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Número 917,

Sociedade

The Observer

O sonho acabou?

por Observer — publicado 09/09/2016 12h47
Aquele dos anos 60, das viagens de ácido, dos Black Panthers, da geração hippie, virou peça de museu
Bernie Boston/ The Washington Post/ Getty Images
vietnã

Protesto contra a Guerra do Vietnã, Washington, 1967: o sentido literal do flower power

Por Alex Needham

Em 12 de julho de 1967, o jornal St. Petersburg Times, da Flórida, deu em manchete: “Dame Margot e Nureyev pegos em batida hippy”. A polícia tinha invadido uma festa em Haight-Ashbury, em São Francisco, Califórnia, e inesperadamente apanhara dois famosos festeiros, Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev, que estavam na cidade havia apenas quatro horas. “Cigarros de maconha foram encontrados no local”, comentou o jornal. Os dois bailarinos foram libertados porque não havia provas de que eles tivessem fumado a erva. Mas Nureyev, animado, fez um jeté na traseira do furgão da polícia.

Fonteyn e Nureyev foram duas das estimadas 100 mil pessoas que baixaram em São Francisco para ver pessoalmente a atividade durante o “verão do amor”. Afinal, tudo estava acontecendo.

Havia os protestos contra a Guerra do Vietnã no campus de Berkeley; os Black Panthers, movimento revolucionário afro-americano de Oakland, marcharam armados diante do Capitólio estadual; e bandas como Grateful Dead, Jefferson Airplane e Big Brother and the Holding Company, esta comandada por Janis Joplin, se apresentaram em palcos como os do Avalon e do Fillmore, com seu psicodelismo embebido em ácido expressando as preocupações da contracultura, do surrealismo ao sexo. 

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No palco de Woodstock (1969), o cântico roots de John Sebastian (Kerry Taylor Auctions)

Tudo isso era devidamente transmitido por uma mídia atônita às salas de estar do mundo todo, enquanto discos como Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles (1967), faziam um chamado à contracultura nos dois lados do Atlântico. Duas semanas após seu lançamento, foi tocado pelos alto-falantes no Monterey Pop, possivelmente o primeiro festival de música. 

Houve também os hippies que partiram para o campo para viver em comunidades com um exemplar do Whole Earth Catalog, que continha uma riqueza de informação que ia das melhores lamparinas a querosene ao livro mais indicado sobre criação de cabras. Na Universidade Stanford, enquanto isso, cientistas trabalhavam em avanços na computação pessoal que seriam as bases do Vale do Silício e criariam o futuro – nosso presente.

É uma história em escala caleidoscópica, e neste outono o Museu Victoria & Albert, em Londres, tentará contá-la em uma exposição intitulada You Say You Want a Revolution? Records and Rebels 1966-1970 (Vocês Dizem Que Querem uma Revolução? Discos e Rebeldes 1966-1970). A mostra pretende delinear como o mundo se transformou naqueles anos sísmicos, abordando a Swinging London, as manifestações estudantis em Paris e os pousos na Lua – sendo esses últimos, segundo o curador Geoffrey Marsh, “os mais corajosos gestos humanos”.

Marsh e sua colega curadora Victoria Broackes criaram a exposição de grande sucesso sobre David Bowie em 2013. Como aquela, esta promete usar música, objetos e imagens não apenas para reanimar a história pop e social, mas também para evocar parte da magia e da mania daquele período tumultuado. É também um lembrete salutar da paz, do amor e da compreensão que sustentavam os ideais hippies – qualidades que parecem estar em falta em 2016.

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No cinema, o fashion-chique de swining London, em Blow Up, de Antonioni, 1966 (Agency Photograph VA London)

Para criar a exposição, o V&A reuniu objetos que vão da túnica da cantora Grace Slick, do Airplane, ao primeiro mouse de computador, e falou com uma série de membros sobreviventes da contracultura.

