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Número 920,

Saúde

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Como criar gênios

por Rogério Tuma publicado 05/10/2016 05h05
Talentos precoces, se incentivados, tendem a virar adultos inovadores
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Em Brasília, encontro promove olimpíadas de matemática para jovens de diversos Estados (Elza Fiúza/ Agência Brasília)

Em 1968 um aluno de 12 anos era tão bom em matemática que seus pais conseguiram que ele iniciasse um curso de informática na Universidade Johns Hopkins. Logo depois, por se tornar o melhor aluno da classe, o menino foi convidado a dar aulas de programação na faculdade e seu professor o apresentou para Julian Stanley, estudioso em performance cognitiva. No primeiro teste aplicado, o menino foi aprovado na própria Johns Hopkins, a melhor escola de Medicina dos Estados Unidos. 

Iniciou-se então um programa chamado SMPY, que em português quer dizer Estudo de Jovens Matematicamente Precoces. Em 1980, foi criado o Centro para Jovens Talentosos. Estes 45 anos de pesquisa acompanharam a vida e carreira de mais de 5 mil jovens prodígios, gerando mais de 400 estudos científicos e livros sobre como descobrir talentos e aprimorá-los. Tom Clynes, nesta edição de setembro da revista Nature, documenta este esforço.

Pesquisas foram feitas com jovens que conseguiram ficar no topo 1% dos resultados de exames para admissão das faculdades. Exemplos que passaram pelo Centro são os matemáticos Terence Tao e Lenhard Ng, Mark Zuckerberg, do Facebook, Sergei Brin, cofundador do Google e, pasmem, Lady Gaga.

Agora os primeiros recrutados estão no pico de suas carreiras e o que ficou claro é como esses indivíduos brilhantes influenciam os que estão à sua volta,diz Jonathan Wai, da Universidade Duke, que pesquisa a correlação da habilidade cognitiva precoce e conquistas na idade adulta. Wai afirma que os “jovens que obtêm score no topo 1% se tornam cientistas brilhantes, presidentes das grandes empresas, juízes federais, senadores e bilionários”. 

Em contraste com a crença de que qualquer um pode obter sucesso dependendo de seu esforço e prática, o SMPY sugere que, se a perseverança é uma escada para o sucesso, nascer com habilidades cognitivas acima da média é um elevador.

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Em Brasília, encontro promove olimpíadas de matemática para jovens de diversos Estados (Elza Fiúza/ Agência Brasília)

A doutora Camila Benbow e seu marido, David Lobinski, que assumiram o projeto em 1998 e o transferiram para a Universidade Vanderbilt, alertam que devemos identificar esses gênios precocemente e incentivá-los, de forma a obterem o melhor de si, assim como fazemos com as crianças que, do outro lado da curva, apresentam dificuldade de aprendizado. Ainda não temos um teste 100% assertivo na seleção dessas crianças, podendo alguns gênios precoces não serem reconhecidos e aproveitados. Estudos feitos com QI não conseguiram identificar os gênios, mas o SAT, o Enem americano, conseguiu.

Em março de 1972, o doutor Julian Stanley selecionou 450 estudantes tidos como brilhantes, de 12 a 14 anos, e aplicou a parte de matemática do SAT.  Descobriu que esses alunos conseguiam com facilidade resolver problemas de matemática que ainda não tinham sido ensinados na escola e tinham média bem acima do necessário para entrar nas melhores universidades. 

Em 1976, o mesmo pesquisador separou 563 alunos que tiveram notas nos 0,5% do topo de pontos na área de percepção espacial, ou seja, a capacidade de entender relações entre objetos, identificar diferenças e semelhanças, calcular volumes etc. Esse grupo, depois de 30 anos, tinha produzido um alto índice de patentes e publicações científicas inovadoras. 

O SMPY também mostrou que os que aprendem rápido precisam mudar rápido de nível. Os alunos que conseguiram pular anos de graduação obtiveram 60% mais doutorados e patentes e duas vezes mais chance de obter um doutorado em ciên­cias. O aluno zero de Stanley, agora com 60 anos, é um dos pioneiros em inteligência artificial e acredita que ter ido rapidamente para o ambiente universitário fez com que continuasse motivado a aprender, sem atrapalhar seu desenvolvimento social, e se sentia em casa mesmo sendo bem mais jovem que seus colegas de classe.