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Saúde

Endometriose

Dor crônica

por Drauzio Varella publicado 19/07/2010 12h05, última modificação 19/07/2010 13h03
Uma das causas da infertilidade, a endometriose afeta até metade das mulheres que não conseguem engravidar

Uma das causas da infertilidade, a endometriose afeta
até metade das mulheres que não conseguem engravidar

A endometriose é caracterizada pela presença fora do útero de um tecido semelhante ao que reveste internamente a cavidade uterina. Esse tecido ectópico pode surgir no peritônio da região pélvica, nos ovários, no septo existente entre a vagina e o reto, e até no diafragma, pleura e pericárdio, em casos bem mais raros.
É uma das causas mais importantes de dor pélvica e de infertilidade. Afeta 6% a 10% das mulheres em idade reprodutiva, 50% a 60% das jovens que se queixam de dor pélvica e até 50% das que não conseguem engravidar.

A doença é causada pelo fluxo menstrual retrógrado, processo no qual o endométrio que deveria ser eliminado com a menstruação caminha no sentido inverso, penetrando a cavidade peritonial. A presença dessas células estranhas no interior da pélvis provoca inflamação, formação de novos vasos sanguíneos, fibrose e distorção anatômica.

Embora a maioria das mulheres apresente menstruações retrógradas, apenas algumas sofrerão de endometriose, sugerindo que sejam incapazes de eliminar o tecido anômalo por mecanismos imunológicos.

Correm mais risco as portadoras de obstruções que interferem com o fluxo menstrual, as que foram expostas ao dietilestibestrol ainda na vida intrauterina, as que ficaram expostas aos estrógenos por perío-dos mais prolongados (menarca precoce, menopausa tardia, obesidade etc.), as que apresentam ciclos menstruais curtos, as que nasceram com baixo peso e as que entraram em contato com agentes químicos que interferem com os hormônios sexuais.
Estudos realizados com irmãs gêmeas sugerem a existência de um componente genético.

O consumo de carne vermelha e de gordura trans aumenta o risco. Dietas ricas em frutas, vegetais verdes e ácidos graxos como o ômega-3 reduzem o risco. Lactação prolongada e gestações múltiplas também exercem efeito protetor. Mulheres com endometriose apresentam incidência discretamente aumentada de doenças autoimunes, de certos tipos de câncer de ovário, de linfomas e de melanoma maligno.

Casos acompanhados por laparoscopia mostram que no período de um ano 17% a 29% das lesões regridem espontaneamente, 9% a 59% permanecem estáveis e 24% a 64% progridem.
A dor costuma ser crônica (mais de seis meses de duração), localizada profundamente na pélvis e no baixo ventre, com ou sem irradiação para a região lombar. Surge de forma intermitente ou contínua em qualquer fase do ciclo menstrual, é exacerbada pela atividade física, pelas relações sexuais e piora com o passar do tempo. Queixas urinárias, náuseas e distensão abdominal são tipicamente cíclicas.

O diagnóstico pode ser feito através da ultrassonografia transvaginal ou da ressonância magnética da pélvis (de uso limitado pelo custo), mas para confirmá-lo de forma definitiva é necessária a cirurgia.
A técnica mais empregada é a laparoscopia, que permite não só visualizar como retirar ou destruir as lesões com laser ou outros métodos.

O tratamento clínico pode ser iniciado empiricamente mesmo na ausência de confirmação cirúrgica.

A estratégia mais empregada é a de associar anti-inflamatórios à pílula anticoncepcional. O índice de falha terapêutica varia de 20% a 25%.

Outra opção é introduzir dispositivos intrauterinos contendo o hormônio levonorgestrel, com a finalidade de induzir atrofia do endométrio e interromper as menstruações.

A administração de drogas que agem sobre a hipófise inibindo a liberação de gonadotrofinas (que estimulam a produção de hormônios sexuais nos ovários), constitui outra forma de tratamento. Embora eficaz, essa estratégia tem o inconveniente de induzir um estado hipoestrogênico, que pode levar à osteopenia e à osteoporose.
Essas formas de tratamento são igualmente eficazes, mas o custo varia muito. Nos casos mais graves a retirada laparoscópica das lesões pode ser seguida de tratamento clínico, por períodos que chegam a 12 ou 24 meses.