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Número 925,

Saúde

Entrevista

Hérnias, complicações e soluções

por Riad Younes publicado 16/11/2016 05h27
Intervenções no abdome podem gerar problemas. É possível remediar, quando não dá para prevenir?
Hospital Oswaldo Cruz
Sergio Roll

Sergio Roll: foco multidisciplinar para um mal multifatorial

Uma das complicações mais desagradáveis, desconfortáveis e potencialmente incapacitantes é a ocorrência de uma hérnia na incisão da cirurgia. Após operação sobre algum órgão no abdome, quer seja emergencial, quer seja eletiva, alguns pacientes apresentam complicações na região operada da parede abdominal. Se essas complicações levarem a uma fraqueza nesse local, o conteúdo do abdome (intestino, gordura...) sai através dos músculos e fica superficial, geralmente coberto somente pela pele. Isso é chamado hérnia. 

O tratamento dessas hérnias depende de sua extensão, tendo evoluído muito até os dias atuais, com o emprego de telas sintéticas e videolaparoscopia. Persistia entre especialistas a dúvida de quanto realmente essa tecnologia melhorou os resultados a longo prazo dos pacientes.

Conversamos sobre o assunto com o doutor Sergio Roll, coordenador do Centro de Hérnia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e do Grupo de Cirurgia de Parede Abdominal da Santa Casa de São Paulo.

CartaCapital: A técnica cirúrgica melhorou muito. Ainda acontecem complicações que levem a hérnias incisionais extensas?

Sergio Roll: Infelizmente, sim. Mesmo a enorme evolução das técnicas cirúrgicas não impediu o aparecimento de hérnias incisionais, as quais podem chegar de 11% a 50% das laparotomias (cirurgias abertas no abdome). Isso faz com que os cirurgiões gerais se deparem com números epidêmicos de pacientes que necessitam de tratamento cirúrgico de uma hérnia incisional.  

CC: Qual a estimativa da ocorrência desse problema no Brasil?

SR: Dados do Data-SUS no Brasil, de 2013-2014, mostram que de 245 mil operações para corrigir hérnias realizadas anualmente, 20% referem-se a tratamento de hérnias incisionais. Ou seja, ao redor de 45 mil cirurgias por ano. Nos Estados Unidos, no ano de 2012, cerca de 190 mil pacientes foram operados de hérnia da parede abdominal.

CC: Qual é a eficiência dos vários métodos e técnicas utilizados para resolver as hérnias incisionais?

SR: Desde 1958 houve uma revolução nas operações de hérnia, com a introdução da tela (prótese de polipropileno) por Usher. A chance de as hérnias voltarem (recidiva) tem diminuído drasticamente. Porém, temos notado um grande número de publicações médicas relatando complicações referentes ao uso dessa prótese. Fica, então, a pergunta sobre os reais benefícios do uso da tela. Qual o real preço que se paga para reduzir o risco de recorrência da hérnia, quando se consideram as complicações a longo prazo relacionadas ao uso das próteses?

Em recente artigo publicado na revista Jama, pesquisadores liderados por doutor Kokotovic, do Hospital Universitário de Zealand, na Dinamarca, compararam a eficácia das diferentes técnicas de correção de hérnias em 3.242 pacientes, após cinco anos de acompanhamento. Concluíram que o uso de tela sintética, por laparoscopia ou por cirurgia aberta, foi significativamente mais eficaz (90%) que a simples sutura da parede abdominal (83%).

CC: Esses procedimentos, e o uso de telas, são realizados no Brasil? Os resultados são semelhantes?

SR: Sim, eles são. No Centro de Hérnia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo realizamos esses procedimentos em larga escala há alguns anos. A nossa experiência, em acordo com o que conclui o artigo do pesquisador dinamarquês, é de que a utilização da prótese nas cirurgias de hérnia incisional diminuiu drasticamente as reoperações por recidiva, e que esse grande benefício compensa na maioria das vezes as infrequentes complicações atribuídas à tela.

O tratamento das hérnias da parede abdominal requer técnica cirúrgica apurada, conhecimentos médicos variados, domínio da fisiologia, imunologia, processo de cicatrização e outras ciências básicas, bem como a rápida capacidade de adaptação às incorporações técnicas, mas acima de tudo um grau de comprometimento que só pode ser atingido por cirurgiões dedicados a essa área. Também é essencial a interação com outros profissionais médicos e não médicos, pois, tratando-se de uma doença multifatorial, deve receber atenção multidisciplinar.

A formação de uma equipe especializada em defeitos da parede abdominal, além de solucionar o problema de milhares de pacientes, é capaz de contribuir para melhorar a reintegração precoce desses pacientes à sua vida social e profissional.