Número 930,

Cultura

Baile do Preto e Branco

Truman Capote e a febre de afeto

por Nirlando Beirão publicado 09/12/2016 10h02, última modificação 09/12/2016 10h04
Meio século atrás, num luxuoso baile no Plaza, ele lançou a moda do escritor-estrela
Harry Benson/ Express/ Getty Images
Plaza Hotel

Plaza Hotel, NY, 28 de novembro de 1966: o anfitrião com Katherine Graham

Aquela que passou para a história como “a festa do século” – do século XX, bem entendido – não aconteceu em nenhuma villa da Riviera, não teve como anfitrião nenhum marquês de ilustre dinastia espanhola, passou distante da mise-en-scène da animada nobiliarquia britânica.

Nasceu do obstinado projeto de alpinismo social de um escritor que fora rejeitado pelos pais e criado, se é que se pode dizer assim, pelos avós maternos na provinciana Monroeville, Alabama – menino minguado, de volumosa cabeça e uma frágil vozinha a lhe conferir o definitivo ar afeminado. A literatura lhe daria reputação e dinheiro. Não bastava. Um dia, o antigo pária achou que era hora de reivindicar para si o holofote que ilumina o restrito acesso ao grand monde. E assim o fez.

“The Black & White Ball” aconteceu meio século atrás, na noite de 28 de novembro de 1966, uma conveniente segunda-feira. O anfitrião, para se precaver de sua incontrolável ego trip, inventou de dizer que estava homenageando uma amiga sua, Katherine Graham, a publisher do jornal Washington Post – tributo tão de última hora que a menção a Ms.

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O casal Walther Moreira Salles representou o jet set canarinho, juntamente com o herdeiro e bon vivant Nelson Seabra (FolhaPress)

Graham teve de ser incluída à mão no convite, em elegante papel da Tiffany’s. O convite pedia black-tie, vestido longo e máscara. “A festa não era para Kathy, era para ele”, registraria seu biógrafo George Plimpton. Foi, nos dias eletrizantes que precederam o baile, o talk of the town. Nova York só falava na “festa de Truman”. Dele: Truman Capote.

Cinquenta anos atrás, é bom repetir, escritores ainda não usufruíam do status de ídolos pop que os embala hoje em dia, no paparico adulador das feiras literárias, dos circuitos de palestras, da superexposição midiática. Mas Capote ansiava pelo afago do jet set e por uma visibilidade pública que fosse além do mero reconhecimento das letras. O seu ball masqué era a chance de sua vida. 

Escolheu o ballroom do Hotel Plaza, no ângulo do Central Park com a Quinta Avenida – o que prenunciava sua disposição de desembolsar uma razoável parcela dos copyrights milionários auferidos com A Sangue Frio, o romance-verdade sobre o massacre de uma família do interior do Kansas por dois delinquentes condenados à morte.

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Truman baila com uma de suas inacessíveis swans (Bettmann/Getty Images)

No final das contas, acorreram tantos interessados em dividir a conta que Capote limitou-se a desembolsar 16 mil dólares num rega-bofe que deve ter custado quatro vezes mais. Seria o correspondente a 120 mil dólares em dinheiro de hoje.

Na verdade, Truman trafegava em terreno já amigável. Virou o queridinho das Vanderbilt e das Van Cleef, de Marella Agnelli e de Barbara Paley, tão logo, ainda com aquele ar indefeso de efebo gay, chegou em Nova York vindo do Deep South e colocou à disposição de damas seu humor corrosivo e seu propósito de escalar as alturas da grã-finagem local. Colheu o que queria, talentoso na escrita, mas aprisionado àquela atmosfera frívola das swans (dondocas, na gíria da época) que bicavam Veuve Clicquot no breakfast e, a pretexto de comer escargôs, iam desfilar sua enfatuação de sedas e plumas nos restaurantes da moda. Todos, como o Pavillon, rebatizado em 1958 de La Côte Basque, invariavelmente franceses.

Sobraçando um caderno escolar mesmo quando veraneava, a bordo de seus anfitriões abonados, em Portugal, nos Hamptons ou num iate do Mediterrâneo, Truman se regozijava com o incrível poder de adicionar – e, mais ainda, de sadicamente eliminar – nomes em sua lista de convidados. Teriam de ser 500, ele acertou com a RP Elizabeth Davies, que se encarregou do rsvp. Ficar fora do rol do B&W Ball era como virar persona non grata do mundinho chique e fino. Houve choro e ranger de dentes. “Convidei 500 amigos e fiz 15 mil inimigos”, deleitou-se o anfitrião.