Ao longo de alguns dias em São Francisco, conduzido por Broackes, também conheci alguns desses antigos hippies que mudaram os paradigmas e visitei os locais de maior rebeldia.

Vamos até a escadaria do Salão Sproul na Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde Mario Savio, porta-voz do movimento pela livre expressão, fez seu discurso incrivelmente apaixonado, inspirando seus colegas estudantes a armarem um sit-in (manifestação com pessoas sentadas no chão) e parar “o funcionamento da máquina”. Os protestos pela livre expressão marcaram uma ligação direta do movimento pelos direitos civis, do qual Savio havia participado, aos protestos contra a guerra que convulsionariam Berkeley no fim dos anos 60, assim como os beatniks da década anterior, como Allen Ginsberg e Neal Cassady, haviam influenciado profundamente os hippies.

Encontramo-nos com Rick Moss, curador do Museu Afro-Americano em Oakland, que tinha 12 anos quando os Black Panthers começaram a galvanizar sua comunidade em São Francisco. “Foi muito poderoso, porque em nenhum momento na sua educação lhe davam exemplos em que os negros se manifestavam”, diz ele. “Então, quando você via aqueles caras marchando até o Capitólio e carregando suas armas, era como o Cavaleiro Solitário. Nós pensamos: ‘Isto é ótimo! É assim que se faz, reagir à injustiça’.”

Depois há os artistas que definiram a estética do psicodelismo. Um deles, Joe McHugh, criou um pôster inspirado no Jefferson Airplane chamado Coelho Branco, que mostrava um coelho de pé sobre um tabuleiro de xadrez, com as palavras “Mantenha sua cabeça” se desmaterializando ao fundo. Outro, Stanley Miller, conhecido como Mouse, fez o desenho do crânio com rosas para o Grateful Dead, embora ele preferisse a companhia de Janis Joplin. “Ela era louca”, lembra Miller, com um brilho no olhar. “Na primeira vez que veio ao meu ateliê, ela me atacou. Fiquei meio assustado.”

A música o havia atraído de Detroit para a Califórnia: “Foram os Byrds e The Mamas and the Papas – aquele som brilhante, como uma sereia me chamando”, diz ele, com ar sonhador. Como a maioria das produções culturais da época, seus cartazes eram induzidos por drogas, mas ele nunca empregou as letras arredondadas e os tons vivos populares na época. “Muita gente desenhava imagens da experiência psicodélica com muitas cores e mandalas, mas para mim (de ácido) tudo ficava superclaro.”

Mais tarde Miller mudou-se para Londres, onde passou um ano trabalhando para a revista Nova e convivendo no quartel-general dos Beatles, a Apple, em Saville Row (hoje uma loja da Abercrombie and Fitch). Ele viu o último show da banda no teto do edifício, sem perceber que estava testemunhando a história. Também parou de tomar ácido naquele ano. “Saiu de moda. Foi substituído nos anos 70 por muita cocaína, e eu não queria isso.”

Steward Brand, estudante de biologia em Berkeley e entupido até a tampa de mescalina, peiote e LSD, lembra hoje, aos 77 anos, a interseção do movimento hippie com a experimentação tecnológica que construiu o Vale do Silício – tema da última sala na exposição no V&A. Brand e seu colaborador Lloyd Kahn mergulharam na viagem fomentada a ácido de trazer de volta à Terra 12 espécies de animais extintos. Viraram, os dois, conservacionistas radicais – alucinados talvez seja o correto. Tinham a quem confrontar.

 O arquiteto Buckminster Fuller – cujo domo geodésico foi exibido no Pavilhão dos Estados Unidos, na Exposição Mundial de 1967, em Montreal – havia defendido a tese de que “as pessoas pensam que a Terra é plana, o que as faz pensar que seus recursos são infinitos, e se elas compreenderem que é uma esfera e, portanto, finita, elas tratariam tudo de outra forma”. 

