Você está aqui: Página Inicial / Saúde / "Cura funcional" do HIV abre novas perspectivas de tratamento

Saúde

Aids

"Cura funcional" do HIV abre novas perspectivas de tratamento

por Gabriel Bonis publicado 08/03/2013 16h52, última modificação 08/03/2013 16h58
Técnica usada em bebê pode ajudar crianças contaminadas pelo vírus a viver sem precisar de medicamentos

Três pesquisadoras dos Estados Unidos ganharam notoriedade internacional durante a semana ao revelarem na 20ª Conferência Anual Sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas, em Atlanta, o primeiro caso de “cura funcional” de um bebê portador do HIV. O feito abre novas perspectivas na busca pela cura da doença.

O bebê, nascido no Mississipi, passou a ter uma carga viral indetectável depois de ser submetido a um agressivo tratamento com três antirretrovirais apenas 30 horas após o seu nascimento. Uma escolha adotada por precaução, porque sua mãe não havia sido testada durante a gravidez e não sabia que estava infectada.

A criança manteve o quadro médico e o tratamento até os 18 meses, quando parou de ir às consultas e de tomar as drogas. Ao retornar ao hospital, cinco meses depois, ela ainda tinha uma carga viral indetectável. Surpresa, a pediatra Hannah Gay, especialista em crianças com HIV, contatou a virologista Deborah Persaud, da Universidade Johns Hopkins, e a infectologista Katherine Luzuriaga, da Universidade de Massachusetts, que identificaram em exames de alta sensibilidade traços do vírus, mas em quantidade incapaz de se replicar. A criança completou, então, dez meses sem medicamento sem que houvesse mudança em seu cenário.

Atualmente com dois anos e meio, ela está em “cura funcional”. Um conceito recente, que abrange indivíduos comprovadamente portadores do vírus que durante e após abandonarem o tratamento atingiram uma carga viral indetectável. Ainda será necessário acompanhar a criança por mais tempo para averiguar se o quadro se manterá, além de tentar replicar os resultados.

Após o anúncio, diversos especialistas apontaram que o estudo pode ter um reflexo incalculável para tratar crianças em risco de infecção no parto. Os cerca de 1 mil bebês que nascem infectados todos os dias no mundo, principalmente na África Subsaariana, segundo dados da ONU, podem ser os maiores beneficiados. “Podemos aprender muito com essa abordagem, pois ao invés de passar a vida inteira em remédios a criança poderá se tratar no começo da vida com potencial de interromper ao atingir a cura funcional”, diz Deborah Persaud, em resposta a CartaCapital. 

Algo que poderia ser atingido com remédios disponíveis, pois as drogas usadas no estudo são padrão nos EUA. A novidade, dizem especialistas, ocorreu com a utilização dos três medicamentos ao mesmo tempo e de forma tão precoce. “Como sabia do alto risco da mãe ter o HIV, usei mais de uma droga, mas não esperava que a criança fosse ser curada”, afirma a CartaCapital Hanna Gay, responsável pelo início do tratamento. Medicamentos semelhantes tomados na gravidez por portadoras do HIV permitem que até 98% dos bebês nasçam sem a doença.

                

As pesquisadoras acreditam também que o início imediato do tratamento contribuiu fortemente para o resultado, evitando a formação de reservatórios do vírus em células do sangue que reiniciam a infecção nos pacientes que deixam os remédios. Sem esses “bolsões”, seria possível “limpar” o vírus do sangue e gerar uma remissão. “Como a memória imunológica das crianças é pequena, ao impedir a replicação precoce teríamos evitado que essas reservas se estabelecessem. Mas não sabemos totalmente porque o bebê está limpo, vamos investigar”, explica Persaud.

Caso seja replicado com sucesso, o estudo ainda pode ajudar a minimizar outro problema grave no tratamento de longa duração do HIV: a resistência do vírus aos remédios. É o que acredita Alan Bernstein, ex-diretor-executivo da Global HIV Vaccine Enterprise e atual presidente do Instituto Canadense para Pesquisa Avançada. “Alguém infectado precisa de antirretroviral pelo resto da vida, correndo risco de o vírus ficar resistente. Se a pessoa é curada [funcionalmente], deixa os remédios.”

Uma posição que, no entanto, não é unânime. David Uip, diretor do Instituto Emílio Ribas, o maior centro de tratamento de portadores do HIV no Brasil, alerta para o risco do uso muito precoce da combinação das três drogas para a “cura funcional”. Como nenhum organismo reage de forma igual, diz, se a criança sair da remissão no futuro e precisar do remédio ele pode não funcionar mais. “Como trataremos depois?”, questiona.

O estudo, acredita o infectologista brasileiro, é um fato importante, mas deve servir apenas para abrir um novo leque de direcionamentos de pesquisas. Assim como ocorreu com o “paciente de Berlim”, o americano Timothy Brown, único caso de cura total do HIV reconhecida. Ele foi declarado livre do vírus após receber um transplante de medula óssea de um doador resistente ao vírus, para se se curar de uma leucemia. “Depois disso, as pesquisas consideraram fatores de mutação genética em pessoas resistentes e buscaram criar drogas que impossibilitem a multiplicação do HIV.”

Fora deste contexto, os analistas são cautelosos quanto aos reflexos da descoberta em adultos e pacientes com HIV há muitos anos. A pediatria leva vantagem, dizem, porque é possível saber quando a infecção começou e iniciar a terapia imediatamente. Mas seria esse o único fator crucial para o resultado? Bernstein defende alguns outros indícios, apesar de ainda pouco se saber sobre o caso. “Pode haver algo muito diferente no sistema imunológico de um recém-nascido, ou do ciclo de vida do vírus no organismo de um bebê que podem fazer a diferença.”

As dúvidas sobre o caso, no entanto, vão além. Há relatos de outros estudos que indicam a existência de mais “curados funcionais”, embora este seja o mais documentado. Além disso, os próprios envolvidos no estudo destacam a necessidade de mais averiguações para afastar, entre outras coisas, a possibilidade de a criança ser um “controlador de elite”. Ou seja, impedir naturalmente a multiplicação do vírus sem o uso de remédios. Um fenômeno extremamente raro, encontrado em menos 0,5% dos infectados.

É para atingir um estado semelhante a este, contudo, que diversos pesquisadores trabalham. Como a “eliminação total” do vírus ainda parece distante, uma solução mais palpável seria levar os portadores do HIV a terem a mesma resposta do bebê estudado.

Neste caso, embora mantivessem o vírus em seu organismo, não desenvolveriam AIDS e, com uma carga indetectável, as chances de o portador do HIV transmitir a doença ficam próximas de 2%. “A expectativa é que remédios cada vez mais potentes e um início do tratamento mais precoce possam levar à cura funcional [em adultos], revertendo o estabelecimento da infecção. É mais factível que uma cura completa”, sustenta Artur Kalichman, coordenador-adjunto do programa estadual de DST/Aids da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. Um conceito que para Bernstein tem denotação semântica. “Uma cura funcional significa que a pessoa não terá AIDS, que os níveis de vírus serão baixos e o sistema imunológico estará intacto. Isso é uma cura. É o que importa.”