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Saúde

Luto na Medicina II

Ex-alunos elogiam o mestre Brentani

por Gianni Carta publicado 30/11/2011 22h41, última modificação 01/12/2011 11h38
“Não posso exprimir a dimensão do vazio nas nossas almas. Brentani me deu minha carreira, e estava sempre presente”, diz ex-aluna
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“Não posso exprimir a dimensão do vazio nas nossas almas. Brentani me deu minha carreira, e estava sempre presente”, diz ex-aluna. Foto: F. Carter Smith/Polar Images

“A última frase que eu lhe disse foi: ‘Nós não tivemos muito tempo para conversar’.” Palavras da doutora Renata Pasqualini, do centro de câncer M.D. Anderson, da Universidade do Texas, em Houston. Ricardo Renzo Brentani, presidente do Hospital do Câncer A.C. Camargo, retrucou: “Não se preocupe, dentro de uma hora vamos jantar juntos”.

Isso na terça-feira 29.

Brentani, de 75 anos, foi para casa, tomou uma ducha. Minutos antes de sair para o jantar com Pasqualini e seu marido, o doutor Wadih Arap, também ele pesquisador do M.D. Anderson, e outros cientistas, Brentani teve um enfarte e morreu.

“Recebi um telefonema sobre sua morte, nunca vou esquecer meu choque, minha tristeza”, diz Pasqualini, de 45 anos. “Até agora não acredito que ele morreu.”

Escassas duas semanas antes, Pasqualini e Arap, de 52 anos, descobriram uma fórmula para combater a obesidade nos EUA. O método, que usa a droga adipodite, poderá combater outras doenças como o câncer e diabetes tipo 2.

Brentani, orientador da tese de doutorado de Pasqualini na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), entusiasmou-se. Precursor da pesquisa de câncer no Brasil e mundo afora, disse a CartaCapital escassos dias atrás que Pasqualini e Arap são parceiros do Hospital do Câncer A.C. Camargo por intermédio do M.D. Anderson.

Em seguida, realçou, com uma visível ponta de orgulho, que Pasqualini e Arap têm sistematicamente provado em seus experimentos e artigos acadêmicos que artérias e veias a carregar sangue no sistema vascular têm diferentes assinaturas moleculares baseadas na sua localização no corpo. Brentani falou em códigos postais (CEPs).

E simplificou: é por reconhecer o CEP do tecido adiposo branco (de gordura) que Pasqualini e Arap podem direcionar a droga adipotide para o tecido adiposo. Desta forma ocorre a destruição dos vasos  sanguíneos a irrigar o tecido adiposo. Resultado: macacos-rhesus espontaneamente obesos perderam em média 11% do peso em 28 dias. Durante esse período receberam injeções diárias de adipotide. Além da significativa perda de peso, houve reduções no índice de massa corporal e na circunferência da cintura. E a quantidade de insulina que os macacos obesos precisaram no final do tratamento foi em média 53% inferior à necessária no início do tratamento.

Brentani, além de ter sido mentor de Paqualini na sua tese de doutorado na USP, é o elo da história de amor entre sua ex-aluna e Arap. Após ter recebido seu título de pós-graduação, Pasqualini fez outro curso de pós-graduação na Universidade Harvard, em Boston.

Em 1993, Arap ligou para Brentani, da Califórnia. Após dois anos de fellowship no Memorial, em Nova York, Arap  à época cursava uma pós-graduação em biologia de câncer em Stanford. Arap, também ele ex-aluno de Brentani na FMUSP, disse que precisava de elementos químicos específicos não disponíveis onde se encontrava. Brentani deu o número de telefone de Pasqualini: ela tinha acesso aos elementos procurados. Deles, como reportou com acuidade Eric Berger, do diário Houston Chronicle, nasceu a química entre os dois cientistas brasileiros.

Após receber a preciosa mercadoria, Arap convidou Pasqualini para proferir uma palestra na Califórnia. A passagem incluía uma noite livre, sábado.

A palestra aconteceu na quinta. Na sexta, Arap a pediu em casamento. Escreveu Berger: “Deve ter sido uma palestra e tanto”. Dois meses depois, o casal estava em Nevada, onde casamentos podem ser realizados sem nenhuma burocracia, e a qualquer momento. O deles celebrou-se às 11 da noite. No Brasil, Brentani foi padrinho de casamento no religioso.

Brentani, é claro, tinha orgulho de seus ex-alunos. Descrito como “uma revolução na área de oncologia” por outro ex-aluno, o doutor Riad Younes, professor da FMUSP, Brentani tinha um invejável currículo como gestor, professor, pesquisador, médico e formador de instituições. Além de ser o diretor da Fundação Antonio Prudente, e, por tabela, do Hospital A.C. Camargo, Brentani era diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e coordenador do no Centro Antonio Prudente para Pesquisa e Tratamento do Câncer.

Como diz Younes, Brentani é mundialmente considerado um dos principais pesquisadores do câncer. "Ele foi uma  revolução na oncologia", concorda Younes. Atuava principalmente com estudos relacionados ao papel do nucléolo no processamento do mRNA, à caracterização de mRNAs de colágenos e à adesão celular e metástase.

Por essas e outras, não surpreende o fato de que Brentani estivesse entusiasmado com a primeira reunião para planejar novos projetos entre sua equipe e Pasqualini e Arap, no dia 29.

“Não posso exprimir a dimensão do vazio que sentimos nas nossas almas. Brentani me deu minha carreira, minha vida com o Wadih, e estava sempre presente”, declara Pasqualini.

“Nunca vou esquecer nosso dia, que passamos inteiro lado a lado, após nossa aula no A.C. Camargo nessa terça (29)”, acrescentou. “Foi simplesmente algo de grandioso.”

“Para mim”, continuou a pesquisadora, “fazer minha tese de doutorado com Brentani foi uma trajetória magnética ao longo da qual tivemos de defender desafios intelectuais”. Ainda segundo Pasqualini, “Brentani me ensinou a defender com força de caráter e sustentada convicção o escrutínio cáustico que define a ciência de alto nível no planeta”.

Por sua vez, Wadih Arap declarou: “Brentani era um verdadeiro visionário com uma inteligência privilegiada”. Ainda Arap: ‘’Ele nunca perdeu o senso do prazer no processo da descoberta científica”.

Arap finaliza: “Renata e eu vamos sentir muito sua falta em vários níveis. Ele era nosso mentor, amigo íntimo, tinha um incrível senso de humor. Será muito difícil substituí-lo”.

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