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Número 922,

Saúde

Entrevista

E o colesterol, como vai?

por Riad Younes publicado 13/10/2016 05h03
É mesmo necessário baixar o colesterol de todo mundo? Até que nível? E que medicamentos usar?
Valdecir Galor/ SMCS
Colesterol

O bom colesterol não depende apenas dos medicamentos, mas também em hábitos como parar de fumar, controlar o peso, a hipertensão e o diabetes, e fazer exercícios físicos regularmente.

Sugiro que adicionem estatinas nas fontes de água potável.” Manchete da BBC em 2004, esta frase, esporadicamente repetida entre médicos em tom de brincadeira, foi uma declaração entusiasmada do doutor John Reckless, professor da Universidade de Bath, no Reino Unido. Exagero à parte, as estatinas, famosas drogas administradas para diminuir a concentração do colesterol e seus componentes nocivos à saúde, estão sendo prescritas de forma disseminada. Por vezes abusiva. 

Além das estatinas, estão sendo testadas, e logo chegarão ao mercado brasileiro, drogas que conseguem reduzir ainda mais a concentração do colesterol ruim, LDL. Recentemente, duas dessas drogas dirigidas contra um tipo de proteína, a PCSK9, que pode se ligar nos receptores de LDL nos tecidos do corpo e causar elevação persistente do colesterol ruim no sangue, foram aprovadas pelas autoridades americanas (FDA) e europeias (EMA) para uso clínico. Essas drogas, conhecidas como alirocumab e evolocumab, parecem atuar de forma complementar, principalmente em casos de resistência individual ou intolerância às estatinas. 

Problema: o custo muito elevado. Estima-se que no Brasil alcançará as cifras de alguns milhares de reais por mês. Conversamos sobre o tema com o doutor Marcelo Sampaio, professor de Cardiologia e diretor do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

CartaCapital: A obrigação de baixar o colesterol continua controversa?

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Sampaio: não esquecer a dieta, o exercício e o bom senso (IstockPhoto)

Marcelo Sampaio: É crescente, entre especialistas, o questionamento em relação à utilização de forma indiscriminada das estatinas, como única e universal opção para controle dos níveis de LDL (colesterol ruim). O LDL está bem estabelecido como fator de risco importante para as doenças cardiovasculares. Induz a formação das placas gordurosas nas artérias, a aterosclerose, contribuindo para a obstrução vascular, o infarto do miocárdio e até mesmo o AVC (derrame). É inquestionável que a redução dos níveis do LDL contribui para a queda do risco cardiovascular. Agora, essa redução do LDL pode ocorrer de inúmeras formas, como dieta, exercício, cirurgia bariátrica e por meio de medicamentos. 

CC: E as estatinas?

MS: As estatinas são medicamentos comumente utilizados há mais de 30 anos, com recomendação recente pelo Colégio Americano de Cardiologia e pela Associação Americana de Cardiologia. As dúvidas em relação às estatinas surgiram na medida exata em que sua prescrição passou a ser empregada para todo tipo de paciente, sem considerar seu risco cardiovascular, e sem orientação concomitante de dieta, exercício e medidas de redução de peso. Ficou claro que, nessas circunstâncias, pacientes com risco cardiovascular muito baixo, mesmo com colesterol elevado, não obtiveram benefícios significativos da utilização da medicação. A perseguição não criteriosa de níveis muito baixos de LDL pode levar a efeitos colaterais indesejados e aumentar os custos do tratamento.

CC: Paciente que toma estatina está sempre bem protegido?

MS: Nem sempre. Na prática clínica, alguns pacientes com risco cardiovascular alto, em uso de doses elevadas de estatina, não apresentam níveis de LDL desejáveis (por exemplo, LDL < 70mg/dl), ou apresentam um evento cardiovascular na vigência do tratamento. Há riscos residuais independentes do emprego das estatinas. Essas observações intrigam os médicos e geram espaço para novos estudos científicos, como o recém-publicado na revista Jama (da American Medical Association).       

O estudo analisou 49 pesquisas que empregavam medicamentos e técnicas para reduzir o LDL em mais de 300 mil pacientes. A grande conclusão foi que toda medicação que consegue diminuir o LDL é benéfica e pode ser empregada rotineiramente. As estatinas ainda são os medicamentos de primeira linha no combate ao colesterol, disponíveis em forma de genéricos baratos, podendo se associar  a drogas como a ezetimiba, que reduz a absorção de colesterol no intestino, com benefícios para casos selecionados de alto risco.

CC: Custos e efeitos colaterais têm, portanto, de ser levados em consideração.

MS: Sem dúvida. Como em tudo na medicina, o conhecimento científico não pode desconsiderar a boa prática médica e o bom senso. Não se pode esquecer a ênfase em associar e orientar mudanças de hábitos tão ou mais benéficas que os medicamentos: parar de fumar, controlar o peso, a hipertensão e o diabetes, e fazer exercícios físicos regularmente.