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Tratamentos evoluem em busca de menos toxidade

por Gabriel Bonis publicado 01/01/2012 18h01, última modificação 02/01/2012 10h36
Pesquisadores procuram aperfeirçoar técnicas para eliminar riscos do reaparecimento da doença em decorrência do tratamento inicial
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Pesquisadores procuram aperfeirçoar técnicas para eliminar riscos do reaparecimento da doença em decorrência do tratamento inicial. Foto: UGA College of Ag/Flickr

De San Diego

As tecnologias e medicamentos modernos possibilitaram que a ciência pudesse atingir um índice de cura de 80% dos tipos cânceres existentes. Mas essas mesmas técnicas e drogas, por outro lado, podem aumentar consideravelmente o risco de reaparecimento da doença anos após o tratamento inicial.

Especialistas apontam que a exposição de  jovens à radiação contra o câncer pode aumentar os riscos de necrose nos ossos e entre os idosos, as complicações cardiovasculares e derrames despertam preocupação. Além disso, em alguns casos, os pacientes podem desenvolver novos tipos da doença após um período médio de 15 anos.

Para evitar essas complicações, um dos maiores desafios atuais dos pesquisadores é criar técnicas capazes de curar com baixa toxicidade. Segundo Lucia Silla, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutora em Genética e Biologia Molecular, a radioterapia, além de drogas que provocam divisão celular, aumentam risco de novos cânceres. “As pessoas se curam, mas precisamos diminuir a toxidade para acabar com as complicações tardias dos sobreviventes.”

São essas complicações que as pesquisadoras Can-Lan Sun e Smita Bhatia, do centro de câncer City of Hope na Califórnia, acompanharam durante quatro anos. O trabalho, apresentado na 53ª reunião anual da Sociedade Americana de Hematologia, em San Diego, Estados Unidos, analisou as consequencias do transplante de medula óssea em pacientes após dez anos do procedimento.

A maior parte dos 366 voluntários, com idade entre dez e 70 anos, passou por exposição intensa e prolongada a tratamentos de imunossupressão e radiação total do corpo. Além disso, 73% realizaram transplante alogênico (vindo de outro doador) e 27% autólogo (da própria pessoa).

Na comparação com 309 de seus irmãos e irmãs, os transplantados se mostraram mais propensos a desenvolver doenças crônicas e psicológicas. Essa análise com parentes próximos tem explicação científica, destaca Sun, em conversa com CartaCapital. “Irmãos cresceram em um ambiente semelhante, com o mesmo padrão social e econômico, além dos termos genéticos. Isso os faz mais comparáveis.”

Os resultados também mostraram que 74% dos transplantados relataram ao menos uma condição de saúde crônica, contra 29% do grupo de controle. Cerca de 25% dos sobreviventes disseram possuir condições de risco de vida, como problemas no coração, derrames, diabetes, cegueira e necrose de ossos, comparado a apenas 8% de seus irmãos.

Os resultados alarmantes, no entanto, não assustam Bhatia. “Não podemos abandonar o transplante de medula, pois essa pode ser a única chance de um paciente”, diz a CartaCapital. “Queremos que as pessoas sejam, antes de tudo, curadas de sua enfermidade primária.”

A pesquisadora, que pretende expandir o estudo para sobreviventes com mais de 20 anos do procedimento, destaca que os dados podem ajudar a melhorar a qualidade de vida de novos transplantados. “Sabemos que as complicações vão ocorrer, agora podemos detectá-las com antecedência e impedir que se desenvolvam.”

Para evitar efeitos colaterais futuros, técnicas de tratamento mais específicas estão sendo aperfeiçoadas há alguns anos. Entre elas está a “quimioterapia personalizada”, que avalia a reação de cada pessoa aos medicamentos e, por meio de análise genética, define as doses das drogas mais adequadas para o tratamento da leucemia, por exemplo.

Quando um paciente sofre com os efeitos dos remédios, reajusta-se apenas a dose da substância responsável pelo mal estar. “Isso evita ao máximo a toxicidade”, explica Ching-Hon Pui, presidente do Departamento de Oncologia do Hospital de Pesquisa Infantil St. Jude, em Memphis (EUA), a CartaCapital.

Pui, um dos precursores deste tipo de tratamento, destaca que seu instituto ajudou a introduzir a técnica no Brasil, em hospitais de Recife. “É importante que o procedimento se espalhe pelo mundo e diminua o número de mortes.”

Além da terapia personalizada, os médicos já testam tratamentos alvo no combate ao câncer. Essa técnica visa atacar apenas as células da doença para preservar ao máximo outros órgãos, porém,  apesar dos bons resultados em estudos, Bhatia destaca que as complicações ainda não estão claras. “Algumas destas drogas causaram problemas no coração de pacientes.”

Para Pui, uma “bala mágica” ainda não existe, mas a ciência avança a um ponto em que para tratar a leucemia, o paciente precisará fazer apenas um exame de sangue e identificar o tipo de célula da doença. “Em dez anos isso deve ser uma realidade, pois já há companhias interessadas nisso e também no sequenciamento genético de cada pessoa.”

O médico ainda destaca que os pesquisadores precisam buscar um novo olhar para o tratamento de doenças graves. “Devemos pensar em curar as pessoas e não apenas o câncer. Se anos depois um paciente morre com um novo tumor, não creio que o tenhamos curado em primeiro lugar.”