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Os delírios lisérgicos de bandas como o Greatful Dead e sua legião de seguidores ( Keystone/ ZumaPress/ FotoArena)

Brand fez broches impressos que perguntavam: “Por que ainda não vimos uma foto da Terra inteira?”, e no ano seguinte uma imagem tirada por satélite foi divulgada pela Nasa. Ela deu a imagem da capa e o título do projeto seguinte de Brand, o Whole Earth Catalog (Catálogo da Terra Inteira), publicado no outono de 1968, de forma bianual até 1972, e depois esporadicamente. 

Como muitos originadores da contracultura de São Francisco, Brand estava entediado com o enorme influxo de curiosos em Haight-Ashbury, e em 1968 rumou para Novo México e Colorado para participar do movimento das comunidades no vasto campo americano. Em pouco tempo percebeu que os moradores das comunidades precisariam de ferramentas, livros e ideias, que ele decidiu incluir em um catálogo de compras pelo correio. “Uma inspiração é a melhor fonte”, diz ele. “O catálogo permite a capacidade de ter uma inspiração e agir de acordo com ela, e essa é basicamente a minha vida.”

Brand me entrega sua cópia do primeiro Whole Earth Catalog, com cantos de páginas dobrados e com as dimensões de uma grande revista (haverá um exemplar na exposição). 

Em nível puramente de mídia, o Whole Earth Catalog teve uma enorme influência, quando The New York Times relançou sua revista de domingo, em fevereiro do ano passado, também tinha um globo na capa. As páginas internas do catálogo são maravilhosamente desenhadas, cheias de informação, mas nunca desordenadas ou confusas. Não foi isso, porém, o que tornou o catálogo realmente inovador.

Em primeiro lugar, ele foi crowdsourced (financiado coletivamente) 40 anos antes que o termo se tornasse comum. Brand pediu que os leitores enviassem sugestões para artigos que as pessoas das comunidades achariam úteis (“O cliente sempre tem razão”, dizia ele), pagava 10 dólares por artigo usado e imprimia os mais úteis, formando cerca de um quarto do conteúdo total.

Isso salientava o fato de que o catálogo não era um livro, mas uma rede, onde pessoas de mentalidade parecida podiam encontrar e partilhar a informação de que precisavam para entrar em mundos alternativos e aperfeiçoá-los. Simbolizando isso – ao lado de botas e tendas indígenas –, a primeira edição apresentou o computador desktop Hewlett-Packard 9100A Calculator, então vendido por 4,9 mil dólares.

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O projeto revolucionário dos Black Panthers, os anos 60 consumiram sua utopia. (Courtesy of Steward Brand)

Brand ligava os mundos das comunidades e dos computadores, após se interessar pelos últimos quando estudava em Stanford, onde filmou a primeira demonstração pública de um mouse de computador em 1968. “Eu estava infinitamente impaciente para que todas essas coisas chegassem ao mundo, porque eu já as havia visto – o mouse e a digitação online, sendo capaz de mutuamente massagear algo na tela com outra pessoa, o que ainda hoje é meio difícil... (era) equipamento para ampliar o intelecto humano.”

Essa reconceituação do mundo como uma rede de informação tornou o catálogo extremamente inspirador para um punhado de cientistas da computação locais. Para os mais progressistas e idealistas, as possibilidades da tecnologia sugeriam um novo mundo em que a informação poderia ser compartilhada entre pessoas de mentalidade semelhante, saltando barreiras de geografia, raça ou classe.

Uma delas era Steve Jobs, que foi criado em Palo Alto e que, em 2005, disse a um grupo de estudantes que se formavam em Stanford em um famoso discurso: “The Whole Earth Catalog … foi uma das bíblias da minha geração... foi uma espécie de Google em forma de livro brochura, 35 anos antes que surgisse o Google. Era idealista, transbordando de ferramentas bacanas e ótimas ideias”.

