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Drauzio Varella

Tiques incontroláveis

por Drauzio Varella publicado 15/01/2011 12h07, última modificação 15/01/2011 12h07
A síndrome de Tourette, um distúrbio neuropsiquiátrico, afeta crianças e adultos.

A síndrome de Tourette, um distúrbio neuropsiquiátrico, afeta crianças e adultos

Provavelmente, você já viu crianças e até adultos com tiques repetitivos que chamam a atenção de todos. Eles não são simples manifestações de nervosismo, fazem parte de um distúrbio neuropsiquiátrico: a síndrome de Tourette.

Condição que se instala na infância, essa síndrome é caracterizada por tiques motores ou vocais com mais de um ano de duração.

Os tiques motores incluem piscar, contrair os músculos da face, balançar a cabeça, contrair em trancos os músculos abdominais ou outros grupos musculares, além de movimentos que parecem propositais, como tocar ou bater nos objetos próximos.

Os tiques vocais incluem ruídos não articulados como tossir, fungar ou limpar a garganta, e outros em que há emissão parcial ou completa de palavras. O mais constrangedor, dizer palavrões ou insultos, aparece em menos de 50% dos casos. Os critérios para o diagnóstico da síndrome são:

Tiques motores múltiplos e um ou mais tiques vocais devem estar presentes durante algum tempo; não necessariamente ao mesmo tempo.

Os tiques devem ocorrer diversas vezes por dia, quase todos os dias ou intermitentemente por um período de pelo menos três meses consecutivos.

O quadro deve começar antes dos 18 anos de idade.

O distúrbio não deve surgir como consequência direta de alguma substância estimulante ou de uma condição médica.

Os tiques costumam ser precedidos por sensações premonitórias incômodas, localizadas na mesma região. Há alguma capacidade de suprimi-los, mas o impulso para dispará-los torna-se irresistível.

Na maioria das vezes, há diversos tipos de tiques que variam de uma semana ou de um mês para outro. Geralmente ocorrem em ondas, com frequência e intensidade variável, pioram com o estresse, mas independem dos problemas emocionais.

Eles podem estar associados a sintomas obsessivo-compulsivos e ao distúrbio de atenção e hiperatividade. A combinação desses três distúrbios constitui a “tríade da síndrome de Tourette. É possível que existam fatores hereditários comuns a essas três condições.

É importante diferenciar tiques de compulsões. A compulsão segue um pensamento obsessivo (lavar as mãos inúmeras vezes, por medo de contaminação) e obedece a determinadas regras (num certo número de vezes ou numa certa ordem).

Ao atingir a adolescência, os sintomas desaparecem em pelo menos um terço dos casos. Em outro terço, eles se tornam bem menos intensos. Nos demais, persistem pelo resto da vida.

Em muitas crianças com a síndrome os sintomas são discretos e o problema pode ser contornado com informação e aconselhamento para reforçar a autoestima e a autoconfiança.

Estudos demonstram a utilidade de uma forma de terapia comportamental cognitiva, conhecida como tratamento de reversão de hábitos. Baseia-se em treinar os pacientes para que monitorem as sensações premonitórias e os tiques, a fim de responder a eles com uma reação voluntária fisicamente incompatível com o tique.

Nos casos mais graves, em que os tiques sejam causa de depressão, embaraços sociais, isolamento, conflitos ou dores musculares, pode ser indicado o uso de agentes antipsicóticos e de outras drogas. Porém, como o controle prolongado da síndrome exige tratamentos mantidos por muito tempo, é preciso analisar a relação de custo-benefício entre os efeitos colaterais e a redução da intensidade dos tiques.

Em alguns casos de tiques bem localizados podem ser tentadas aplicações locais de toxina botulínica (Botox).

Em casos refratários à medicação, autores preconizam tratamento cirúrgico com estimulação cerebral profunda, aplicada em certas áreas do cérebro. Tal tratamento só é indicado em casos excepcionais.