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Número 922,

Cultura

Papinho Gourmet

Quer valer quanto?

por Marcio Alemão publicado 14/10/2016 13h38, última modificação 16/10/2016 08h08
Sempre me lembro dos tempos de criança, quando tudo tinha de ser apostado, tudo era disputado
Ilustração: Estella Maris Foto: Istockphoto
papinho gourmet

– No estilingue ninguém me bate. No peão eu sou o campeão. E acredito que nunca perdemos esse desejo de ser melhor que o coleguinha.

Saiu a nova lista dos 50 melhores restaurantes do mundo.

– Segundo quem?

– Pois é. Essa já é uma pergunta complicada. Você sabe que estou me referindo à revista inglesa The Restaurant, que ganhou notoriedade por realizar essa lista.

– Inglês julgando comida é estranho.

– Não são ingleses. São os chefs. Um grupo deles.

– Como assim? Chef votando em chef?

– Ação entre amigos?

– Estranho, ou não?

– Sei lá. Sempre me lembro dos tempos de criança, quando tudo tinha de ser apostado, tudo era disputado.

– Eu corro mais que você. Meu papagaio voa mais alto.

– No estilingue ninguém me bate. No peão eu sou o campeão. E acredito que nunca perdemos esse desejo de ser melhor que o coleguinha.

– Mas as caras mudam. No nosso tempo a gente dizia que Deus era justo e, se você havia ganho hoje, amanhã com certeza perderia.

– Porque Deus era justo! Ou ainda rolava um coro de “marmelada! marmelada!”

– Por certo nada disso acontece durante a premiação da tal lista.

– No mundo dos adultos, em nenhuma lista, em nenhum concurso.

– Mas vamos voltar para a pergunta: segundo quem? Pega o nosso exemplo. Eu gosto com menos sal que você. 

– O meu ponto da carne é sempre um pouco abaixo do seu. Você aprecia condimentos e eu tenho resistência. Não suporto noz-moscada, por exemplo.

– Lembra da casa da Lurdes? O apartamento da Lurdes e do Paulo?

– Boa! Eu achava linda a decoração e você odiava. 

– Isso serve também para analisar a atmosfera de um restaurante. Eu me sinto péssimo em locais muito escuros, excesso de atmosfera.

– Eu gosto.

– Eu sempre disse que faria como a gaivota do livro Os Risadinhas, de Roddy Doyle, eu afogaria todos os peixes no fundo do mar.

– Imagine, então, você julgando os peruanos e os japoneses

– Naturalmente, alguns critérios são universais.

– Posso falar? Que saco, meu chapa, essas regrinhas de que tudo tem de ter crocância, acidez, textura... acho isso muito, muito aborrecido. Uma polenta é uma polenta é uma polenta e não tem acidez nem crocância e pode ser sensacional, se benfeita, diga-se. 

– Concordo com um amigo que prefere a classificação de outros guias importantes que atribuem estrelas, notas, copinhos, garfinhos.

– Verdade. Você estabelece categorias e isso faz muito mais sentido do que eleger O Melhor do Mundo.

– Posso falar? Aposto que nunca foram ao restaurante da Tia Lena, lá no Pari.

– Taí!