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Vitamina C contra câncer e gripe

por Riad Younes publicado 08/09/2010 11h04, última modificação 08/09/2010 11h04
Trinta anos após a famosa palestra de Linus Pauling, o efeito no tratamento de doenças ainda não está claro

Trinta anos após a famosa palestra de Linus Pauling, o efeito no tratamento de doenças ainda não está claro

No final da década de 1970, tive a oportunidade de poder assistir a uma apresentação magistral de um cientista ganhador do Prêmio Nobel. Naquela época, aluno da Faculdade de Medicina, vi um cartaz anunciando a palestra de ninguém menos do que o professor Linus Pauling, um dos mais importantes cientistas do século passado.

Pauling ganhou não apenas o Prêmio de Química de 1954. Ele também foi condecorado pela comissão julgadora com o Nobel da Paz, em 1962. Imaginem, naquele momento, a ansiedade de um aluno novato na medicina e na ciência ver de perto o legendário professor Pauling. Tema da palestra: Vitamina C e Saúde.

Ele tinha acabado de publicar um estudo que mostrava as vantagens de doses elevadas desta vitamina no tratamento de pessoas com câncer em fase terminal. Além desses resultados inovadores, segundo o cartaz que anunciava a conferência, outras vantagens seriam discutidas, como a prevenção de resfriado e de gripe. Ouvi, como muitos ouviram, as palavras de Pauling. Para todos os presentes, não importava o teor e os métodos empregados nos estudos que baseavam suas conclusões, as palavras do mestre tinham o efeito de lei. Saímos do teatro -admirados com o cientista, convictos dos benefícios incontestáveis da vitamina C.

Nos 30 anos seguintes, milhares de pacientes foram voluntários e milhões de dólares foram investidos em pesquisas para avaliar o exato impacto da vitamina C na saúde. Resultado: as certezas da década de 70 se tornaram dúvidas cada vez mais profundas. E a vitamina C tornou-se hoje uma pequena mancha na impecável carreira do professor Linus Pauling.

Houve quem o descrevesse como um quack, um charlatão. A controvérsia durou muitos anos, até depois da morte do cientista, ocorrida em 1994. Uma paciente portadora de câncer de pulmão me perguntou, há poucos dias, sobre as vantagens da vitamina C. Prometi rever as evidências científicas recentes e os estudos modernos para dar informação sólida, não uma mera impressão. Encontrei dois estudos importantes que avaliaram o conhecimento corrente sobre os efeitos da vitamina C em algumas situações clínicas.

O médico F. Cabanillas, por exemplo, realizou um estudo no Instituto do Câncer M. D. Anderson, da Universidade de Texas, para captar o papel da vitamina C em pacientes portadores de tumores malignos. As pesquisas mais extensas incluíram mais de 1,6 mil pacientes e voluntários, e levaram 33 anos para ser completadas. Ao término, continuamos sem saber se a vitamina C tem qualquer efeito clinicamente relevante sobre os tumores, qual a dose a ser administrada e se algum tipo específico de câncer seria mais “sensível” aos mecanismos de ação desta vitamina.

Por outro lado, o uso generalizado da vitamina C para prevenir e tratar resfriados e gripes está presente em todo o mundo. Vendem-se milhões de comprimidos de vitamina C, sob todos os formatos e combinações, principalmente nos meses de inverno. Mas será que funciona?

Cientistas do Centro Nacional para Epidemiologia da Universidade Nacional da Austrália, liderados por R. M. Douglas, -realizaram uma pesquisa exaustiva. A análise incluiu mais de 11 mil voluntários, durante 35 anos. Os resultados da análise não foram muito encorajadores. Os pesquisadores não encontraram base científica para o uso suplementar de altas doses de vitamina C para a prevenção do resfriado.

Por outro lado, os pesquisadores identificaram um emprego justificável em pessoas expostas a breves períodos de exercício físico extremo, em ambientes com temperatura muito baixa, podendo a vitamina C ter algum papel nas defesas do trato respiratório nessas situações. No entanto, a administração de doses elevadas de vitamina C, em pacientes que já apresentam sintomas iniciais de resfriado, não mostrou nenhum benefício terapêutico sobre a duração do episódio de gripe, quando comparados a pacientes na mesma situação que receberam placebo, substância inerte sem efeito biológico.

Por mais frustrante que seja admitir, 30 anos após a famosa palestra de Pauling, as certezas daquela época acabaram não se confirmando. Se há alguma vantagem no uso de vitamina C nessas situações, este benefício ainda não é claro.