Você está aqui: Página Inicial / Saúde / Um idealista realizador

Saúde

Riad Younes

Um idealista realizador

por Gianni Carta publicado 20/04/2012 12h01, última modificação 06/06/2015 18h22
O oncologista põe meios e know-how brasileiros a serviço da medicina dos países árabes
Riad2

O projeto nasce de uma viagem ao Oriente Médio na comitiva do presidente Lula, em 2004, a convite do chanceler Amorim. Foto: Olga Vlahou

Faz anos, o médico Riad Younes queria colocar em prática um projeto. Como ajudar os países do Oriente Médio, os quais tem infraestrutura hospitalar deficitária e escassez de médicos treinados? No fim de 2003 veio à tona uma oportunidade. O presidente Lula planejava uma turnê pelos países árabes e o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, propôs a Younes: “Por que você não se agrega?”

Younes, coordenador de cirurgia oncológica do Hospital São José e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, é, antes de mais nada, um cientista de perfil ideal para executar a tarefa. Nascido no Líbano, esse cidadão brasileiro de 52 anos, fluente em árabe, francês e inglês, é formado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e tem especialização no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York.

De volta ao Brasil, chefiou o Departamento de Cirurgia Torácica do Hospital A.C. Camargo. Em seguida foi por quatro anos diretor-clínico do Hospital A.C. Camargo e depois diretor-clínico por duas gestões do Hospital Sírio-Libanês (HSL). Younes é também médico cirurgião do HSL.

Na viagem na comitiva de Lula, a Síria e o Líbano logo se interessaram pelo projeto. Hóspede de São Paulo em junho de 2010, Bashar al-Assad fez uma visita ao HSL. À época diretor, Younes ciceroneou o líder sírio. As duas áreas que os brasileiros têm meios mais apurados para desenvolver na região, diz Younes, são a oncologia e, em geral, a das doenças hepáticas. No entanto, em intercâmbios no segundo semestre, os brasileiros participarão de outros projetos, como um de deficiência cardíaca congênita.

Em visita a Damasco poucas semanas após o encontro no HSL, Younes ouviu de Assad que a Síria estava interessada também em comprar aparelhos médicos e visitar indústrias brasileiras. Oito médicos sírios vieram ao HSL por três semanas no início de 2011, onde presenciaram diversos transplantes de fígado.

A Síria tomou assim a dianteira nessa relação com o Brasil, mas, quando as manifestações contra Assad tiveram início, o plano encalhou. Indagado como ele vê a refrega sangrenta entre o alauíta Assad e manifestantes, em grande parte da maioria sunita, Younes pondera: “Meu ponto de vista não é político neste caso. Quero salvar vidas e agora estou de mãos atadas em um país que se mostrou o mais solícito no projeto de melhora de sua infraestrutura para a saúde”.

De qualquer modo, ter ido a Damasco rendeu frutos para Younes. A entrevista concedida a uma popular rede de tevê síria gerou interesse em outros países. Ministros da Argélia, Tunísia, Marrocos, Catar e Kuwait, entre outros, contataram o oncologista.

O médico também levou seu projeto para a Cisjordânia, no fim de 2010, quando o governo brasileiro perguntou se ele teria interesse em viajar à Palestina. Da Cisjordânia Younes seguiu para a Jordânia e o Egito. País com maior infraestrutura médica no mundo árabe, o Egito está em contato com representantes de saúde de Gaza. Younes expôs seu projeto de ajudar os médicos a realizar na capital egípcia transplantes de fígado em crianças de Gaza. A ideia foi aprovada e o embaixador do Brasil no Cairo à época, Cesário Melantonio Neto, contribuiu bastante para a realização do projeto com os egípcios, enfatiza Younes.

Sentado no seu escritório em São Paulo, Younes, também colunista de CartaCapital, se expressa sobre assuntos variados com rápida articulação sem deixar de transmitir uma sensação de tranquilidade. Segundo Younes, o propósito não é criar uma associação brasileira como a Médicos sem Fronteiras (MSF), e sim treinar os seus pares da região. “Queremos ensiná-los a pescar”, diz, sem receio do clichê.

Claro, há, como no caso da MSF, médicos voluntários do projeto brasileiro a exercer sua profissão na região. Mas, pondera Younes, além da transmissão de know-how, “queremos melhorar a infraestrutura médica e de atendimento nos países árabes”. O treinamento pode ser feito in loco em certos lugares como na Cisjordânia, visto que médicos a deixar aquela região raramente voltam, por razões óbvias. Em outros casos, os médicos vêm ao Brasil para ser treinados aqui. Por exemplo, doutores oriundos de países mais endinheirados como o Catar e a Arábia Saudita, onde centros médicos sofisticados não escasseiam, podem, como no caso dos sírios, ser treinados no Brasil.

Segundo Younes, o financiamento para suas viagens ao Oriente Médio foi disponibilizado já no início de 2004, quando o médico voltou da viagem com a comitiva de Lula e expôs seu projeto ao pessoal do HSL. Giovanni Cerri, conselheiro do HSL e à época diretor da Faculdade de Medicina da USP, animou-se. Pouco a pouco, Younes conseguiu reunir um considerável grupo de financiadores para seus projetos no Oriente Médio. Além da ajuda do HSL, o projeto recebe apoio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) do Ministério das Relações Exteriores e, mais recentemente, da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira. Essas instituições dividem os custos das viagens de Younes e, no caso de treinamentos, de três a quatro médicos brasileiros.

Por sua vez, países ricos também pretendem participar do projeto. O Ministério da Saúde do Catar, por exemplo, dispõe de uma verba para ajudar a Palestina. “Montamos o projeto para as regiões palestinas, e Doha também entrará com a ajuda financeira”, explica Younes. Em miúdos, em alguns casos o projeto é uma joint venture entre brasileiros e árabes.

De acordo com Younes, o mundo conhece a qualidade de numerosos hospitais nos Estados Unidos, “mas hospitais como o HCor, o São José, o Sírio-Libanês e o Einstein têm de mostrar também a sua”. O problema “é que o País parece viver em um casulo e ninguém sabe da existência de uma medicina brasileira avançada”. Para o oncologista, o Brasil tem de se tornar uma opção importante.

A presidenta Dilma Rousseff e o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, apoiam o projeto de Younes. Na verdade, a estratégia dele de ajudar os países do Oriente Médio está em sintonia com a geopolítica do governo brasileiro. Brasília busca a paz na região, enquanto a maioria dos países do Ocidente prefere manter elos com Israel. Algumas, por tabela, adotam uma atitude de antagonismo em relação aos países árabes.

“Pacientes do Oriente Médio não se sentem à vontade ao ir se tratar nos Estados Unidos, que enxergam como um país com preconceitos contra os árabes”, argumenta Younes. E é justamente nesse contexto que o Brasil, tido como um país imparcial, poderia ser uma opção. “É claro que nosso projeto tem a ver com a política externa brasileira no Oriente Médio”, concorda Younes. “E os brasileiros são muito queridos na região.”