartaCapital: Como o senhor se sente? Já pensou que vocês estão fazendo história?

Vannelli: Estou muito contente! Já nos demos conta de que, realmente, estamos fazendo história. Mas isto é só o começo. Ainda há muito caminho pela frente. A discriminação começa no âmbito familiar e não vai terminar só porque a lei foi aprovada.

registrado em: