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Entrevista

Brasil, recordista de gordura

por Rodrigo Martins publicado 28/07/2010 11h05, última modificação 23/05/2011 19h00
“A hipótese não é alarmista, é real”, alerta o ministro Jorge Gomes Temporão em entrevista

A hipótese não é alarmista, é real”, alerta o ministro Jorge Gomes Temporão em entrevista à CartaCapital

O Brasil tem uma taxa de obesidade muito inferior a dos Estados Unidos e da maioria dos países europeus. Especialistas apostam, no entanto, que o País pode figurar entre os recordistas mundiais na próxima década. Seria uma avaliação exagerada? “A hipótese não é alarmista, é real”, afirma o ministro da Saúde, José Gomes Temporão. Em entrevista a CartaCapital, ele defende a regulamentação da publicidade de alimentos dirigida às crianças e a construção de acordos com a indústria para melhorar a qualidade dos produtos oferecidos à população.

CartaCapital: Especialistas afirmam que o Brasil, mantida a tendência atual, pode chegar, na próxima década, aos índices de obesidade verificados nos EUA. O senhor concorda com essa avaliação ou a considera alarmista?

José Gomes Temporão: A hipótese não é alarmista, é real. Superamos as metas de combate à desnutrição e subnutrição, mas a população está engordando em ritmo acelerado. Até porque aumentou o acesso e o consumo de alimentos. Além disso, o processo de urbanização induziu uma mudança de hábitos. As pessoas passaram a ficar mais tempo confinadas em casa, sem atividade física. Com a mulher cada vez mais presente no mercado de trabalho, existe a tendência de as pessoas comerem mais produtos industrializados e congelados. Enquanto isso, verifica-se uma queda acentuada no consumo de alimentos mais saudáveis, como o feijão nosso de cada dia. A última pesquisa de hábitos alimentares revela poucos avanços e muitos retrocessos. Caiu o consumo de carne gorda, mas aumentou bastante o de refrigerantes. O estudo indica ainda que apenas 30% da população ingere a quantidade ideal de frutas, verduras e legumes. E os impactos já são sentidos no Sistema Único de Saúde, com o aumento dos custos para tratamento de doenças crônicas associadas à obesidade, como hipertensão e diabetes.

CC: O que pode ser feito para reverter esse processo?

JGT: É preciso, por exemplo, intensificar o trabalho de educação alimentar, sobretudo nas escolas. Investimos para melhorar a qualidade das merendas, mas é preciso avançar mais. Muitas cidades aprovaram leis locais obrigando as cantinas de todas as escolas a oferecer uma alimentação mais saudável, o que é ótimo. A ideia é trabalhar desde cedo com as crianças, porque é muito mais difícil mudar hábitos da população adulta. Outra frente de batalha é discutir com as indústrias a melhora da qualidade dos produtos. Fechamos acordos que estabelecem prazos para a redução da quantidade de gordura, sal e açúcar nos alimentos industrializados. Mas mudar a lógica de estímulo ao consumo é tarefa delicada, porque contraria interesses da indústria.

CC: O senhor é favorável às propostas de impor restrições para a publicidade de alimentos dirigida a crianças e adolescentes?

JGT: Sim, sou favorável, principalmente nos programas infantis, porque há um estímulo ao consumo de produtos com alto teor calórico, e a obesidade infanto-juvenil tem crescido bastante. Essa discussão está concentrada na Anvisa, mas entendo ser necessário e urgente algum tipo de regulação, até para coibir determinadas práticas, como associar brindes e brinquedos ao consumo de alimentos. Só que o tema é delicado. Os alimentos estão numa situação bem diferente do cigarro, que também passou por esse processo de regulamentação. O tabaco traz danos à saúde em qualquer nível de consumo. No caso dos alimentos, só trarão danos se consumidos em excesso.

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