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Número 917,

Cultura

Papinho Gourmet

Coisa de criança

por Marcio Alemão publicado 09/09/2016 12h49
Nada me deu tanto prazer quanto meu primeiro cigarro com o meu primeiro café
Ilustração: Estella Maris Foto : Istockphoto
Café

- Eu sempre associei o café às manhãs, fossem no meu sítio ou mesmo em meu prédio

Demorei pra reconhecer, pra constatar e pra admitir que eu tenho quase certeza de que não gosto de café.

– Nem dos novos, os de alto nível?

– Foram justamente esses que me fizeram chegar a essa conclusão.

– Explica pra gente.

– Acredito que tudo começa nos tempos de moleque. O café que minha avó fazia. Eu sempre associei o café dela às manhãs, fossem no meu sítio ou mesmo em meu prédio. No sítio, o cheiro vinha com todos os outros cheiros de uma manhã no mato. E tinha o frio, a fumaça saindo da boca, a perspectiva de mais um dia espetacular e o cigarro. Parei há oito anos de fumar e ainda não encontrei nada que me desse tanto prazer quanto o primeiro cigarro com o primeiro café. Mas o café que ela fazia era todo errado, segundo as regras recentemente estabelecidas pelos tomadores profissionais. Ela fervia a água, jogava o pó, mexia e depois coava no coador de pano. 

– Me lembro desse método. E todo mundo gostava, né?

– Tolos ignorantes. Mas fato é: minha memória afetiva de café me impede de apreciar os novos. Na largada já digo que não consigo me acostumar nem com reza brava com o café sem açúcar.

– Isso é coisa da infância.

– Mas eu me acostumei a tomar o uísque sem o guaraná, a cachaça sem o todo que faz a caipirinha. Acostumei a tomar cerveja e prefiro as mais poderosas. Mas o tal do café amargo me incomoda. E se é no amargor que os detalhes da grandeza de um pó se revelam, danei-me. E danei-me de fato com o tal de filtro e coador Hario. Paguei caro. Comprei pó moído na hora e lotado de recomendação. Orgânico, nasceu em berço esplêndido numa fazenda-modelo, pouca acidez, bom corpo, notas de chocolate, de cacau, um pouco de fruta. Segui todas as instruções. Provei. E na sequência preparei um desses que a gente encontra no supermercado, no filtro vulgar, sem nenhum cuidado específico ou capricho.

– Preferiu o vulgar e trigueiro?

– Pior que isso. Não consegui entender por que o bacanão era tido como tal. Não consegui também perceber as diferenças, que para um conhecedor haveriam de gritar ao primeiro gole. Ou seja, não sei tomar café e acredito que seja tarde para aprender.

– O lado bom dessa triste e comovente história: não vai precisar gastar os tubos para tomar um cafezinho do jeito que você gosta.

– Não tenha dúvida. Agora pense você que prejuízo gigantesco teriam os produtores de caros vinhos se todos decidissem lançar mão desse tipo de sinceridade.