Número 927,

Saúde

HSV

Herpes genital na gravidez

por Drauzio Varella publicado 18/11/2016 11h32
A transmissão do vírus quase sempre ocorre no parto. Sequelas ameaçam os bebês que sobrevivem
Marcio Okabe/Flickr Commons
Bebê

Quando o bebê é infectado, há risco de microcefalia, hidrocefalia e coriorretinite

A infecção neonatal pelo vírus herpes (HSV) tem consequên­cias graves. Consideramos neonatal a infecção que ocorre nos primeiros 28 dias de vida. Sem tratamento, ela está associada a perto de 60% de mortalidade. Mesmo quando antivirais como o aciclovir em altas doses são iniciados precocemente, os bebês sobreviventes evoluem com sequelas.

Embora o feto possa adquirir o vírus na vida intrauterina, a maioria das transmissões ocorre no canal do parto. De 50% a 80% dos casos neonatais acontecem em mulheres que adquiriram o vírus nas proximidades do parto. O risco naquelas com infecção crônica reativada no fim da gestação é mais baixo.

Na maior parte dos casos de herpes genital feminino o vírus fica aninhado ao colo uterino, e não há sinais externos nem sintomas. Apesar da presença do HSV nessa localização, menos de 1% das crianças nascidas de parto vaginal desenvolve a doença. A infecção congênita (intrauterina) é rara. Quando acontece, há risco de microcefalia, hidrocefalia e coriorretinite.

A apresentação clínica neonatal é dividida em três grupos: 

1. Infecções confinadas à pele, aos olhos e às mucosas.

Correspondem a 45% dos casos. Surgem vesículas nesses locais, sem envolvimento de órgãos internos ou do sistema nervoso central. 

Sem tratamento a infecção se dissemina. Tratada com aciclovir em doses altas a criança costuma evoluir bem, sem sequelas. O vírus não é eliminado do organismo, no entanto, podem ocorrer recidivas durante a infância.

2. Infecções com envolvimento do sistema nervoso central.

Estão associadas à letargia, convulsões e anorexia, na presença ou não de lesões cutâneomucosas. Correspondem a 30% dos casos.

Eventualmente, as crianças evoluem com retardo do desenvolvimento, epilepsia, cegueira e déficit cognitivo. Quanto mais cedo administrado o tratamento, menores as complicações. Infelizmente, mais de 50% dessas crianças apresentam complicações neurológicas ao completar o primeiro aniversário.

3. Infecções disseminadas.

Correspondem a 25% dos casos. O vírus atinge pulmões, fígado, cérebro e outros órgãos, num quadro clínico semelhante ao das septicemias bacterianas. O risco de morte atinge 30%, mesmo com o tratamento antiviral.

O desenvolvimento de uma vacina contra o HSV seria a estratégia mais eficaz de prevenção, mas até o momento ela não existe. Abstinência sexual nas fases finais da gestação é medida preventiva importante, mas difícil de ser aplicada no grande contingente de mulheres assintomáticas que adquiriram o HSV antes de engravidar.

O exame de sangue para identificar as grávidas HSV-negativas que precisam ser orientadas para a abstinência é útil, especialmente no terceiro trimestre.

O preservativo reduz pela metade as transmissões de homem para mulher e de mulher para homem.

A conduta atual é recomendar parto cesariano nos casos de haver evidência de recidiva na região genital. Como o aciclovir não é teratogênico, os obstetras prescrevem a droga logo no primeiro episódio de infecção pelo HSV da mulher grávida.