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Número 932,

Cultura

Teatro

Um orvalho de estrelas

por Alvaro Machado — publicado 02/01/2017 06h13, última modificação 02/01/2017 11h50
A experiência de uma companhia teatral paulistana em tour pelo Sertão nordestino
Alvaro Machado
Atores

Os atores e atrizes durante espetáculo "O Duelo", inspirado na novela homônima de Anton Tchecov

sertanejo é, “‘antes de tudo, um forte’, e não um coitado choroso, como pintado nas reportagens de tevê do Sudeste sobre a seca no Semiárido”, diz Aury Porto, em citação a Euclides da Cunha. O autor, ator e produtor teatral fala com a propriedade de um filho de Lavras da Mangabeira, município do Sertão do Cariri com cinco anos de resistência à estiagem contínua.

Com a chuva pouca dos invernos, os leitos estéreis dos rios tornam os campos do sul do Ceará próximos às planícies púrpura de Marte. Secou a maioria das barragens e açudes construídos nos últimos 20 anos para mitigar a ira do clima, impondo aos 24 integrantes da trupe da paulistana Mundana Companhia, em turnê pela região, inesperada busca por banho em casas de vizinhos solidários.

Pitanga e Mariano
Mariano Mattos e Camila Pitanga em cena na peça de Tchecov (Alvaro Machado)
“Na intensidade de tudo aqui, esta é como uma viagem com muitas viagens dentro”, observa Camila Pitanga, que se integrou ao grupo depois de assistir a uma cultuada adaptação de O Idiota, de Dostoievski, em 2011.

À parte tais bastidores e as dificuldades da produção para arregimentar mão de obra disposta a erguer, sob sol meridiano ou estrelas da madrugada, uma formidável estrutura de palco e plateia a céu aberto, Pitanga, Carol Badra, Pascoal da Conceição, Mariano Mattos e outros sete atores e músicos comparecem a cada noite impecáveis, em figurinos de estilistas como Lino Villaventura e Alexandre Herchcovitch.

O refinamento votado a 15 apresentações da peça O Duelo, baseada na novela homônima de Anton Tchecov, em Lavras, Iracema (Vale do Jaguaribe) e Arneiroz (Sertão de Inhamuns), possibilitadas pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, inclui supervisão da diretora de arte do grupo, a artista Laura Vinci.

resposta do público, que ocupa endomingado 120 assentos e outros 80 lugares em beiradas de chão e muros, é de atenção concentrada ante a recriação, com tintas nordestinas, da trama de conflito de interesses entre liberais e radicais no interior da classe média dirigente.

Dirigido por Georgette Fadel, a montagem foi concebida em 2013 nessas mesmas cidades e a incorporar elementos culturais locais ao choque entre ideários na Rússia do início do século XX. Na temporada recente, o oferecimento de dois finais superpostos estendeu o paralelo ao Brasil atual de políticas à queima-roupa. O final original desenha frágil contemporização de posições antagônicas, num duelo sem mortos.

Bastidores
Camila Pitanga e participantes do I Festival Int. de Máscaras do Cariri, na ONG Beatos (Alvaro Machado)

 

O segundo fecho espelha o acirramento global de discursos de intolerância deste 2016, ao submeter Laiévski (Porto), servidor público com veleidades de pensador, ao tiro fatal do cientista moralizador Von Koren (Conceição). “O mais fraco é varrido pelos exterminadores da diferença. Imóvel no chão, ouvi de espectadores uma espécie de pregão: ‘Olha a reflexão!’”, conta Porto.

Em Arneiroz, a Mundana convidou dois figurantes nativos para uma cena de taverna. Leo busca espaço para sua identidade transexual sem ter de deixar a cidade, enquanto Nilberto atua no Arte Jucá, um dos dois núcleos teatrais do lugar.

O outro, Muc’Arte, funciona em antigo casarão de coronel convertido, em 2010, na Casa de Cultura do Assentamento Mucuim, de lavradores e fruticultores. Em encontro com teatristas de outras quatro cidades cearenses e os sulistas, foi celebrado seu novo estatuto de Ponto de Cultura, resultado de políticas culturais federais e apoios do Incra.

Com amostras de todos os estratos entre seus 7,6 mil habitantes, a plateia arneiroense da Mundana contou duas vezes com o silêncio fascinado de Lucas Lima, o Gaguinho, jovem gari que nos fins de noite juntava-se ao elenco no karaokê da pizzaria local.

Seminário
Ludmila Enoque e Alana Pereira, teatristas dos assentamentos Mucuim e Monsenhor Tabosa (Alvaro Machado)

 

Em outro extremo, o vereador e caixa de banco Paz Loureiro apresentava à trupe seu livro A Fortaleza da Esperança (ed. Premius, 2008), sobre a passagem de Luiz Carlos Prestes e de sua Coluna pela cidade. Olhos marejados, o pesquisador acrescentava de voz um segundo final à obra, pois o sobrado QG dos tenentes durante cinco dias de janeiro de 1926 foi demolido há três meses.

O proprietário recusou a proposta da prefeitura, de compra parcelada, para aceitar valor ligeiramente menor à vista, de particular.

“Uniram-se aqui mil e cem homens, vindos de direções diferentes para seguir na invasão do Ceará e na grandiosa marcha de 25 mil quilômetros. Queriam livrar o Brasil da presidência de latifundiários e denunciar a divisão crítica entre ricos instruídos e analfabetos pobres.

Muitos tinham bases acadêmicas e aprovariam a peça da Mundana, que também poderia encenar aqui a cavalhada de encontro da Coluna”, sonha Loureiro. 

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