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AIDS: “não levo a doença como um peso além do que é”

por Paula Thomaz — publicado 01/12/2010 18h17, última modificação 02/12/2010 11h01
No dia Mundial de Combate à AIDS, Micaela Cyrino luta pela desconstrução do preconceito realizando trabalho com crianças. Ela tem o HIV desde que nasceu
AIDS: “não levo a doença como um peso além do que é”

No Dia Mundial de Combate à AIDS, Micaela Cyrino luta pela desconstrução do preconceito realizando trabalho com crianças. Ela tem o HIV desde que nasceu. Foto: Villem Mascarime

No dia Mundial de Combate à AIDS, Micaela Cyrino luta pela desconstrução do preconceito realizando trabalho com crianças. Ela tem o HIV desde que nasceu

Entre tecidos pintados, Micaela Cyrino, 22, fala de sua vida e de como gosta de desenhar mulheres. “Tudo o que é natural no mundo para mim é feminino”. Com a paixão pela pintura incorporada à agenda cheia, ela se divide entre as aulas na faculdade de Artes Plásticas, o trabalho como professora na Casa de Assistência Filadélfia, na zona Leste de São Paulo, o namoro, sessões de cinema, exposições e o horário da medicação. “São cinco comprimidos, mas já foram 14. Estou numa fase de evolução”, diz. Micaela é soropositivo e contraiu o vírus da AIDS no parto. Seus pais tinham HIV e morreram quando ela tinha 6 anos.

Micaela cresceu sabendo que era soropositivo, convivia com outras crianças que também eram e desde sempre realizava algum tipo de trabalho ligado à prevenção ou esclarecimentos sobre o assunto. Por isso, quando lembra de uma situação que classifica como de preconceito indireto, tirou vantagem. “Eu estava na sétima série e a professora estava ensinando que o HIV poderia ser transmitido através da picada de mosquito. Aí falei ‘não professora, está errado’. Na hora fui para a diretoria. Deu o maior rolo, mas acabei conseguindo um espaço para apresentar aos colegas da sala um teatro de fantoches que contava a história de uma menina com HIV. A professora nunca me pediu desculpas”. No mais, “se sofri preconceito eu não me lembro porque não fez sentido para mim.”

Acostumada a responder perguntas dos colegas da escola sobre sua rotina, a estudante, que cresceu na casa de apoio a crianças com HIV, se considera exceção entre os jovens em relação ao exercício da cidadania, ainda que tenha tido uma infância diferente. “Por mais que, aparentemente, estivesse bem de saúde, precisava ir ao hospital, tomar os remédios na escola. Nessa fase é difícil de aceitar e de entender”, afirma.

Hoje, Micaela é professora de Artes da casa que um dia a abrigou e se vê de outro lado. “É um papel meu dar aula além das artes". Além das explicações sobre desenhos, lembra algumas crianças da turma que têm HIV que precisam tomar remédio. É nesse momento em que aproveita para falar da importância da medicação. “Tento desconstruir o preconceito explicando e também causando dúvidas nas crianças. Você joga uma coisa um dia e espera ela perguntar no outro.”

Para Micaela, a criança com HIV é sempre muito zelada, muito cuidada, tudo é feito para ela e não com ela e que isso acaba por fazer com que ela não tenha os próprios sonhos e desejos. “Quero mostrar que dá para ser de outro jeito. Acho que comigo foi diferente porque eu gosto de mim e para mim ter HIV é tranquilo. Talvez os outros levem a doença com um peso além do que é. Para mim não.”

A militância de Micaela nessa área acabou por ser natural. Hoje ela é representante nacional da Rede Nacional Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/AIDS, que conecta adolescentes infectados de todos os cantos do Brasil para debaterem questões relacionadas ao tema e colocar ações em prática. Viaja para vários lugares do Brasil e do mundo dando palestra, falando sobre AIDS, contando sua história. Na Jamaica, em 2008, conta a experiência que considera a mais marcante. “Eu fui conhecer um projeto lá. Foi emocionante ver que as pessoas não acreditavam que eu falava para todo mundo que eu tinha HIV. Porque lá, quem admite, sofre um preconceito muito grande e até são mortos. Eu falei de mim para pessoas com HIV, foi algo muito forte. Mas aí tem uma questão de pobreza e preconceito maior em relação ao homossexualismo mesmo. Minha vida de exemplo com outras vidas é um probleminha. Porque tem coisas que muita gente sofre que eu nunca sofri.”

Outra vivência entre as mais importantes em sua vida aconteceu há um ano, numa viagem ao Peru. Micaela conheceu o argentino, também ativista, Jeremias Blas La Vega, 19. Com um ano de namoro, os dois têm planos de morar juntos em 2011. La Vega deixa bem claro: “não estamos juntos porque temos HIV, nosso relacionamento é igual a qualquer outro. Apenas nos encontramos no ativismo, foi natural. Precisamos falar isso para lutar contra preconceitos, porque existem muitas dúvidas, e é uma forma de mostrar que somos pessoas normais.”

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