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Saúde

Dia do combata à Aids

Tabus deixam gays e mulheres ainda vulneráveis

por Clara Roman — publicado 01/12/2011 19h18, última modificação 02/12/2011 11h01
Número de infecções cresce entre os jovens. Para especialista, o trabalho educacional exclui meninas e homossexuais
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Número de infecções cresce entre os jovens. Para especialista, o trabalho educacional exclui meninas e homossexuais

O último relatório da Unicef, órgão das Nações Unidas para infância e juventude, mostrou que metade de novos casos de Aids no mundo se concentra em jovens de até 24 anos. No Brasil, entre os jovens infectados, mulheres e homossexuais são os mais vulneráveis. De 1998 a 2010, por exemplo, o percentual de casos entre a população heterossexual de 15 a 24 anos caiu 20,1%. Entre os gays da mesma idade, houve um aumento de 10,1%.

Para a psicóloga Vera Paiva, coordenadora do Núcleo de Estudos para Prevenção da Aids (Nepaids), esses números refletem falhas das políticas de prevenção públicas para a doença. “Quando você fala em prevenção em escolas, você assume que todo mundo é heterossexual. Ninguém aventa a possibilidade de que alguém ali é homossexual”, diz ela. Dessa forma, os gays são “excluídos da conversa”.
Com as meninas, não é muito diferente, uma vez que a principal bandeira, “use camisinha”, não se aplica ao caso delas. “A menina não usa camisinha, usa a conversa. Assim, preferem recuar para pílula para não ter que falar no assunto. Mas pílula não protege da Aids”, explica.

Na faixa etária entre 13 e 19 anos, para cada oito casos em meninos, existem 10 meninas contaminadas, segundo o estudo da Unicef.

A especialista aponta que a sexualidade feminina e homossexual ainda é muito estigmatizada. Isso atrapalha na hora da conscientização do problema da Aids. “O silêncio sobre a sexualidade ainda impera como norma de gênero”, diz ela.

A conversa não se esgota só em algumas palestras esparsas, mas em um trabalho psicoeducativo, de desconstrução de ideais arraigadas, segundo a especialista. Ela explica que meninas e gays precisam assimilar a ideia de quem têm direito a uma vida sexual saudável.

Em seu trabalho, a psicóloga convive com pessoas que realizam testes para saber se possuem o vírus. Ela se diz impressionada quando, ao informar jovens gays que seus testes são positivos, sente uma espécie de "banalização" por parte deles. Em sua análise, é como se os meninos já estivessem conformados com o fato de que seriam infectados um dia, como se fizessem parte do pacote de ser gay, uma punição por sua orientação.

Era para a epidemia ter acabado

“O maior desafio para o Brasil combater a Aids é a gente parar de se satisfazer com a estabilidade do controle da epidemia. Com o que se aprendeu nos últimos 30 anos, tínhamos condições de fazer essa epidemia cair a quase zero”, diz Paiva. Para melhorar, segundo ela, é só fazer bem feito o que já é realizado. Informação não falta, diz ela – que destaca a importância da internet como um parceiro na divulgação – mas falta um trabalho educacional mais profundo.

Ela destaca que, apesar de muitos religiosos auxiliarem no trabalho de prevenção, distribuindo camisinhas em igrejas, por exemplo, e conversando com jovens, alguns grupos religiosos ainda resistem ao trabalho de educação e distribuição de preservativos nas escolas. Mas, lembra ela, mesmo jovens de alas fundamentalistas católicas e evangélicas começam a vida sexual muito cedo e não esperam o casamento – só que sem utilizar camisinha.

Outro ponto levantado pela especialista é que há uma "banalização" da doença. Apesar das conquistas na conscientização de que é possível se viver normalmente, não se deve escolher viver com Aids.

Mas ela avisa: não é fácil conviver com a doença, sobretudo por conta do preconceito.

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