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Número 917,

Saúde

Tratamento

Enxaqueca crônica

por Rogério Tuma publicado 09/09/2016 12h50
Medicamentos ajudam e podem atrapalhar. Mas surgiram novas técnicas
Ilustração: Estella Maris. Foto: Shutterstock
Enxaqueca

Um melhor entendimento da fisiopatologia da enxaqueca propiciou avanços no tratamento

Dor de cabeça é uma das queixas mais comuns nos consultórios e pronto atendimentos. Atinge mais de 20 milhões de brasileiros e afeta a produtividade, o bem-estar físico e social das pessoas, além de ser uma das mais comuns causas de ausência no trabalho.

É quando a dor de cabeça fica crônica que as pessoas mais reduzem a capacidade de trabalho, pioram o humor e se afastam dos familiares e amigos, isolando-se em quartos escuros.

São 2 milhões de brasileiros que se queixam de dor de cabeça todos os dias, por um período de pelo menos três meses. Esta é chamada cefaleia crônica, que, apesar de não ser tão forte, é incômoda e pode ocorrer por dois motivos.

O primeiro: a pessoa tem uma enxaqueca que cronificou (dos 16 milhões de brasileiros que têm enxaqueca, mais da metade vai passar por isso em algum momento da vida). Segundo: a cefaleia crônica diária tem como principal fator de desenvolvimento o uso abusivo de medicações analgésicas, que acabam perdendo eficácia e reduzem o limiar da dor. 

Um melhor entendimento da fisiopatologia da enxaqueca propiciou avanços no tratamento. Aprendemos que a dor frequente estimula e facilita a condução nervosa de mais estímulos dolorosos, criando um círculo vicioso. O nervo trigêmeo, responsável pela sensibilidade da face e da base do crânio, fica mais estimulado e sensível, e a percepção da dor nas áreas cerebrais profundas e corticais fica mais aguçada.

O paciente, portanto, torna-se mais sensível à dor quanto mais frequentes e mais duradouras forem as crises, até que elas se tornem diárias. O estresse, a obesidade e a depressão têm também um papel importante, tornando a dor mais frequente e incapacitante.

Não existe um medicamento feito apenas para prevenir a enxaqueca. Usamos medicações para tratar hipertensão e arritmias cardíacas, como os betabloqueadores, antidepressivos e anticonvulsivantes, que, por sua ação nos vasos cranianos ou na neurotransmissão, acabam controlando as crises de cefaleia.

O topiramato, por exemplo é um anticonvulsivante e o único medicamento que, testado de maneira cega, se mostrou eficaz não somente no controle das crises, mas também evitando que a dor se cronifique.

Além de medicações, novas técnicas se mostraram bastante eficazes. Uma delas é o uso de toxina botulínica. É bem tolerada e sua ação não é apenas por relaxamento muscular, mas por ação de bloqueio em terminações nervosas periféricas e mesmo cerebrais. De três a sete dias após a aplicação, a melhora da dor é evidente, porém novas aplicações em intervalos de quatro a seis meses podem ser necessárias.

A eletroestimulação supraorbitária é uma novidade: um pequeno arco como uma coroa descarrega ondas elétricas contínuas na região frontal e acima dos olhos. Seu uso por alguns minutos durante o período de dor pode controlar a crise aguda e o uso diário pode evitar novo surto e a cronificação da enxaqueca. Outra medida não invasiva é o estímulo transcutâneo do nervo vago.

Esse nervo vago, assim como o trigêmeo, está envolvido no processo de cronificação da enxaqueca, e aparelhos que fazem estimulação elétrica em baixa frequência na pele perto do trajeto do nervo, na região do pescoço, tendem a controlar as crises por até um mês.

A modulação central é outra técnica não medicamentosa utilizada para controlar a enxaqueca. Consiste em criar um campo magnético em volta do cérebro por meio de bobinas de alta potência. O campo magnético, dependendo da frequência e potência, cria um estímulo elétrico em regiões mais profundas e no córtex cerebral, e pode estimular ou inibir certas áreas cerebrais dependendo da forma e posição de cada bobina. Para saber mais do tratamento não farmacológico, consulte o site da Sociedade Brasileira de Cefaleia

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