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A ciência em luto

por Riad Younes publicado 20/01/2013 08h26, última modificação 20/01/2013 08h26
Pioneiro nos transplantes de órgãos, o cirurgião Joseph Murray deixou um legado inestimável para a medicina moderna

Os programas de transplante de órgãos espalharam-se pelo mundo de forma impressionante. Atualmente, raros são os países que não têm pelo menos um centro que realize algum tipo de transplante. Esta é uma excelente notícia. Afinal, nem todas as doenças que acometem o homem se resolvem com medicamentos, terapias, operações ou aplicações de agentes físicos como a radiação. Existem situações em que um órgão, de tão enfermo, perde totalmente sua reserva e a capacidade de desempenhar suas funções vitais. Quando se esgotam as possibilidades de recuperação dessa função, os médicos recorrem à opção de trocar o órgão doente por outro sadio.

Apesar de problemas sérios associados a esses procedimentos sofisticados, como a disponibilidade de órgãos em doadores vivos ou em cadáveres, a dificuldade técnica para a realização da cirurgia, assim como o problema comum de rejeição do órgão transplantado, atualmente esses procedimentos se tornaram quase rotineiros. Mas nem sempre o caminho da troca de órgãos foi tão tranquilo. Gênios e pioneiros ousaram muito até estabelecer os alicerces dos transplantes. Dentre eles, de longe o mais destacado é o doutor Joseph Murray. Cirurgião plástico e professor da Universidade Harvard, em Boston (EUA), ele realizou o primeiro transplante de rins em 1954. Foi uma revolução.

Certamente, um ato que mudou a face da medicina. Por esse feito, e outros a seguir, recebeu o Prêmio Nobel de Medicina em 1990. Diga-se de passagem, esse prêmio raramente é oferecido a um cirurgião. O transplante de rins tornou-se um projeto de saúde pública, levado muito a sério no Brasil. Aliás, recentemente, o doutor José Osmar Medina, chefe do programa de transplante de rim da Escola Paulista de Medicina, considerado atualmente o maior programa do mundo, recebeu da Universidade Harvard a mais elevada condecoração concedida a expoentes da medicina: justamente o Prêmio Joseph Murray.

Infelizmente, recentemente o mundo da medicina recebeu a notícia de falecimento do professor Murray. Tristeza entre médicos, cirurgiões, pacientes e autoridades. Para entendermos o impacto desse excepcional cirurgião, conversamos com o doutor Ben-Hur Ferraz Neto, professor livre-docente da USP, diretor do Instituto do Fígado do Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, e líder da equipe que mais realizou transplantes de fígado no Brasil nos últimos dez anos. Mais de mil. Presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos em 2010, ele sente no dia a dia a influência do pioneirismo do ­doutor Murray.

CartaCapital: Como o doutor Joseph ­Murray deu seus primeiros passos no mundo do transplante?
Ben-Hur Ferraz Neto: O doutor ­Murray foi um verdadeiro pioneiro. Aos 35 anos realizaria o primeiro transplante renal em seres humanos no mundo, implantando um dos rins de um homem, Ronald, em seu irmão gêmeo idêntico, Richard, com sucesso, em Boston. Além disso, ele realizou o primeiro transplante renal em paciente não idêntico ao doador, cinco anos mais tarde.

CC: Pioneirismo reconhecido, mais tarde, com o Nobel da Medicina.
BHFN: Sem dúvida, seu feito, de reconhecimento internacional, ultrapassou qualquer das suas expectativas. Foi o precursor de um número incontável de vidas salvas mundo afora. Esse transplante pioneiro teve, sem dúvida, uma definitiva influência no desenvolvimento de outros transplantes de órgãos realizados mais recentemente.

CC: Como está o transplante de rim no Brasil atualmente?
BHFN: Muito bem. No Brasil, realizam-se mais de 5 mil transplantes renais a cada ano, com taxas de sobrevida e de sucesso superiores a 95%. Hoje, o País possui o maior programa público de transplantes do mundo e beneficia, além dos transplantes de rins já mencionados, outros 1,6 mil de fígado, 200 de coração, 100 de pâncreas e 50 de pulmão, anualmente.

CC: A ciência perdeu um gênio...
BHFN: Temos a certeza de que homenagear o professor Murray seria pouco, mas externar o agradecimento de todos os “Ronalds” e “Richards” nos mais diversos idiomas seria o mínimo que poderíamos fazer. Obrigado, professor Murray.

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