Número 919,

Economia

Opinião

Consciência crítica

por Thomaz Wood Jr. publicado 23/09/2016 09h25, última modificação 25/09/2016 09h29
As escolas de negócios deveriam oferecer, além de modelos e técnicas, ensino reflexivo e humanista
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Estudo

Estudantes de administração que não têm ensino humanista tendem a ser peças de uma máquina que mal compreendem

Na comédia The Nice Guys, dirigida por Shane Black, os vilões estão a soldo da indústria automobilística. No drama Money Monster, dirigido por Jody Foster, o sedutor bandido comanda uma instituição financeira. A arte imita a vida. 

No documentário canadense The Corporation, dirigido em 2003 por Mark Achbar e Jennifer Abbot, grandes empresas são comparadas a psicopatas e tachadas de mentirosas, insensíveis e obcecadas por lucros.

A obra carrega nas tintas, mas não faltam exemplos para ilustrar suas críticas. Frequentemente, organizações tornam-se vilãs em casos de grande repercussão e têm seus nomes ligados a fraudes, abusos e desastres ambientais. A vida imita a vida. 

Organizações constituem instrumento pelo qual a sociedade atende às suas necessidades básicas e gera riqueza. Viver em um mundo totalmente dominado por organizações seria um pesadelo. Entretanto, viver sem elas seria impensável, ou uma aposta na volta às cavernas. Resta, pois, a opção de domesticá-las e orientá-las para o bem comum.

A árdua tarefa é o objeto de uma profissão, a administração de empresas, que se tornou a mais popular no Brasil, considerando-se o número de estudantes matriculados em cursos de graduação. O ofício teve início há cerca de um século, sob a justa expectativa de se constituir vetor para atingir o bem social.

Entretanto, parece ter ocorrido um descaminho. Rakesh Khurana, professor de Harvard, observa em livro de sua autoria sobre o tema que as escolas de negócios negligenciaram sua missão original, deixando-se levar pelas forças de mercado e tornando-se elas próprias grandes negócios.

Inebriados por uma demanda aparentemente inesgotável, os gestores de escolas de negócios passaram a focar a abertura de novos cursos e a lotar salas de aula. Ao mesmo tempo, os pesquisadores das escolas de negócios se voltaram para a produção de conhecimento, supostamente rigoroso, imparcial e confiável, mas visto por críticos como pseudociência sem norte ético ou valores, pura ferramenta para aperfeiçoar o sistema, ou nem isso.

O convívio, em universidades, dos cursos de administração com outros cursos de ciências humanas oxigenou, entretanto, os currículos, docentes e discentes dos primeiros. Com isso, a partir da década de 1990, ganharam espaço na Europa, América do Norte, Austrália, Nova Zelândia e no Brasil as chamadas teorias críticas.

O novo campo de pesquisa e ensino aglutinou diferentes influências e tradições, de Marx a Adorno, de Weber a Foucault. Debaixo do grande guarda-chuva teórico, o ponto a unir os povos críticos foi um duplo foco nas patologias e injustiças sociais inerentes ao sistema e os riscos à sustentabilidade ambiental criados pelas organizações.

Em 1998, um workshop organizado na Academy of Management, o maior evento científico de gestão do mundo, abriu espaço para os teóricos críticos. No ano seguinte, no Reino Unido, foi organizado um encontro acadêmico específico sobre teorias críticas, atraindo centenas de pesquisadores. Vieram em seguida periódicos e livros. O espaço crítico foi consolidado. 

Como seria de se esperar, os críticos tornaram-se também alvo de críticas. Suas perspectivas e discursos são frequentemente considerados antiquados e anacrônicos. Seus trabalhos comumente soam ingênuos e distantes da realidade, a refletir escassa experiência no mundo real.

O negativismo teimoso de torre de marfim os afasta da possibilidade de diálogo com executivos. Sua confortável posição acadêmica parece acomodá-los a uma distância segura do ativismo transformador.

Ainda assim, seu papel na formação da consciência crítica no interior de algumas escolas de negócios é notável. Estudantes de administração expostos a tais perspectivas desenvolvem pensamento humanista, são menos conformistas e absorvem mais facilmente a complexidade dos modernos sistemas organizacionais.

Estudantes de administração que não têm tal exposição tendem a ser mais técnicos e instrumentais, tornando-se peças de uma grande máquina que mal compreendem e à qual se sujeitam. Mesmo com suas contradições e idiossincrasias, o fomento do pensamento crítico deveria ser ampliado nas escolas de negócios.