Jobs concluiu sua fala com: “Continuem famintos, continuem tolos” – o lema de Brand de uma edição de meados dos anos 70, destinada a ser a última, que Jobs reivindicou como seu verdadeiro etos e que agora se tornou comum como dístico de camiseta e meme. O que a frase significava para Jobs? Na época em que ele a usou, estava muito rico e poderoso, e acho que consciente do dilema do inovador, em que você pode falir se não continuar minando seu próprio trabalho”, diz Brand. “E ‘continue faminto, continue tolo’ era possivelmente uma fórmula para que ele continuasse inventando novas coisas. Mesmo quando a última havia tido êxito, ele pensava que seria destruído por ela.”

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A Djinn Easy Chair, por Oliver Mourgue, de 1963: o delírio é sempre multicolor (Albert Museum)

O documentário feito por Alex Gibney sobre Steve Jobs afirmava que, embora Jobs tivesse sido fortemente influenciado pela contracultura, ele afinal a havia usado para criar máquinas sem as quais a humanidade não pode viver hoje, e não para esclarecer a sociedade ou a si mesmo. Brand, que veio a conhecer Jobs depois do discurso em Stanford, discorda. 

“Acho que Steve estava bastante esclarecido no final. Como qualquer pessoa, dizem todos, depois que ele se casou a crueldade o abandonou e os filhos o humanizaram enormemente, de modo que a ferocidade se tornou menos sincera. Mas em termos do que ele fazia e como fazia eu não o acusaria. Que ele pudesse fazê-lo tão bem – e ajudar a inspirar figuras como Jeff Bezos (CEO da Amazon) e Elon Musk (CEO da Tesla) e outras que até hoje continuam diluindo sonhos inovadores nessa dura realidade, fazendo coisas que funcionam muito bem – talvez faça parte do que ele aprendeu com o Whole Earth Catalog.”

Uma última escala é no Museu da História do Computador em Mountain View, o coração do Vale do Silício, onde está exposto um século de progresso tecnológico que possibilitou a expansão da mente. Nosso guia, o curador Chris Garcia, é cético sobre se Jobs pode ser considerado uma figura da contracultura. “Ele queria mudar o mundo, mas ao mesmo tempo queria ganhar muito dinheiro”, diz ele. “Você conhece a frase: ‘Quando a coisa fica estranha, os estranhos viram profissionais’? Ele era definitivamente um profissional desde o início.” 

Mas Garcia indica outra figura como um dos verdadeiros heróis da contracultura, seu parente Jerry Garcia, líder do Grateful Dead, que ainda era a banda mais cultuada dos EUA quando apresentou seus shows de despedida no ano passado (Jerry morreu em 1995). Ele aponta o fato de que os Grateful Dead eram tão ligados à comunidade que até tinham um enclave em seus shows onde membros da plateia podiam ficar de pé e gravar a apresentação. “Eles eram experimentais, vanguardistas, e literalmente permitiam que as pessoas gravassem seus shows”, diz Garcia. “Isso é ridículo, em uma época em que se ganhava dinheiro vendendo discos, deixar as pessoas fazerem os seus. Eles estavam dando, experimentando e ajudando, porque qualquer um que chegasse perto de Jerry provavelmente acabaria ficando na casa deles durante cinco ou seis dias.”

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Nureyev e Dame Margot brindaram com um baseado "o verão do amor" (Alamy/ Fotoarena)

Comunitário, generoso e pacífico é um modo de ser que ainda encontra eco, sobretudo em um mundo cada vez mais atomizado e mal-humorado. Enquanto as dezenas de milhares de pessoas que rumaram para as comunidades eventualmente voltaram para casa, ao ver que o partilhamento das coisas e o amor livre eram mais frágeis do que haviam imaginado, os ideais ainda têm uma atração poderosa, tão estranha, mas de algum modo tão reconfortante quanto o coro de Lucy In the Sky With Diamonds. Embora São Francisco seja hoje um dos lugares mais caros do mundo, ainda é o lar de sonhos e grandes ideias, uma lembrança de que outros mundos são possíveis. 

*A exposição será inaugurada em Londres no dia 10 de setembro.