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Inofensivos ou não?

por Willian Vieira — publicado 01/11/2012 09h23, última modificação 01/11/2012 09h23
A Anvisa tenta controlar o consumo de suplementos no Brasil, mas o contrabando e o falso marketing prosperam
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Suplementos como o OxyElite Pro têm estimulantes proscritos no Brasil, mas é fácil consegui-los. Nas academias, eles são comuns. Foto: Receita Federal

Um vendedor com os músculos desenhados sob a camiseta surge na prateleira de uma loja de suplementos para atletas de São Paulo e tenta convencer o cliente a comprar um dos potes que cobrem as quatro paredes e prometem músculos, magreza e força por até 200 reais. Mas tal gasto valeria a pena? Seriam aqueles “termogênicos”, “energéticos” e “emagrecedores” similares aos do mercado americano, onde uma série de substâncias faz a alegria de frequentadores de academia – todas proibidas no Brasil? “Esses rótulos são fachada, para enganar a Anvisa”, diz o rapaz, os dentes brancos à mostra. “As substâncias são americanas, eles só dão uma camuflada no rótulo. Acha que nego ia vender cafeína com açúcar? Toma esse pra você ver.” Ele agarra um pote de “pré-treino” importado. E sorri com malícia. “Você vai ganhar massa em semanas. Garanto.” Os 40 centímetros de braço afiançam.

É o mesmo discurso de outras lojas, blogs, sites especializados e academias Brasil afora. Um misto de crença, ignorância científica e desejo de “crescer” e “secar” de forma rápida e fácil alimenta o boom na venda de suplementos e a escalada de sites criados para atender aos anseios do público brasileiro, tanto por produtos legalizados como proibidos. Nesse cenário, dois fenômenos coexistem. Um é o contrabando puro e simples, pelo correio, pela fronteira com o Paraguai ou via aeroportos, na mala de pequenos compradores atrás de renda extra. O outro é mais curioso: a tentativa de mimetizar produtos proibidos com rótulos e nomes semelhantes. São similares dentro da legislação, mas sem as propriedades dos americanos.

No Orkut e no Facebook, as comunidades focadas na venda desses sucedâneos miraculosos pipocam. Até indivíduos com perfil próprio e foto se arriscam a oferecê-los. Em uma, a publicidade vem com promoção. “Compre 2 Jack 3D” e “ganhe uma linda camiseta.” Há dezenas de sites com domínios estrangeiros e brasileiros que fazem a venda direta. No vitaminsurbano.com é possível comprar o OxyElite Pro e o Lipo 6 Black num “combo”. O frete é grátis para “todo o Brasil”. No nordestesuplementos.com.br há um concorrente do Jack 3D, a propaganda diz: “Após tomar o 1.M.R você vai querer comer os ferros da academia”. O importarsuplementos.com até ensina como trazer produtos dos EUA, com dicas de páginas que entregam no Brasil, pelo correio.

Todos os produtos citados têm a comercialização proibida no Brasil pela Anvisa, a maioria por conter 1,3- Dimetilamina (DMAA), estimulante que aumenta o metabolismo, mas pode trazer riscos à saúde. Formigamentos, picos de pressão, arritmia e insônia são reações comuns. Mas o aumento da capacidade física faz os usuários passarem por cima dos efeitos colaterais. No ano passado, Wilson Sampaio Júnior, de 18 anos, foi encontrado morto pelos pais no Recife. Havia dias ele usava doses altas de Jack 3D. Meses depois a Anvisa analisou amostras apreendidas de produtos importados, cujos rótulos omitiam a informação. A substância entrou para a lista das proscritas. Jack 3D e OxyElite Pro tiveram a comercialização proibida.

Os sites ignoram a legislação. Um deles traz até uma história que explica o anseio dos que buscam suplementos ilegais. “Formada por três praticantes e entusiastas do body building”, amigos desde a faculdade, “insatisfeitos por obterem pequenos ganhos para o grande esforço de seus treinos”, surgiu a página que vende e entrega pelo correio. Nos EUA, continua, os amigos conheceram fabricantes e distribuidores “com os quais, até hoje, formam sólidas parcerias”, o que garante “distribuição e entrega da mais alta qualidade ao Mercosul”. Assim eles se especializaram “nesse nicho do mercado, ocupando o espaço até então carente, e em pouco tempo tornaram-se prósperos executivos do ramo”. A conclusão é sugestiva: “O sucesso dessa empreitada é o hoje reconhecido suplementos24h.com, onde você encontra o que existe de mais avançado e poderoso no mundo em matéria de nutrição esportiva e suplementação alimentar, com garantia de procedência, as melhores condições de compra e entrega imediata”. O site só não explica que tudo é ilegal.

