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Número 919,

Cultura

Teatro

O teatro como lugar de resistência

por Ana Ferraz publicado 23/09/2016 09h24, última modificação 25/09/2016 09h15
Teuda Bara, Elias Andreato e Celso Frateschi reforçam o papel político dos palcos
Guto Muniz
Nós

Teuda Bara em cena de Nós, manifesto contra as infâmias

Na quarta-feira 31 de agosto, dia do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, faltava cerca de meia hora para o início da peça Nós, quando as imediações do Teatro Sesc Consolação, em São Paulo, se transformaram em praça de guerra. Intoxicados por nuvens de gás lacrimogêneo, manifestantes perseguidos pela polícia encontraram refúgio nas portas abertas do teatro. Naquele momento, a acolhida dada pela instituição, por atores e equipe de produção do mineiro Grupo Galpão, cujo espetáculo só começou após a saída em segurança de todos os participantes do protesto, concretizou a metáfora do teatro como lugar de resistência.

Pouco depois da cena bélica ocorrida fora, outras batalhas assomaram ao palco. Quando aceitou o convite do Galpão para uma parceria, o diretor Marcio Abreu propôs a criação coletiva de um espetáculo político. Queria encenar as inquietações de cada ator, buscava extrair as reações individuais a pressões de toda ordem e pedia a cada intérprete condensá-las num manifesto.

As reuniões começaram em 2014, muito antes de o cenário político se transformar num pesadelo protagonizado por uma farsa. E eis que questões abordadas na dramaturgia de Nós, referência tanto a cada um como aos entraves sociais, tornaram-se incrivelmente atuais.

“Quando criamos o espetáculo, o golpe estava longe”, diz a mineira Teuda Bara, figura fundamental do Galpão, companhia que ajudou a fundar e caminha para 34 anos de existência. “Assim que o diretor nos instigou a pensar sobre nossa responsabilidade acerca de questões políticas que nos incomodam, perdi o sono e o sossego. Muitos são os incômodos, a falta de liberdade, a solidão urbana, o racismo, a intolerância, a violência, a corrupção, o machismo, o preconceito.”

A atriz se pôs a refletir sobre a interminável lista de absurdos a assaltar a humanidade todos os dias. Primeiro pensou em falar sobre a calamidade das 276 meninas sequestradas e mantidas em cativeiro na Nigéria, em 2014. “Ninguém faz nada.” Depois uma tragédia ambiental e humana local se impôs. O rompimento criminoso da barragem da mineradora Samarco deixou-a indignada. Parecia claro que a lama não se limitava à que soterrou a histórica Mariana. 

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Elias Andreato à espera de Godot. Para ele, o jogo social violento não muda. ( João Caldas)

Aos 75 anos e desde os 20 no teatro, Teuda participou de muitas manifestações contra a ditadura na década de 1960. “Fui em tudo quanto era protesto, torci tornozelo ao fugir de bomba, pedra, cavalo, fui às missas do Frei Betto.” Nascida em família tradicional, pai severo a sonhar com a filha como fina dama da sociedade e mãe a querê-la religiosa de convento, decidiu transgredir.

“Não tinha outro jeito.” Abraçou a causa hippie, trocou o curso de Ciências Sociais na Universidade Federal de Minas Gerais pelo teatro, teve dois filhos e se negou a casar e recusou convite do próprio Chacrinha para integrar o elenco do programa com a seguinte explicação: “Não posso, sou comunista”. 

Como muitos outros colegas de ofício, no auge da repressão enfrentou o constrangimento de representar para os censores. “Sabe o que é ter de fazer uma comédia para eles darem o aval ou não? Fazer gracinha para o censor e ouvir coisas como ‘esse figurino não pode, aquela fala não pode’, isso na véspera do espetáculo. E caminhamos para isso. Essa história de o filme Aquarius ser classificado para maiores de 18 anos é censura (uma semana depois da decisão polêmica, o Ministério da Justiça voltou atrás). É assim que começa.”

Em Nós, cuja dramaturgia foi construída em torno de seu personagem, Teuda revive parte do clima de revolta dos anos de chumbo ao se unir a outras vozes a se indagar sobre o modo como a sociedade adoeceu a ponto de cometer e permitir descalabros como o assassinato de cinco meninos negros, fuzilados dentro de um carro por PMs do Rio de Janeiro em 2015. Na condição de cidadã, revolta-se com a violência da polícia contra os manifestantes a gritar “Fora Temer” Brasil afora. “O cara sendo espancado, a moça que perdeu o olho, temo que tudo isso possa degringolar ainda mais.”

