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Saúde

Avanços médicos

Terapia gênica desponta, mas não para o mercado

por Gabriel Bonis publicado 22/12/2011 13h15, última modificação 06/06/2015 18h20
Especialistas ainda apontam décadas de sepação entre os laboratórios e a vida real
madeiragenetica

Cientistas já conseguem mutar partes dos genes do corpo humano para curar doenças, mas quantas décadas separam o laboratório da vida real? Foto: EpSos.de/Flickr

De San Diego

 

Assim como a cada ano uma nova onda de eletrônicos supera a geração anterior  em potência e funcionalidade, os tratamentos médicos também evoluem com rapidez, embora em menor escala.

Há cerca de 50 anos, os cientistas se encantavam com as possibilidades revolucionárias de cura por meio do transplante de medula óssea. Hoje, os pesquisadores trabalham com metas ainda mais ambiciosas: criar terapias de mutações genéticas com células tronco para eliminar problemas biológicos dos pacientes.

 

A lista de estudos com este enfoque é extensa, mas um trabalho promissor específico pode potencializar os resultados do transplante de medula óssea. Apresentada na última semana no 53º encontro anual da Associação Americana de Hematologia, em San Diego (Estados Unidos), a pesquisa é uma parceria de instituições norte-americanas e alemãs, com autoria de Arnab Ghosh e Marcel R.M. van den Brink.

O trabalho, realizado com ratos em laboratório, visa suprimir a chamada doença do enxerto contra hospedeiro. Um problema que ocorre quando uma pessoa passa por um transplante de medula óssea de um doador e as células transplantadas enxergam o organismo do receptor como uma ameaça, atacando-o.

“Em muitos casos, a única chance de cura do paciente é um transplante alogênico (de um doador), que basicamente substitui o sistema de defesa do paciente pelo de outra pessoa”, explica Ghosh, durante a apresentação do estudo na Califórnia. “Isso pode resultar em vários problemas, como danos a órgãos e até a morte. Por isso, essa técnica tenta atacar apenas o câncer.”

A pesquisa ainda procurou aumentar o chamado efeito GVT (sigla em inglês) nos pacientes. Uma outra condição resultado da doença do enxerto do hospedeiro, mas positiva. Nela, as células da medula transplantada reconhecem também os resíduos cancerígenos e os eliminam, o que diminui as chances do retorno de outro tumor.

Apesar dos resultados promissores, Carmino de Souza, diretor do Hemocentro da Unicamp, aponta que as terapias gênicas apareceram com “grande glamour” há duas décadas, mas ficaram em segundo plano por anos. “Alguns trabalhos que culminaram na morte de voluntários brecaram os avanços na área, que agora volta com força.”

No estudo, os pesquisadores utilizaram modelos experimentais com células tronco geneticamente alteradas chamadas TRAIL (sigla em inglês), uma proteína que funciona como indutor no processo de morte celular (apoptose). Esse sinal é uma espécie de botão de “autodestruição” dos receptores celulares DR4 e DR5, que facilita a eliminação de cânceres.

George Q. Daley, reconhecido especialista em células tronco e professor da faculdade de medicina da Universidade de Harvard, destaca que o uso de células tronco em tratamentos é padrão apenas para doenças de sangue e, ainda assim, após resultados convincentes por mais de 40 anos. "Ser tratamento padrão não significa ser seguro”, diz a CartaCapital. “É um procedimento  muito tóxico, usado em situações em que as doenças subjacentes são terríveis, fatais ou debilitantes.”

Na pesquisa germano-americana, os cientistas inseriram nas células esplenócitas B6 (glóbulos brancos do sangue) dos doadores um vetor lentiviral (vírus com longo período de incubação) do TRAIL. Como resultado, houve indicativos de aumento do GVT e supressão do desenvolvimento letal da doença do enxerto do hospedeiro em receptores de transplante alogênico, além de uma maior proteção contra tumores.

“Um vírus pode fazer o papel de gene por ser uma proteína com DNA, que pode ser inserida inteira e reparar uma proporção em falta”, explica Carmino. “A técnica ainda é bastante embrionária nos resultados práticos e é preciso deixar claro que deve demorar para ser utilizada em larga escala.”

Ghosh ainda explica que ao colocar o gene nas células tronco do doador, foi possível direcionar o ataque apenas para as células cancerígenas. “Mas nem todos os tumores podem ser facilmente reconhecidos, por isso precisamos aprimorar o procedimento.”

Segundo Daley, mesmo com resultados rápidos e promissores, as descobertas mais importantes da biotecnologia na última metade do século passado se espalharam apenas 20 anos depois de sua criação. “Creio que o mesmo deve acontecer com as terapias baseadas em células tronco. Em 30 anos veremos o impacto real delas.”