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Saúde

Redução de peso

A apoteose do bisturi

por Riad Younes publicado 03/03/2013 10h12, última modificação 03/03/2013 10h12
No Brasil, multiplicam-se os “centros de excelência” em cirurgia para a obesidade. Mas pouco se fala dos riscos envolvidos

Operações para reverter a obesidade têm ficado cada vez mais frequentes, aceitas pela classe médica e pela sociedade. Pacientes obesos, com dificuldades intransponíveis de reduzir seu peso, e mantê-lo reduzido, sofrem de vários problemas. O estigma da gordura, esteticamente inaceitável na atual era da beleza e do corpo sarado, associado às mais complexas alterações nas funções normais do corpo. Muitos desenvolvem doenças crônicas, como artrose nas articulações dos joelhos, dos quadris e da coluna.

Hipertensão, diabetes e apneia do sono fazem parte das síndromes metabólicas que acompanham a obesidade. Todas potencialmente graves e fatais. Recentemente, a mídia tem sido bombardeada e, por sua vez, transmite automaticamente ao público informações sobre técnicas e cirurgias milagrosas na solução da obesidade. A julgar pelos artigos publicados nas revistas leigas, ou pelas reportagens divulgadas em tevês e rádios no Brasil, todos os dias um cirurgião descobre um modo impecável de operar os obesos e resolver os casos com eficiência e sem efeitos colaterais. A excelência em cirurgia da obesidade  tornou-se um slogan alardeado por cirurgiões, justa ou injustamente, e por hospitais que viram um filão de mercado de saúde altamente rentável, e criaram, por sua vez, os centros de excelência em cirurgia da obesidade. Sob os mais diferentes nomes e siglas.

No Brasil, pipocam esses centros em todas as grandes cidades e em todos os hospitais. A mensagem é simples e clara. Tratando em nossos centros de excelência garante resultados infalíveis, e evita complicações comuns aos outros pobres hospitais públicos, ou privados, sem o selo de excelência. Isso também ocorreu nos Estados Unidos. Em 2006, os serviços de saúde norte-americanos perceberam o potencial de complicações inerentes aos procedimentos de cirurgia bariátrica, o nome dado à especialidade de operar obesos, e emitiram recomendações para limitar essas cirurgias aos Centros de Excelência por lá criados também por grandes hospitais. Diferentemente de nosso país, nos EUA, quem confere o selo da excelência geralmente são órgãos governamentais ou sociedades de especialidades, como o Colégio Americano de Cirurgiões.

No Brasil, no entanto, a maioria dos hospitais se diz excelente, sem ser certificada ou seus resultados médicos controlados. A ideia de limitar tais cirurgias em pacientes complicados era nobre. Melhorar a eficiência e diminuir as complicações. Parece óbvio. Há poucos dias, essa política foi colocada em xeque. Um estudo realizado por cientistas americanos liderados pelo doutor Justin Dimick, professor da Universidade de Michigan em Ann Arbor, avaliou os resultados do tratamento cirúrgico de mais de 320 mil obesos, comparando operações realizadas em centros de excelência ou em hospitais gerais. Não conseguiram demonstrar nenhuma diferença significativa entre os doentes tratados nos dois tipos de instituições.

A taxa de complicações gerais foi semelhante, ao redor de 8%, e a de complicações graves, de 3,3% e 3,6%, respectivamente. Também as taxas de mortalidade pós-operatória foi igual nos dois tipos de centros. O estudo foi publicado na prestigiosa revista de medicina Journal of the American Medical Association (Jama) e levou as autoridades dos EUA a reverem a recomendação de 2006. Pretendem reavaliar a possibilidade de cobertura em hospitais gerais já em 2013. Por aqui, no entanto, cada cirurgião ou cada instituição pode, quando quiser, denominar-se especialista e excelente, sem ter de provar nenhuma de suas afirmações. Divulgam sucessos que não têm correspondência em estudos científicos e epidemiológicos bem fundamentados, certamente não incluindo milhares de pacientes.

Pode ser verdade, mas falta alguém para comprovar a excelência divulgada nos folhetos e nos sites de praticamente todos os hospitais do Brasil. Merecendo ou não esse título honroso. Torcemos para que nossas autoridades de saúde encomendem estudos extensos como esse, para ministrar políticas de cuidados mais adequados aos obesos, entre outras enfermidades, e conferir a quem realmente merecer o título de excelência. Melhor esperarmos sentados.