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Número 922,

Internacional

Europa

Reino Unido: Sai Thatcher, entra o populismo de direita

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 11/10/2016 19h17, última modificação 18/10/2016 05h04
Theresa May abandona a tradição liberal e joga o país aos ventos do nacionalismo xenófobo
Lidsey Parnaby/Anadolu Agency
Margaret Tatcher

May repudia o "cidadão do mundo"

Depois de três meses de aparente indefinição, a nova primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, parece ter escolhido seu rumo. Seguirá os passos de Marine Le Pen e Frauke Petry e confiará o futuro do Partido Conservador ao nacionalismo xenófobo.

No domingo 2, por fim May anunciou que solicitaria oficialmente a desfiliação da União Europeia e iniciaria as negociações do Brexit em março de 2017, de modo a “marcar a primeira etapa da conversão do Reino Unido em um país novamente independente e soberano”.

Também anunciou a lei da “Grande Revogação”, com a qual ficarão sem efeito todas as diretrizes e regulamentos europeus aceitos desde 1972 assim que se consumar a separação.

A definição em si é cobrada desde o referendo de 24 de junho pelos vizinhos europeus, irritados com ter de planejar o futuro da organização com um “parceiro” decidido a sair. Em 27 de setembro, por exemplo, Londres vetou o plano franco-alemão de criar um quartel-general em Bruxelas para coordenar as Forças Armadas europeias porque “solaparia a Otan”, apesar de o próprio secretário-geral da organização, o norueguês Jens Stoltenberg, ter apoiado a iniciativa.

Entretanto, parte do Partido Conservador queria adiar o início do processo para depois das eleições francesas e alemãs (maio e setembro de 2017), porque esses governos certamente não terão espaço para fazer concessões a Londres em plena campanha. 

O cronograma sugere que o governo britânico espera um “Brexit duro”, sem transigências e compromissos mútuos. Quer romper com as normas europeias, a livre circulação de cidadãos e as contribuições a Bruxelas e com isso terá de se conformar com perder o acesso privilegiado ao mercado europeu.

O eurodeputado conservador e líder eurocético Daniel Hannan sugeriu no jornal The Sun que, em compensação, o Reino Unido se una ao Nafta, que, ironicamente, é a besta-fera para seus similares xenófobos do outro lado do Atlântico, como Donald Trump.

Guinada
A 'Dama de Ferro' criou um paraíso para ricos cosmopolitas. Agora se diz 'dos trabalhadores' e nacionalista (Christine Nesbitt/AP)

Nos dias seguintes, a ministra do Interior, Amber Rudd, anunciou medidas imediatas para restringir a imigração e “proteger os empregos dos britânicos”. As empresas terão de publicar o número de empregados estrangeiros, os vistos para estudantes universitários serão limitados e será criado um “fundo de controle da migração”.

O ministro da Saúde, Jeremy Hunt, anunciou uma série de medidas para reduzir o número de funcionários estrangeiros e o ministro do Comércio, Liam Fox, negou-se a garantir os direitos dos 2 milhões de cidadãos europeus hoje moradores do Reino Unido, por serem uma “carta de negociação”.

Mais que isso, na quarta-feira 5, ao presidir uma conferência do Partido Conservador, a primeira-ministra deu sinais ainda mais claros de uma guinada populista e xenófoba. Descreveu o voto no Brexit como uma “revolução silenciosa” e um “protesto contra os ricos e poderosos”, prometeu enfrentar a elite internacional e os evasores de impostos sempre paparicados pelos conservadores e – acreditem, a citação é literal – proclamou que o velho partido do Conde Disraeli, do Marquês de Salisbury, de Sir Winston Churchill e da baronesa Thatcher é o “Partido dos Trabalhadores” (We are the party of workers).

Ao menos no discurso, a ruptura com a antecessora é drástica. Enquanto Thatcher gostava de dizer que “não existe isso de sociedade”, May explicou aos correligionários que “o governo não tem todas as respostas, mas podem ser uma força para o bem” e que impostos “são o preço que pagamos por viver em uma sociedade civilizada”. Proclamou, sob aplausos, que “seremos bem-sucedidos ou fracassaremos juntos. Há mais na vida do que individualismo e egoísmo”.  

Não se trata, bem entendido, da noção progressista de solidariedade e humanidade, mas de nacionalismo estreito, se não de flerte com o fascismo: “Nunca mais deixaremos advogados de direitos humanos esquerdistas darem lições às nossas Forças Armadas”, referindo-se aos inúmeros processos por violações de direitos humanos pelas tropas britânicas no Iraque, muitos deles concluídos com condenações. “Quem acredita ser um cidadão do mundo,  não é cidadão de nada e não sabe o que é cidadania.”

A união das classes em uma nação indivisa é de novo invocada contra fantasmagóricas ameaças estrangeiras e uma mal definida “elite internacional” parasitária de forma alguma identificada com os capitalistas da vida real, dos quais a City de Londres é a capital desde a Revolução Industrial. Ou cocapital, desde que Wall Street surgiu como sua concorrente no século XX.

Enquanto isso, no Partido Trabalhista, o líder esquerdista Jeremy Corbyn sai fortalecido por uma reeleição por 62% a 38% dos filiados contra Owen Smith, apoiado pela ala centrista liberal de Tony Blair e pela maioria dos parlamentares. Corbyn ataca os conservadores por culpar os estrangeiros pelos problemas britânicos e incentivar a discriminação.

“Listar trabalhadores estrangeiros não impedirá empresários inescrupulosos de cortar salários, fechar as portas a estudantes internacionais não pagará as dívidas dos jovens com o crédito educativo e desdenhar dos médicos do exterior não reduzirá as filas do sistema de saúde.” Mas é um crítico feroz do neoliberalismo, cujos teóricos mais ortodoxos caíram na orfandade política.

Sai a Riqueza das Nações de Adam Smith e retorna o Leviatã de Thomas Hobbes. Se ainda faltava um prego no caixão do discurso pseudolibertário da globalização neoliberal dos anos 1990, May o providenciou. Se isso significa algum freio eficaz ao paraíso para a desigualdade, a sonegação e a especulação desenfreadas no qual Londres se tornou, está para ser visto.

Desde já, porém, a consonância com os populismos de direita do outro lado do Atlântico e do Canal da Mancha é evidente e pioram os presságios para o futuro da cooperação internacional. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 922 de CartaCapital, com o título "Adeus a Thatcher". Assine CartaCapital.