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Número 918,

Cultura

Artes

A bienal do bem

por Rosane Pavam publicado 19/09/2016 05h03
A mostra "Incerteza Viva" prega a mobilização social, advoga a participação feminina e mantém mornas as expectativas artísticas
Leonardo Rodrigues
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No dia 5, a manifestação dos "ativistas" do grupo Aparelhamento

Os artistas do coletivo Aparelhamento planejaram a ação no dia 31 de agosto, quando o golpe foi selado no Congresso Nacional. Na manhã de 5 de setembro, vestiram camisetas nas quais se liam, entre outras, as inscrições Fora Temer, Temer Jamais e Fora Golpistas, e dirigiram-se ao Pavilhão Ciccillo Matarazzo, onde ocorreria a coletiva de apresentação da 32ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo.

O Aparelhamento serviu-se da enorme visibilidade do evento, um dos mais antigos no calendário mundial, e por meio do artista Amilcar Packer reivindicou o fim do governo ilegítimo e da repressão policial contra os manifestantes. No dia seguinte, os artistas voltaram ao Parque do Ibirapuera abraçados, às dezenas, para externar idêntico protesto.

Os “artivistas” do grupo, em ação desde julho, mesclam o fazer da arte ao da mobilização social. Alguns deles, como Bárbara Wagner, Jonathas de Andrade e Cristiano Lenhardt, estão entre os 80 artistas de 33 países a mostrar seus trabalhos até 11 de dezembro na bienal Incerteza Viva, assim intitulada por seu principal curador, o alemão Jochen Volz.

Michel Temer disse que a incerteza acabou. Mas, aqui, queremos discutir as incertezas, as formas de viver com o desconhecido.” Volz parecia satisfeito com o acerto de sua escolha temática, mas fez uma ressalva: “Precisamos desvincular a incerteza do medo”.

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Esculturas de Krajcberg no térreo do pavilhão da bienal (Ana Carolina Fernandes)

A curadora Júlia Rebouças referiu-se então à necessidade de uma “mobilização urgente depois de 31 de agosto”. Em meses anteriores, ela percorreu regiões distantes dos centros mercadológicos da arte, como Cuiabá, para discutir sobre o enfrentamento das aflitivas questões ambientais, do preconceito de gênero, da violência contra a mulher.

É um discurso assinado pelo Ministério da Cultura, este que por pouco, durante a administração interina, descambou para status de secretaria. “Por meio da arte logramos romper a indiferença, estimular a reflexão e o espírito crítico”, escreve Marcelo Calero, atual titular da pasta, em um minicatálogo do evento. Desde sempre a vitrine do ministério é a bienal, que contou com um orçamento de 30 milhões de reais, 20% maior do que o de 2014.

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A gravura Rumores de Guerra em Tempo de Paz, de Samico

Para um evento que desde sua 27ª edição, dez anos atrás, eliminou as representações nacionais, a busca de um critério de unidade de escolha das obras parece essencial. Fica o curador, então, responsável por apontar o espírito segundo o qual se guiará a alma expositiva. Mas a dificuldade estará sempre em explicar seu conceito de escolha, como provou realizar Volz no material didático distribuído a professores, organizado na encadernação Incerteza Viva – Processos Artísticos e Pedagógicos.

O curador faz do “fim do mundo como o conhecemos” uma de suas justificativas. “A arte vive à custa da incerteza, do acaso, da improvisação e, simultaneamente, procura contar o incontável e medir o imensurável”, escreve. “Não faria sentido tomar seus inúmeros métodos de raciocínio e execução e aplicá-los a outros campos da vida pública?” Ele se apoia no filósofo Franco Berardi, que exclama no Manifesto Pós-Futurista: “Exigimos que a arte se torne uma força transformadora da vida”.

A seguir essa vocação, a bienal acolherá todo manifesto contra um estado de paralisia. Como contestar seu ativismo, exercido em boa hora? Mas a funcionalidade artística é um elemento estranho, a atrapalhar a boa recepção desse conceito. O propósito mobilizador não necessariamente determina o que é arte, se é que determinar isso ainda importa para alguém. Em 1890, Oscar Wilde escreveu que a arte “espelha o espectador”, não a vida. O vício e a virtude seriam sua matéria. Mas o entendimento de Wilde segundo o qual “a arte é de todo inútil” ficou para trás.

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Frans Krajcbeg se interessou pelo evento apenas por vê-lo como a primeira bienal da ecologia (Ana Carolina Fernandes)

Volz compara os conteúdos apresentados a “jardins”, à maneira do que ocorre nas instalações Garden – A World Model, do sueco Öyvind Fahlström, ou em Back to the Fields, da escocesa Ruth Ewan. Quer relacionar-se com o parque, tornando o exposto quase indistinto daquilo que o circunda. Mas não adianta comparar o belo, presente no parque, com o exposto no pavilhão. Beleza não se põe na mesa da arte contemporânea, a exasperar as certezas de um Vinicius de Moraes.

No andar térreo estão as três séries de esculturas apelidadas de Gordinhos, Bailarinas e Coqueiros, confeccionadas por Frans Krajcberg, que desde a década de 1970 habita Nova Viçosa, na Bahia. Ali, ao lado da obra Ágora: OcaTaperaTerreiro, de Bené Fonteles, exibem-se os troncos calcinados que o artista polonês de 95 anos transformou em obras de arte. Rebouças conta que Krajcberg se interessou pelo evento apenas por vê-lo como “a primeira bienal da ecologia”. Nos anos 1950, ele esteve no pavilhão como curador. Sua função, bem menos intelectualizada então, era pendurar quadros na parede.

As incríveis exceções a um espírito de trabalho de conclusão de curso existem nesta bienal, como a série de gravuras em que o pernambucano Gilvan Samico explora cosmologias e sagra a natureza. A produção de cada uma de suas peças levou um ano de trabalho do artista, de 1975 até sua morte, em 2013, aos 85 anos. Outra autora cujo feitio artístico se destaca é a sul-africana Mmakgabo Helen Sebidi, de 73 anos. Seu Tears of Africa (1988) retrata com carvão, tinta e colagem a degradação humana durante o apartheid

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A artista Carolina Caycedo, nascida na Inglaterra em 1978 e residente na Colômbia, usava camiseta com a inscrição Diretas Já (Ana Carolina Fernandes)

A participação feminina é a maior, diz-se, desde a criação do evento, em 1951. Carolina Caycedo, nascida na Inglaterra em 1978 e residente na Colômbia, usava camiseta com a inscrição Diretas Já na apresentação à imprensa. Caycedo mapeou a destruição ambiental causada pelas usinas hidrelétricas no Brasil. Ela constatou a lama da Samarco e compôs grande colagem a partir de mapas da região e de outras devastadas. E representou as lendas indígenas dos rios Yaqui, Yuma, Elwha e Doce à moda de um trabalho escolar, para fácil compreensão.

A jamaicana Ebony G. Patterson espelha Kingston e seus habitantes, muitas vezes incapazes de reconhecer sua condição de negros, antes “marrons”, como se o clareamento de pele os distinguisse. A artista de 35 anos compõe tapetes a partir de fotografias, que recebem várias camadas de tecidos e ornamentos, como miçangas e plásticos. Sua tapeçaria mais impactante evoca o Brasil. Mais exatamente, os cinco jovens negros que em novembro passado foram fuzilados em um carro pela polícia do Rio de Janeiro. 

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A artista Ebony G. Patterson espelha Kingston e seus habitantes, muitas vezes incapazes de reconhecer sua condição de negros (Ana Carolina Fernandes)