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Quando o ar faz falta

por Drauzio Varella publicado 13/12/2010 16h58, última modificação 13/12/2010 16h58
A exposição a poluentes e o hábito de fumar são fatores de risco para a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica

A exposição a poluentes e o hábito de fumar são fatores de risco para a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica

Falta de ar aos pequenos esforços é o sintoma mais característico das fases avançadas da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).

DPOC é uma condição insidiosa que evolui durante anos ou décadas até apertar o cerco. Na fase inicial, a dispneia é quase imperceptível, surge ao subir três ou quatro andares ou no futebol do fim de semana.

O quadro evolui com restrições progressivas. Para perder o fôlego bastam alguns degraus, uma pequena ladeira, passos mais apressados até a padaria. Como a instalação é gradativa, as pessoas se acomodam: evitam escadas, subidas íngremes e demais situações adversas. Negam que lhes falta o ar, dizem que se cansam como qualquer um da mesma idade.

Com a progressão, entra em cena um cortejo de sintomas: tosse, secreção pulmonar, chiado no peito, respiração pesada e sensação de que o ar não chega ao fundo dos pulmões. Gripes e resfriados duram mais tempo e podem evoluir com complicações bacterianas que agravam a insuficiência respiratória.

Mais tarde, esforços mínimos como tomar banho, subir dois ou três degraus, pegar um objeto no chão exigem repouso para recuperar o fôlego. As crises de exacerbação se tornam comuns, geralmente acompanhadas por pneumonias que requerem internação hospitalar.

DPOC é um problema grave de saúde pública. Um estudo realizado entre adultos com mais de 40 anos mostrou que cerca de 10% apresentavam sinais de obstrução das vias aéreas de moderada intensidade, pelo menos. Nos últimos 30 anos, o número de mortes causadas pela doença duplicou; as mulheres contribuíram decididamente para esse crescimento.

Embora o risco aumente com a idade, a hipótese de DPOC deve ser considerada em todas as mulheres e homens que se queixam de sintomas respiratórios crônicos capazes de restringir as atividades diárias. O cigarro é de longe o maior responsável pela enfermidade. O aumento da mortalidade entre as mulheres que começaram a fumar nos últimos 30 anos confirma essa relação entre causa e efeito.

A exposição a poluentes industriais também é fator de risco. O esforço respiratório para manter a oxigenação provoca alterações na forma do tórax (tórax em barril), retração das costelas inferiores à inspiração e prolonga a fase de expiração.

O diagnóstico é feito pela espirometria, exame no qual o paciente faz expirações forçadas num tubo ligado a um aparelho que mede uma série de parâmetros relacionados com o fluxo de ar e a capacidade dos pulmões. A principal medida para conter o declínio da função respiratória é largar o cigarro. A abstinência diminui a frequência das crises, melhora a qualidade de vida e reduz a mortalidade.

Nos casos de DPOC mais grave, os sintomas podem ser aliviados com o uso de broncodilatadores administrados por inalação. No mercado estão disponíveis broncodilatadores de ação rápida, ideais para alívio imediato, e outros de longa duração, cujo efeito pode persistir por 24 horas ou mais. A inalação de corticosteroides é outra modalidade de tratamento, capaz de melhorar as condições respiratórias e de reduzir a frequência das crises em 15% a 20%.

Para obter respostas mais consistentes, muitas vezes os médicos prescrevem combinações de broncodilatadores e corticosteroides inalatórios.

Dois estudos avaliaram o papel da administração de oxigênio nos casos mais avançados. O primeiro comparou 15 horas diárias de oxigênio com um grupo de controle que não fez uso dele. No segundo, foi feita a comparação de 18 horas diárias, com 12 horas de uso ao dia. Nos dois estudos a mortalidade caiu 20%.

Quando há indicação de oxigenioterapia, a recomendação atual é de administrá-lo por pelo menos 18 horas diárias, inclusive durante o sono.

Os pacientes devem receber vacina contra a gripe todos os anos, bem como vacina contra o pneumococo. Em todos os casos, é indicada a fisioterapia para a reabilitação pulmonar.