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Número 919,

Cultura

Papinho Gourmet

Contemporâneo de que época?

por Marcio Alemão publicado 26/09/2016 04h42
Peixe com crosta de castanha. O que você me diz?
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papinho Gourmet

Peixei com crosta de castanha. O que você me diz?

– Dei de fuçar em blogs de cozinha.

– Um espetáculo a quantidade de novos críticos e espertos no assunto.

– Uma grandeza. E com boas fotos. 

– Alguns chegam a ser bastante persuasivos.

– Decidi arriscar um dos indicados, ontem.

– Qual?

– Eu prefiro não dizer o nome, porque o que interessa é tentar juntar o que li com o que vi.

– Mundos distantes?

– Diria que... sim. O restaurante apresenta-se com o subtítulo de “cozinha contemporânea”. E o que li confirmava com entusiasmo.

– E?

– E você chega para jantar em um local excelente para almoçar...

– Isso parece uma bobagem, mas não é. Alguns locais criam isso, imprimem um horário no seu ambiente.

– É como se você chegasse depois da festa. Tá tudo limpinho, tudo arrumadinho, porém, a alegria se foi. As pessoas que te servem o fazem com gentileza, mas falta tônus.

– A iluminação, como era?

– Quesito fundamental em um restaurante que abre portas durante a noite. E o caso do citado deixava muito a desejar. Luz te envolve, te convida ou faz exatamente o oposto.

– Eu fico deprimido quando esse item não é contemplado. E a parte da contemporaneidade?

– Peixe com crosta de castanha. O que você me diz?

– Sendo bonzinho: ele abriu o restaurante no início do ano 2000 e não mexeu mais no cardápio ou no subtítulo.

– Um macarrão integral com camarão e pimenta-dedo-de-moça.

– Que loucura! 

– Eu pedi esse.

 – Você sempre foi muito ousado, gosta de colocar sua boca à prova de travessuras gastronômicas.

– Estava gostoso e isso é um problema que deveria ter sido visto pelo internauta blogueiro. É bom, mas nada tem de contemporâneo.  O tal peixe com a tal crosta, sensação da década passada, também estava saboroso, cozido no ponto certinho. Pergunto, pois: seria ruim mudar a classificação para Cozinha Honesta?

– Boa. E seria inédito como proposta.

– Juntando tudo, a tal experiência pela qual passamos em um restaurante deve contemplar muitos aspectos.

– Entra nesse momento a figura, quase em extinção no País, do restaurateur. Esse camarada é quem vai fazer a sua noite ou o seu almoço ser de fato especial. Comida boa deve ser obrigação e também é trabalho do restaurateur escolher o chef.

– Chama um arquiteto, um chef, blogueiros, e parece que deu.

– Não dá. A coisa, se você me permite usar esse substantivo feminino e singular sob muitos aspectos, é bem mais complexa. 

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