Número 928,

Economia

Análise

A proclamada recuperação da confiança na economia nacional vira fumaça

por Luiz Gonzaga Belluzzo e Gabriel Galípolo — publicado 29/11/2016 01h19
As verdades dos especialistas chocam-se com a vida dos prejudicados de carne e osso na globalização
Tânia Rêgo/ Agência Brasil
Crise

O mergulho depressivo da economia brasileira de 2014 a 2015 pode ser apresentado como um exemplo simplificado de "realimentação positiva"

Os ruidosos recados das urnas no Primeiríssimo Mundo fizeram vibrar os tímpanos dos ouvidos moucos do establishment, alertando para o entrechoque das “verdades dos especialistas” e a realidade da vida dos prejudicados de carne e osso na senda da globalização.

O editorial da The Economist afirma que “a eleição do Sr. Trump é uma repulsa a todos os liberais, incluindo esta revista. Os livres mercados e as democracias classicamente liberais que defendemos, e que pareciam ter sido afirmadas em 1989, foram rejeitados pelo eleitorado, primeiro na Grã-Bretanha e agora na América. França, Itália e outros países europeus podem segui-los. Está claro que o apoio popular à ordem ocidental dependeu mais do crescimento rápido e do efeito galvanizador da ameaça soviética do que convicção intelectual. Recentemente, as democracias Ocidentais fizeram muito pouco para espalhar os benefícios da prosperidade. Políticos e ‘especialistas’ desconsideraram a aquiescência dos desiludidos”.

Segundo William Davies, em exegese do neoliberalismo publicada na New Left Review, não está mais claro se as ciências sociais, economia ou psicologia estão sendo aplicadas num sentido normativo, metodológico, publicamente falseável. Pelo contrário, elas parecem estar operando como braços do poder soberano, afirmando verdades em vez de descobri-las.

Parece que o neoliberalismo entrou em algum tipo de fase pós-hegemônica, em que sistemas e rotinas de poder sobrevivem, mas sem autoridade normativa ou democrática.  Nos termos de Neil Smith, o neoliberalismo está “morto e ainda dominante”. Recorre à força, pois perdeu a hegemonia.

Em entrevista concedida em julho de 2015, Yanis Varoufakis descreve os níveis surreais de incompreensão em suas interlocuções com os credores gregos, nas reuniões dos ministros das finanças da União Europeia: “Você apresenta um argumento em que realmente trabalhou – para ter certeza que é logicamente coerente –, e ao final você encara olhares em branco. É como se você não tivesse falado. O que você diz é independente do que eles dizem. Você poderia muito bem ter cantado o Hino Nacional da Suécia”.

Ainda que existam e devam existir interpretações distintas sobre o mesmo fenômeno, em convívio com defesas de políticas contraditórias, pois a sociedade é formada por agentes com papéis heterogêneos que podem se desdobrar em interesses antagônicos, a retórica embuçada de ciência que endereça nas crises sempre socorro aos mesmos bolsos e ajustes aos mesmos lombos, corrobora a afirmação de Adorno e Horkheimer: o mundo em que tentamos sobreviver é uma prova diária da degeneração da razão ocidental, transformada em mero instrumento dos métodos de domínio e conquista.

O retorno do mito é um dos fenômenos mais formidáveis do fim do século XX e atinge com maior intensidade as chamadas ciências humanas. Como sempre, destroçada pelas exigências da política antidemocrática dos tecnocratas de turno, a economia entrega seu destino às forças do empobrecimento conceitual e da apologética sem limites. O esvaziamento se faz em nome da despolitização e da “limpeza ideológica”, da aproximação da economia do paradigma atribuído às ciências da natureza, em particular da física.

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Não era isso que Wall Street esperava (Matthew Marquardt/ Citizenside/AFP)

No livro Forecast: What Extreme Weather Can Teach Us About Economics, o físico Mark Buchanan assevera que a dita ciência econômica apresenta um desvairado desempenho, “algo mais ou menos equivalente à física da Idade Média”. Na visão de Buchanan, à semelhança dos meteorologistas, os economistas deveriam considerar a existência de fortes instabilidades governadas por “realimentações positivas” nos processos de mercado.

O mergulho depressivo da economia brasileira iniciado entre o crepúsculo de 2014 e a aurora de 2015 pode ser apresentado como um exemplo simplificado de “realimentação positiva”.

A interação entre o choque de tarifas, a subida da taxa de juros, a desvalorização do real e o corte do crédito e do investimento públicos determinaram a elevação da inflação e a contração do nível de atividade, isto é, do circuito de formação da renda, o que levou inexoravelmente à derrocada da arrecadação pública. A combinação de choques negativos de oferta, e de seus efeitos sobre a renda agregada da economia, suscitou um processo de “realimentação positiva” decorrente das reações de autoproteção das empresas, bancos e consumidores, estes ameaçados pelo desemprego.

As empresas endividadas em reais e em moeda estrangeira começaram a ajustar seus balanços diante das perspectivas de queda da demanda e do salto do serviço da dívida. Para cada uma delas era racional dispensar trabalhadores, funcionários, assim como procrastinar investimentos que geram demanda e empregos em outras empresas. Para cada banco individualmente era recomendável subir o custo do crédito e racionar a oferta de novos empréstimos. Tais decisões são racionais do ponto de vista microeconômico e danosas para o conjunto da economia.

Os consumidores, bem, os consumidores.  Uns estão desempregados e outros com medo do desemprego. Assim, o comércio capota, não vende e reduz as encomendas aos fornecedores. A produção despenca, as demissões disparam, as recuperações judiciais sobem como foguetes espaciais: saltaram de 800 em 2012 para 1.287 em 2015, e já alcançam 1.479 em setembro de 2016. A arrecadação míngua, sugada pela voracidade dos comensais que se empanturram nos dividendos livres de impostos. Isso enquanto a dívida pública cresce sob o impacto dos juros reais e engorda ainda mais os cabedais do rentismo caboclo.

Davies afirma que, no passado, o neoliberalismo foi criticado por sustentar julgamentos econômicos de “eficiência” e “competitividade” acima de julgamentos morais ou justiça social. A transferência das dívidas dos bancos para os governos depois da crise de 2008 criou a justificativa para austeridade, disparando a fase do neoliberalismo que opera mediante uma linguagem moralista de punição aos deserdados e perdedores do jogo da finança globalizada.

Não por acaso, na Tropicália, os sacerdotes das finanças exprobam as conexões entre a queda do PIB, a derrocada fiscal e a elevação da Selic, absolvem o choque de tarifas e o câmbio pelos impactos na inflação, para incriminarem aposentados, trabalhadores e mães do Bolsa Família pelo “ataque” ao Orçamento público, e forçarem o congelamento do Estado pelos próximos 20 anos. Todo crescimento real deve ser revertido aos detentores da dívida pública.

A desejada e proclamada recuperação da confiança se esfuma rapidamente.