Número 932,

Economia

Choque de realidade

Pagando o pato

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 22/12/2016 00h24, última modificação 02/01/2017 11h43
O aumento da confiança com o impeachment não melhorou a economia, descobre a Fiesp
Everton Amaro/Fiesp
FIESP

A sede da Fiesp, na Paulista, aglutinou os patos do impeachment em torno do pensamento mágico do fora Dilma, mas "a retomada" virou pataquada

Depois das exibições do pato na Avenida Paulista para “animar” o impeachment de Dilma Rousseff, a Fiesp descobriu quem está pagando as façanhas do próprio anatídeo. No popular, as empresas brasileiras estão pagando o pato. Assim o demonstra o excelente e certeiro estudo do Departamento de Competitividade e Tecnologia da federação que congrega os industriais paulistas.

Já na abertura, o estudo desfia as razões das graves dificuldades financeiras vividas pelas empresas:

“A melhora da confiança que vimos com a mudança de governo não está se transformando em melhor desempenho da economia. A expectativa de crescimento do PIB está caindo, tanto para este ano quanto para o próximo. Para 2016, o mercado esperava que o PIB fosse crescer -3,17%, mas agora já espera -3,44%. Para 2017, a expectativa de crescimento passou de 1,34% para 0,96%”.

As reiteradas decepções das expectativas e as frustrações da confiança, diz o documento, “se devem ao desempenho ainda muito ruim de variáveis como vendas no varejo, com queda de 6,6% nos 12 meses encerrados em setembro, e produção industrial, que diminuiu 7,9%, nos 12 meses encerrados em outubro”.

 A derrocada nas vendas do comércio e na produção industrial, prossegue o estudo, “se deve ao desempenho ainda muito ruim de variáveis como a taxa real de juros básica, que passou de 3,5% ao ano em janeiro para mais de 9% em novembro.

Isso acontece porque a inflação está caindo, enquanto a Selic só diminuiu 0,25 ponto porcentual. O crédito às empresas caiu 12,8% nos 12 meses encerrados em outubro e o crédito às famílias, 3,4%. Os investimentos declinaram 13,5% nos 12 meses encerrados em setembro”. 

Segue o enterro: além de seus efeitos negativos sobre o investimento, “a alta na Selic tem efeito perverso sobre o spread e a inadimplência, que, desde janeiro de 2014, aumentou 33%, enquanto o spread cresceu 81%, ou seja, mais do dobro.

A partir de 2015, os bancos começaram a aumentar os spreads para se provisionar contra a inadimplência, que, até então, era estável. O aumento dos spreads causou o próprio crescimento da inadimplência, concretizando uma espécie de profecia autorrealizável”.

Tradução livre: as decisões “racionais” do ponto de vista microeconômico prestam homenagem às falácias de composição que infestam os modelos macroeconômicos. O que parece bom para o ‘agente individual’, seja ele empresa, banco ou consumidor, é danoso para o conjunto da economia. 

 As investigações da Fiesp chegam a conclusões semelhantes àquelas que apresentamos há poucas semanas. Dizíamos então: em fevereiro de 2013, o Boletim Focus, que reúne as projeções dos “principais economistas do mercado”, previa crescimento do PIB de quase 4% ao ano para 2014, 2015 e 2016.

Após o crescimento de 0,5% em 2014, a economia do País caminha para o segundo ano consecutivo de retração de quase 4%.

O desempenho pífio de 2014 instigou o “consenso” em torno das políticas econômicas que deveriam ser adotadas tempestivamente. Depois de conceder isenções fiscais para grandes grupos econômicos – a turma do pato –, a política econômica brasileira deu um choque de tarifas, dobrou a taxa de juros e perpetrou um ajuste fiscal que concentrou cortes em investimentos públicos.

O mergulho depressivo iniciado entre o crepúsculo de 2014 e a aurora de 2015 pode ser apresentado como um exemplo do fenômeno que as teorias da complexidade chamam de “realimentação positiva” ou, no popular, “quanto mais cai, mais afunda”.

Gráfico

A interação entre o choque de tarifas, a subida da taxa de juros, a desvalorização do real e o corte dos investimentos públicos determinaram a elevação da inflação em simultâneo à contração do nível de atividade e daí à restrição do crédito. O encolhimento do circuito de formação da renda levou, inexoravelmente, à derrocada da arrecadação pública.  

A combinação entre choques negativos de oferta e seus efeitos sobre a renda agregada da economia suscitou um processo de “realimentação positiva” decorrente das reações de autoproteção das empresas, bancos e consumidores, estes ameaçados pelo desemprego. 

As fábricas se encharcam de capacidade ociosa. Endividadas em reais e em moeda estrangeira, as empresas são constrangidas a ajustar seus balanços diante das perspectivas de queda da demanda e do salto no serviço da dívida.

Para cada uma delas era racional dispensar trabalhadores, funcionários, assim como, diante da sobra de capacidade, procrastinar investimentos que geram demanda e empregos em outras empresas. Para cada banco individualmente era recomendável subir o custo do crédito e racionar a oferta de novos empréstimos. 

Os consumidores, bem, os consumidores reduzem os gastos. Uns estão desempregados e outros, com medo do desemprego. Assim, o comércio capota, não vende e reduz as encomendas aos fornecedores, que acumulam estoques e cortam ainda mais a produção.

As demissões disparam. A arrecadação míngua, sugada pelo redemoinho da atividade econômica em declínio. Isso, enquanto a dívida pública cresce sob o impacto dos juros reais e engorda ainda mais os cabedais do rentismo caboclo.

Pedidos de “paciência” ou “controle da ansiedade”, em meio a celebrações de economistas pela queda do salário real, chocam-se com a realidade da vida das pessoas de carne e osso e denunciam a dissonância da narrativa da retomada da confiança com os movimentos da economia concreta. 

A confiança do empresário é a demanda e a do trabalhador, seu emprego. Ao redor do globo, governos buscam:

1. Dinamizar suas economias com baixas taxas de juro.

2. Parcerias com a iniciativa privada na coordenação e promoção de investimentos em inovações, à procura de protagonismo na nova revolução industrial.

3. Programas maiores e de longa duração na melhora da infraestrutura pública, os quais, nas palavras da The Economist, “dariam às empresas privadas uma maior confiança sobre a demanda futura e tornariam mais provável uma recuperação sustentada”.

A mídia brasileira espargiu a convicção da rápida recuperação do crescimento econômico, pois a confiança havia sido restabelecida e o hiato do produto ampliado. A crise purgaria rapidamente os excessos decorrentes dos “estímulos artificiais”.

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