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Número 918,

Sociedade

Profissão

O sexo e a cidade

por José Gabriel Navarro — publicado 16/09/2016 11h44
Aos 64 anos, Max Finger é guia turístico de dia e realizador de fantasias eróticas à noite
José Gabriel Navarro
Max-Finger

Max Finger em seus domínios. Cem euros por hora, mas faz abatimento

Era o fim da década de 1970 quando Hermann Heinrich Finger, então com pouco menos de 30 anos, deixou o centro militar onde trabalhava, em Hamburgo, no norte da Alemanha, e viajou até o miolo do país para uma breve visita aos pais. Estava prestes a voltar quando a mãe, protestante fervorosa, disse: “Você não se casa. Você é gay?”

“Ela era religiosa, mas não tão agressiva quanto o resto da minha família fundamentalista”, lembra Finger, apelidado Max no quartel, nome pelo qual é conhecido até hoje. Decidiu sair do armário e entrou num processo sem volta de autodescoberta.

Max garante não ter se envolvido sexualmente com colegas enquanto serviu ao Exército, de 1972 a 1980, mas a percepção de ser um “alfa” ocorreu quando chegou a tenente e comandou dois pelotões. “Gostava de estar à frente daqueles homens todos.”

Ao mudar-se para Hamburgo, segunda maior cidade alemã, passou a conviver com outros homossexuais. Pelas Forças Armadas, participou de excursões ao norte da França, onde topou com remanescentes da aristocracia local cujos poder, elegância e volúpia conquistaram-no.

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Durante o dia, ele organiza passeios turísticos de bicicleta por Berlim (Foto: José Gabriel Navarro)

Deixou a carreira militar sem citar a sexualidade como justificativa para sair. Empregou-se numa seguradora, apaixonou-se por um homem e foi viver com ele, numa relação com sexo “de baunilha” (sem fetiches nem “temperos”) e traições veladas de ambas as partes. Em 1983 separaram-se. Max trocou o que chama de casamento burguês pela noite gay hamburguesa.

Frequentou primeiro uma discoteca. Depois deixou a  boate, no primeiro andar de um edifício perto da Estação Central, pelo porão do prédio, lar do Tom’s Saloon, mais antigo bar gay de Hamburgo ainda em atividade, fundado em 1974. Lá, Max descobriu a cena leather, formada por adeptos de roupas e adereços de couro, muitas vezes aficionados por sadomasoquismo e outras parafilias. Com um parceiro, realizou orgias em clubes gays e em casa.

Até 1999 frequentou o lugar. Estava diagnosticado havia quatro anos com o vírus da Aids quando resolveu se aposentar e mudar para Berlim. Na capital, vislumbrou mais formas de explorar o prazer sexual. Após transar com um conhecido no banheiro público de um parque, ouviu o feedback: “Você é ótimo nisso, por que não vira michê?”

A sugestão, feita em julho de 2004, somada à assumida vaidade de quem se julga “bom de cama”, levou-o à prática eventual da prostituição. Sua renda de aposentado é incrementada com o trabalho de guia de roteiros turísticos de bicicleta por Berlim e adjacências. Outra parte resulta de clientes interessados nos anúncios postados na internet de prática de favores sexuais como mestre dominador.

“Cobro 100 euros (cerca de 380 reais) por hora, mas se o cliente diz só ter 50, faço assim mesmo. Aprendi que mesmo gente pouco atraente tem vida sexual e tenta vivê-la. Esta é uma profissão de cunho social, porque as pessoas pagam por experiências que não teriam de outra forma. Ouço e executo suas fantasias e elas ficam felizes. Sexo é parte fundamental da minha vida. Se eu vir um rosto feliz após uma transa, fiz um bom trabalho. Nada contra Deus, mas isso não pode ser pecado.”

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Durante o período em que serviu no Exército. 'Não saí com nenhum colega militar' (Foto: Arquivo Pessoal)

Os tipos pouco atraentes aos quais se refere têm em geral mais de 40 anos e estão acima do peso. Nada disso, porém, lhe tira o prazer do ofício. Aprecia tanto o fato de ser pago quanto o de dominar a relação. Encontrou aceitação em Berlim, cidade com extensa cena gay e fetichista, herança do hedonismo vivido em sua porção ocidental nas décadas de 1970 e 1980 e da “cultura do corpo livre”, o nudismo instituído no Leste pela proscrita República Democrática Alemã.

Max, cuja contabilidade sexual aponta 6 mil parceiros, sem revelar quantos pagaram pelo encontro, estabelece regras para as orgias que organiza. Desejos e proibições precisam ser manifestados antes. Todos são informados de que ele tem HIV, há mais de duas décadas controla sua carga viral com medicamentos, e o uso de preservativos é obrigatório.

Seu cotidiano foi registrado em um documentário de 2013, Max Und Die Anderen (Max e os Outros). Numa passagem emblemática do clima liberal de Berlim, o protagonista deixa seu condomínio com dois sacos transparentes recheados de 3 mil preservativos. Um vizinho, numa cadeira de rodas empurrada por uma mulher, pergunta o que vai fazer naquele fim de semana. “Transar”, Max retruca. A senhora pede camisinhas. “Não. Não tem o suficiente. Elas foram contadas. Estão todas numeradas e carimbadas”, ele ironiza, e o vizinho ri. “Eu só queria algumas!”, brinca a mulher enquanto se afasta. 

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