Da plateia do Tucarena, Elias Andreato observa os testes de luz para Esperando Godot, que acaba de estrear e cuja temporada vai até 27 de novembro. No palco, as setas de um relógio fictício a tiquetaquear silenciosas a passagem do tempo. O ator de 61 anos de idade e 45 de carreira reflete sobre a atual fase conturbada e traça um paralelo com as questões propostas pela grande obra do irlandês Samuel Beckett nos anos 1950.

“Quando se vive um momento político e social com este impacto, você repensa seu papel de artista. Talvez meu papel não esteja no discurso, na rua. Talvez minha contribuição se dê por meio de meu ofício, da minha arte.” Ao artista, diz, cabe ficar atento e pensar o mundo do ponto de vista humano e do mais fraco, sempre. “Se temos essa sensibilidade, se estudamos o homem, temos de usá-las para isso.”

Andreato ainda não havia encenado Godot por completo, somente fragmentos. Na montagem atual, enfrenta o desafio e colhe a satisfação de atuar e dirigir, condição na qual tem de sair de si mesmo para valorizar o outro. Ele vê nisso uma beleza revestida de generosidade aprendida no convívio teatral. “É lindo ver o outro brilhar.”

Ao lado de Claudio Fontana, no papel de Vladimir, ele é Estragon, ambos a esperar por alguém ou algo que talvez jamais venha, talvez não exista, talvez tenha passado e ninguém notou. Os figurinos de Gabriel Villela, ao avesso, são referência ao interior dos personagens.

Uma das grandes questões a demonstrar a atemporalidade do texto se manifesta quando entram em cena Pozzo (Raphael Gama) e Lucky (Clovys Torres), patrão e empregado. “Pozzo é esse personagem poderoso que traz o outro na coleira, submisso, a quem só é permitido pensar quando lhe colocam um chapéu. É um pouco do que vivemos, desse sistema capitalista que gera tudo em razão do poder, esse jogo social violento vinculado a uma camada da sociedade a nos manipular o tempo todo. Essas relações não mudam e por isso Godot é pertinente sempre.”

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Celso Frateschi em O Subsolo. Atualidade de Dostoiévski soa espantosa (Christiana Carvalho)

O diretor, que do mesmo modo como Teuda foi forçado a fazer espetáculo particular para censor, participou de passeatas contra o regime autoritário e experimentou frustração e revolta diante da censura a muitos espetáculos, entre os quais à peça Artaud, o Espírito do Teatro (José Rubens Siqueira), cujo elenco integrou em 1984, enxerga a sociedade atual como mais organizada e fortalecida. “Ao menos é possível se manifestar, discutir a questão da violência policial. Na ditadura isso não acontecia.”

Depois de levar ao palco O Sonho de um Homem Ridículo e O Grande Inquisidor, Celso Frateschi completa a Trilogia do Subterrâneo, de Fiódor Dostoiévski, com o monólogo O Subsolo, inspirado em Memórias do Subsolo, do escritor russo.

No intimismo do Espaço Ágora, o ator e dramaturgo incorpora o homem ressentido que culpa o mundo de tudo, se culpa e mostra sem pudor seus instintos em choque com a sociedade. “Talvez este texto nos ajude a explicar a relação com essa atitude fascista para a qual caminha nossa sociedade, formadora desse caldo autoritário. Dostoievski vai fundo nessas áreas da existência e na relação com o poder.”

Segundo Frateschi, os recentes acontecimentos na política tornaram o texto de uma contemporaneidade assustadora. “Não imaginávamos que as frases fossem ecoar de forma tão violenta.” Ele considera função primordial do teatro constituir-se espaço privilegiado para o debate de ideias, lume a abrandar a escuridão. “Vivemos momentos tristes nos quais o teatro foi um local de resistência que permitiu a discussão mais livre, mais aberta, de forma mais contundente.”

Hoje, acredita, novamente o teatro é instrumento para a construção de um conhecimento específico. “De alguma forma, O Subsolo nos mostra o embate entre a pulsão animal e a civilização. A direita apela para esse impulso mais emocional porque é fácil estimular o ódio, ele está na nossa ancestralidade, enquanto controlá-lo é um processo civilizatório difícil. Eliminar o outro como forma de acabar com o problema é algo muito estimulado pela mídia e pelos discursos de quem usurpou o poder.” 

*Publicado originalmente na edição 919 de CartaCapital, com o título "Um lume na escuridão". Assine CartaCapital.