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Problemas conhecidos

Sem gestão, recursos para a Saúde nunca serão suficientes

por Sul 21 — publicado 28/04/2011 09h06, última modificação 28/04/2011 09h06
No Rio Grande do Sul o financiamento, a infraestrutura e o corpo de funcionários estão distantes do ideal, mas é apenas gerenciando os mesmos que será possível saber como está a situação no estado. Por Igor Natusch

Por Igor Natusch*

Parece haver um consenso entre as pessoas que, no Rio Grande do Sul, pensam a saúde e nela trabalham. O financiamento pode não ser suficiente, a infraestrutura e o corpo de funcionários podem estar distantes do ideal, mas somente a partir de um bom gerenciamento desses recursos será possível ter uma noção real do que falta para que o estado goze de boa saúde. Líderes de entidades ligadas aos médicos e aos enfermeiros concordam com avaliação presente em matéria anterior do Sul21, e garantem: o RS precisa se preparar para desafios cada vez maiores no setor. O secretário de Saúde do estado, Ciro Simoni, concorda, mas acentua: a busca de um gerenciamento mais eficiente não pode ser desculpa para deixar os investimentos em segundo plano.

A presidente do Conselho Regional de Enfermagem do Rio Grande do Sul (Coren-RS), Maria da Graça Piva, acompanha a saúde gaúcha não apenas da perspectiva de dirigente, mas também como professora. Ela acredita que boa parcela do problema ocorre na medida em que a preparação dos novos profissionais de Medicina não se adequou ao crescimento das instituições e às mudanças de demanda. “O atendimento direto é importante, com toda certeza. Mas os alunos se formam sem preocupação com a parte gerencial, sem levar em conta a necessidade de atuar de forma eficiente em todos os aspectos relativos à profissão”, diz.

Na visão de Maria da Graça, esse despreparo reflete em todo o sistema, chegando até os gestores propriamente ditos. “Muitas vezes o profissional chega em um pequeno hospital, com 20 leitos, e não tem nem ideia por onde começar (a administrar). Era para ser um sonho, mas acaba se tornando muito difícil, porque as pessoas chegam lá sem um olhar gerencial. Imagina isso na proporção de um grande hospital, com uma complexidade imensa”, compara. A presidente do Coren-RS acredita que se essas pessoas pudessem observar seu trabalho com algum distanciamento perceberiam os erros que cometem. “Não gerenciamos as coisas mais simples, como limpeza, estocagem de remédios, acondicionamento de material”, lamenta.

“Não adianta ter dinheiro e não saber gastar”, diz Fernando Weber Matos, presidente do Conselho Regional de Medicina do RS (Cremers). Para ele, falta uma estratégia que direcione os esforços e faça os recursos já existentes darem resultados, se não ideais, ao menos mais efetivos. “Temos que buscar criar condições de trabalho, dividir equipes, estabelecer metas e objetivos. Sem saber coisas simples, como quem será atendido e quantos é possível atender, os recursos nunca serão suficientes”, argumenta.
Alguns gestores não têm visão de mundo, diz presidente do Coren-RS
A presidente do Coren-RS, Maria da Graça Piva, acredita inclusive que falta vivência para muitos gestores. “Às vezes, o gestor é chamado por ser uma pessoa preparada, inteligente, mas não tem visão de mundo. É alguém que passou todo seu tempo em consultório, preocupado com os próprios clientes”, afirma. “Um bom gestor tem que sair do gabinete e ir para o hospital. Não pode ficar isolado, planejando as coisas para si mesmo, sem ter contato com o funcionamento das instituições”.

Para ela, são gestores que estão muitas vezes “cheios de boa vontade”, mas incapazes de envolver todos os profissionais em torno de um processo de revitalização. “Uma coisa é o relatório, o planejamento real é outra bem diferente”, adverte. “Em saúde, a gente precisa ser prático em tudo, racionalizar. Pensar de forma gerencial”. Ela exemplifica lembrando o caso de uma emergência em Porto Alegre que fazia repetidos pedidos de mais pessoal, alegando não ter funcionários suficientes para dar conta das tarefas. “Fizemos um levantamento e chegamos à conclusão de que havia 29 funcionários sobrando, por assim dizer”, admira-se. “Pessoas que estavam fora de lugar, subaproveitadas. E queriam contratar mais gente!”