A lista, corrigida obsessivamente até a véspera, obedecia à ciência do mix, o ilusionismo de reunir em todo da mesa – 58, naquela noite – gente que só tinha em comum algum tipo de celebridade. Nas idas e vindas do lápis malévolo, antecipando-se prazerosamente à frustração dos excluídos, o casting da soirée de gala enfim se fechou. A multidão in recrutou nove príncipes e princesas, três duques, cinco condes e condessas, cinco marqueses e marquesas, sete barões e baronesas, cinco lordes, sirs e ladies. Sem falar do marajá de Jaipur e de uma marahanee devidamente credenciada por um reluzente chocalhar de rubis e turmalinas. “Seria a lista internacional para os candidatos à guilhotina”, maliciou o colunista Leo Lerman. 

Truman regalou-se com a mais reluzente realeza do show business, da veterana Tallulah Bankhead àquela mignonne que arrebentara na versão filmada de sua novela Breakfast at Tiffany’s, Audrey Hepburn. Sem seu Givenchy, mas com o marido Mel Ferrer a tiracolo.

Frank Sinatra aproveitou para exibir aquela que acabara de assumir o direito de se chamar Mrs. Sinatra, Mia Farrow. Hollywood teria servido, como cereja do bolo, o casal do momento, Liz Taylor e Richard Burton, se os dois não tivessem alegado compromisso no set de Reflections on a Golden Eye, baseado em história de Carson McCullers, velha amiga de Trump – e, por um lapso bem proposital, fora da lista. 

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Jacqueline recusou, alegando luto pelo marido, mas Rose, mãe de John e matriarca dos Kennedy, compareceu em estilo

Se provocou decepções, acabou também por se decepcionar, aqui e ali. Com certa dificuldade havia conseguido o endereço da sempre esquiva Greta Garbo, a qual, depois de confirmar, não deu o ar de sua relutante graça. Sem Jackie Kennedy, que alegou que o mês de novembro lhe lembrava a morte do marido, a festa teria de aceitar o downgrade na figura de Lee Radziwill, irmã mais nova de Jackie.

Os Kennedy não se incomodaram com a data e até a matriarca Rose, Mrs. Joseph Kennedy, compareceu. O establishment da política e do dinheiro ficou muito bem representado com o governador de Nova York, Nelson Rockefeller, e senhora.

Vivendo a síndrome do anfitrião clássico, Truman excitava-se a cada confirmação. “Cecil Beaton já chegou de Londres”, comemorava, ao telefone com as amiguinhas. Assim, festejou cada Rothschild, cada Windsor. Não conseguiu dormir na véspera. Não só ele – Nova York estava pilhada demais, no tráfego das limusines de luxo entre cabelereiros, estilistas e joalheiros, para fingir naturalidade. A entrada do Plaza, aquela noite, ganhou uma audiência ruidosa como a de um red carpet do Oscar.

Se o beautiful people europeu atravessou o Atlântico, o compromisso cosmopolita do casting até brasileiro recrutou. O casal Elizinha e Walther Moreira Salles recebeu o convite, graças à prerrogativa de uma sólida amizade com Kathy Graham, desde quando Walther servira como embaixador do Brasil em Washington.

Já Nelson Seabra era o tipo de bon vivant apto a seduzir, à sua passagem, todo o circuito Elizabeth Arden. Aproveitou a robusta fortuna herdada do pai, empresário do ramo alimentício, para se tornar um habitué do grand monde. Ninguém dizia que Mr. Seabra era brasileiro. Nem mesmo os brasileiros.

Truman Capote tanto sabia que submetera toda aquela gente a um capricho pueril seu que nem mesmo o sucesso de mídia e de estima do Baile Preto e Branco acalmou sua vertigem de autoafirmação. Ciente de que jamais passaria de acessório decorativo de suas enfatuadas swans, ruminou um desfecho vingativo.

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A extravagância em máscaras Halston e Adolfo (Express Newspapers/ Getty Images)

Voltou ao La Côte Basque, dessa vez por escrito, para botar veneno no champanhe das socialites, definitivo acerto de contas com a grã-finagem que ele amava e desprezava. O devastador conto à clef – com o nome do restaurante no título – foi publicado pela revista Esquire em 1975. Truman Capote teve de se exilar em Los Angeles pelos nove anos seguintes, até a morte em 1984. 

*Publicado originalmente na edição 930 de CartaCapital, com o título "Febre de afeto"