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Número 921,

Economia

Crise Econômica

A surpresa

por Delfim Netto publicado 11/10/2016 04h35
Há quem não aceite, mas os exemplos de EUA, Alemanha e China mostram que nenhum país pode abdicar de uma política monetária autônoma
APPA
Exportações

O problema da economia mundial é a falta de demanda global, que só poderá ser resolvido pela coordenação das políticas econômicas de todos os países envolvidos

Na semana passada, nesta mesma coluna, afirmei, sem malícia, que o brilhante Robert Lucas Jr., Nobel de 1995, foi um heterodoxo malsucedido. Um velho e querido companheiro classificou-a como “injusta e reveladora do seu viés de relativizar o conhecimento acumulado no corpo da Ciência Econômica que você insiste em rebaixar a uma disciplina”. A minha defesa será o próprio Lucas.

No artigo “Hipotecas e Política Monetária”, publicado em 19 de setembro de 2007, no Wall Street Journal, no momento em que se iniciava a maior crise econômica dos últimos 90 anos, ele escreveu: “Nos últimos 50 anos, gestaram-se nos Estados Unidos duas mudanças na política macroeconômica que fizeram a diferença. Uma foi no lado da oferta, com a redução das taxas marginais da tributação depois da eleição de Ronald Reagan, continuada até o presente.

A outra foi a de ‘meta para a inflação’, que é meu nome preferido para a política monetária que olha exclusivamente para o controle da inflação. Como resultado dessas mudanças, o crescimento estável, o baixo desemprego e a baixa inflação – que se tinha como uma combinação impossível – foram realidade nos EUA dos últimos 20 anos... Sou cético com relação aos argumentos que o subprime mortgage problem contaminará todo o mercado de hipotecas, reduzirá fortemente a construção de novas casas e que a economia derrapará para uma recessão. Se há alguma coisa que aprendemos nos últimos 20 anos (sic), é que há uma grande estabilidade construída dentro da economia real”, opiniões desmentidas pelos fatos poucas semanas depois. 

Diante de tamanha miopia revelada por um dos ícones que materializam a “Ciência Econômica”, eu poderia, com justiça, tê-lo chamado até de um “ortodoxo malsucedido”! E, diante de tal “ciência”, será exagero tentar reduzi-la a uma disciplina útil (talvez imprescindível) para a boa administração pública e privada que recepciona apenas uma parte dela? Confesso meu respeito pela “ciência” de Lucas, mas não escondo minhas dúvidas.

Em recente trabalho, ele e três companheiros publicaram um artigo histórico-teórico-econométrico (“International Evidence on Long Run Money Demand”, NBER WP 22475, July 2016), em que constroem a demanda de longo prazo da moeda em 31 países, inclusive no Brasil, com informações de 1901 a 2012, o que, honestamente, não me surpreendeu.

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As políticas dos bancos centrais e a manutenção de taxas de juro reais muito próximas de zero estão provocando mudanças no comportamento dos poupadores que derivam de sua preocupação com o futuro (Marcos Santos/USP Imagens)

O que me surpreende é a resistência de alguns “cientistas” em reconhecer que:

1. O problema da economia mundial é a falta de demanda global, que só poderá ser resolvido, num mundo integrado, pela coordenação das políticas econômicas de todos os países envolvidos. Está na hora de esquecer o conto de fadas que continua a dominar alguns “cientistas”: se cada país puser em prática a “melhor política” para a sua economia, a liberdade de movimento de capitais produzirá o máximo de bem-estar para cada um deles acompanhado do equilíbrio da economia mundial. Isso foi um sonho que só se materializou em brilhantes e abstratos artigos acadêmicos. É evidente que a política monetária dos EUA, executada pelo Fed, exerce uma séria influência assimétrica na dos outros países, particularmente nos em desenvolvimento.

2. Quando um importante parceiro internacional (EUA, UE e China) reduz sua taxa de juros, há uma tendência à desvalorização da sua taxa de câmbio, o que estimula a demanda interna por dois caminhos: a) pelo estímulo ao aumento do consumo e do investimento internos; e b) pela ampliação da demanda externa de suas exportações. Mas não há garantia de que isso aumentará a demanda “global”, a não ser que o crescimento da renda interna leve a uma elevação das importações que seja maior que a das exportações, o que é uma questão empírica. 

3. As políticas dos bancos centrais (quantitative easing) e a manutenção de taxas de juro reais muito próximas de zero estão provocando mudanças no comportamento dos poupadores que derivam de sua preocupação com o futuro. Não estimulam o investimento por falta de confiança, mas estimulam o aumento defensivo da poupança, o que nos leva à estagnação geral.

É só olhar para os EUA, para a Alemanha e para a China para convencer-se de que nenhum país pode abdicar de uma política monetária autônoma (ou seja, da capacidade de fixar a sua taxa de juros interna com a política fiscal adequada), mesmo que isso exija algum controle do movimento de capitais.