“O dinheiro já era insuficiente antes, e vai ficando cada vez mais”, diz Fernando Weber Matos. Para o presidente do Cremers, o aumento da idade média da população e a dificuldade em controlar os índices de natalidade apontam mudanças drásticas para um futuro próximo. Mudanças para as quais estaríamos falhando em nos preparar. “Não há medicina preventiva, apostamos muito na medicina comunitária, que é muito importante, mas só traz efeitos reais a longo prazo. As pessoas continuam indo aos hospitais para tratar doenças que poderiam ser tratadas de outro modo”. Weber acrescenta que a evolução da Medicina acaba ampliando as possibilidades de medicação e de exames, o que encarece o tratamento, tanto para os responsáveis pelo sistema quanto para os próprios pacientes.
Weber: municipalização é crime para pequenos municípios
Fernando Weber Matos acredita que a municipalização da saúde, para os pequenos municípios, acaba sendo um “crime”, já que eles não dispõem de condições para arcar com essa responsabilidade. “Do modo como tem sido conduzida, a municipalização só é viável para cidades com arrecadação maior”, argumenta. O presidente do Cremers acredita que falta um diálogo capaz de fazer com que esse processo seja mais realista e produza resultados mais próximos do esperado.

“Todos deveriam sentar — municípios, estados, gestores e entidades médicas — e analisar o problema, discutir questões como a tabela do SUS, que está há muitos anos sem reajuste. A partir daí, determinar quais hospitais podem atender mais pessoas e dividir o sistema de saúde em polos de atendimento crescente”. Desta forma, Weber acredita que é possível construir um sistema mais eficaz e capaz de atender melhor os que se socorrem nos hospitais e postos de saúde. “Nos pequenos municípios, trataríamos as doenças mais simples, deixando as enfermidades mais complexas a cargo de hospitais maiores, divididos por região”.

Para o presidente do Cremers, as falhas de gerenciamento acabam estourando em quem tem contato direto com os pacientes — ou seja, nos médicos e enfermeiros. “Reflete diretamente na qualidade do atendimento”, acentua Weber. “O usuário que busca um hospital acaba sendo prejudicado. Isso sem falar em várias comunidades do interior que acabam ficando sem sistema local de saúde, já que a situação é tão grave que os hospitais de pequeno porte acabam fechando”.

“Nós (enfermagem) estamos na ponta, lidamos diretamente com os pacientes e sofremos as consequências da falta de gerenciamento”, concorda Maria da Graça Piva, presidente do Coren-RS. “Se você observar a fila da emergência no Conceição, por exemplo, vai ver que 70% daquelas pessoas não precisa estar lá. Tem gente que podia ser tratada no bairro onde vive, pessoas que ficam na fila porque precisam de um raio X”, lamenta. “Muitas vezes, nós vemos emergências com problemas sendo fechadas. Não é assim que solucionamos esses problemas. Temos que investir em planejamento e em educação continuada”, defende.
Secretário de Saúde do RS quer garantir 12% do orçamento
Confrontado com essas questões, o secretário de Saúde do Rio Grande do Sul, Ciro Simoni, acredita que o foco no gerenciamento é importante, mas não deve desviar a atenção do financiamento da saúde. “Esses temas estão no mesmo patamar”, diz o secretário. Ciro Simoni afirma que o RS é o estado que menos investiu em saúde nos últimos oito anos e reverter esse quadro é uma das prioridades do governo de Tarso Genro. “Em um primeiro momento, vamos nos concentrar em gestão, até porque o atual orçamento foi aprovado no ano passado, nos moldes dos que vinham sendo feitos até aqui. Com o tempo, vamos trabalhar mais a questão do financiamento. O governador fala em ampliar os recursos para a saúde até os 12% do orçamento, de acordo com a Emenda 29”.

Para o secretário, todos esses esforços não podem deixar de considerar as necessidades da população. “Temos que melhorar o acesso das pessoas ao sistema de saúde, oferecendo o serviço mais qualificado possível. Isso passa por organizar as coordenações regionais, em um esforço junto aos municípios para criar redes de atendimento que assistam melhor a população. Temos que redistribuir os recursos financeiros e humanos, modernizar nosso modelo, mas sem esquecer que a saúde precisa de um maior volume de recursos”.

*Publicado originalmente em Sul21.