Em abril, três homens foram presos em São Paulo por vender suplementos proibidos pela internet. Em agosto, um rapaz foi preso no Rio de Janeiro apontado como líder de uma quadrilha especializada. Quatro mandados de busca e apreensão encontraram dezenas de potes. Dez dias depois, a polícia flagrou um homem no Rio Grande do Sul com 476 potes de Jack 3D e Lipo 6 Black em sua camionete, vindos do Paraguai. A desfaçatez ganha até o mar. Em junho, a Receita Federal apreendeu no Porto de Santos, em dois contêineres oriundos de Miami, 30 toneladas de produtos, parte deles suplementos proibidos. “É uma máfia”, afirma José Agenor Álvares, diretor de Controle e Monitoramento da Anvisa. Há quatro meses, ele testemunhou uma situação curiosa. Agências dos correios sofriam com o acúmulo de suplementos importados, retidos por quantia irregular. Mais de 60% pertenciam a um só destinatário. Conclusão: há uma máfia de importadores que alegava consumo próprio, mas revendia no mercado negro.

Os números do mercado explicam o interesse. De 2000 a 2010, a quantidade de academias cresceu mais de 20 vezes no Brasil. É nesses ambientes que a cultura dos suplementos se dissemina. Segundo a Abenutri, associação que representa o setor, o faturamento do mercado de nutrição esportiva (vitaminas e isotônicos excluídos) no Brasil foi de 308 milhões de reais em 2011, um crescimento de 18,4% em relação ao ano anterior. De 2009 para 2010, a alta foi de 27%, em plena crise mundial, quando o setor teve queda no mercado americano. Nos últimos seis anos, o faturamento do setor triplicou. São mais de 6 mil pontos de venda, entre lojas especializadas e farmácias. O potencial é gigantesco. De 47 milhões de praticantes de atividade física, apenas 5% consome suplementos, diz a Abenutri. Por isso pressiona a Anvisa para liberar novos produtos. As regras seriam demasiado duras.

Hoje, a linha mestra da legislação é a Resolução RDC nº 18 de 2010, segundo a qual não existem “suplementos”, mas alimentos para atletas. É proibido vender suplementos com indicação terapêutica ou medicamentosa. Nos EUA, é tal mescla que faz girar o mercado. “É nosso grande problema, a legislação deles é mais permissiva”, diz Denise Resende, gerente de alimentos da Anvisa. Assim fica impossível conter propagandas com alegações do tipo. “Você fecha uma e abrem mil.” O melhor exemplo desse marketing sinuoso, que se equilibra entre a resolução da Anvisa e os lucros em potencial, é a mágica denominação 3D. O Jack 3D virou o mais comprado “pré-treino” dos EUA com uma combinação de cafeína, creatina, beta-alanina e DMAA. No Brasil, é proibido. Mas existem cópias com nomes parecidos, como Power Jack 3D, o Arnold 3D, o Pack 3D. Neles, o princípio ativo é a cafeína. “Power Jack 3D é o único produto com efeito 3D (Disposição, Determinação e Definição) no Brasil”, diz a marca. A fórmula seria “96% igual” ao “famoso Jack 3D.”  A diferença é que esse é legal “e conseguiu a liberação da fórmula 3D perante a Anvisa.”

No caso do Arnold Nutrition, a confusão é maior. A empresa seria americana e exportaria os produtos para o Brasil. O site, em inglês, traz produtos que seriam vendidos lá (mas não figuram nos sites americanos), em cuja composição haveria substâncias proscritas no Brasil. Na versão que chega às prateleiras do Brasil, porém, os rótulos oferecem somente vitaminas, minerais e cafeína. O preço: 150 reais o pote. A marca tem ainda uma versão parecida, em termos de marketing, ao OxyElite Pro, um termogênico à base de DMAA. Na versão da Arnold, ele se chama Oxylin Pro. O rótulo é parecido, mas diz que o produto tem basicamente cafeína. Nos blogs de halterofilismo há a crença de que a empresa é do interior de São Paulo e usaria a boa-fé das pessoas com produtos com título de importados. Um inquérito chegou a ser aberto para investigar suposto crime contra a saúde pela empresa, mas foi arquivado. A Anvisa recebeu em 2011 uma denúncia sobre um produto da Arnold, o Lipo Cut X. O caso está em análise laboratorial. Os telefones da empresa fornecidos no rótulo não atendem. Mistério.

Para o suplemento chegar às prateleiras é rápido. Não é preciso registro na Anvisa. Basta se enquadrar em uma categoria existente, como “alimento para atleta”. O órgão só faz análise sob denúncia. “Não temos como fiscalizar tudo”, diz Álvares. A luta é desigual. Uma pesquisa feita em São Paulo mostra que 61% dos usuários de academia consomem suplementos – 40%, dois ou mais. “Eu já tomei tudo o que existe”, diz o professor de Educação Física Diego. Perfil típico do universo das academias, o rapaz de músculos ultradefinidos e 6% de gordura corporal malha duas horas por dia e consome vários suplementos. Os colegas compartilham dicas e resultados. É uma irmandade, cujo sucesso se mede pelo corpo. Nesse ethos, os suplementos têm papel central. E se tiver de ser ilegal, “paciência”. Não seria possível alcançar resultados sem a ajuda de suplementos? “Não sei, nunca tentei.”

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